AUTORAMENTE | Drummond, de Tiago Goes Cardoso

Que enigma é esse que nos faz verter lágrimas, 

quando a cabeça ainda descansa sobre o travesseiro,

e reduz o mundo a esse cheiro que nos embriaga, nos acolhe,

como se pudéssemos retornar aos dias de sol de nossa infância?

Já não basta aprendermos com as sombras  

as sutilezas da morte que nos espera? 

Foi o sonho não é!? 

Aquele abraço foi a despedida de sua última imagem;

abrir os olhos e restar projetado no teto a silhueta

esmaecida que caminha em direção ao mar da irrealidade.

Assim são formados os dias tempestuosos? Lançados em ondas

que tragam a bússola que trazemos no peito? 

… 

Ficamos a vagar, a dobrar esquinas  

com o verso de uma música de que não gostamos a repetir-se

e pensamos já não termos todas as faculdades em boa ordem.

… 

Foi aí que pensei em você 

Visitar o Carlos, mandar-lhe uma carta, foi o que pensei…

… 

Caro Carlos, 

Há em ti sempre um sorriso terno, 

os braços estendidos para o abraço de dois taciturnos.

O copo com o vinho no bojo de cada palavra,  

aquece e faz correr no sangue 

a semântica de um mundo mais iluminado, 

ainda que também nos faça ver com clareza  

os círculos de seu inferno; 

mas (mistério!) sabedores de que habitamos  

uma planície cujas cores realçam  

o tamanho de nossa linguagem; 

fica mais fácil continuar a construir essa casa. 

Cada palavra uma beleza concreta  

que sempre esteve lá,  

mas que nossa urgência,  

uma urgência mesquinha, nos toldou;  

tantas são as pedras no caminho. 

Carlos, 

Às vezes me sinto um impostor  

vertendo lágrimas ao preço de ontem, 

mas quando te visito, meu vizinho, meu irmão, 

penso que somos sujeitos que embalam dias morosos, 

de muitas esquinas, em braços cansados,

porém, com a força de uma comicidade que foi limpa

por lágrimas quentes, esse líquido aquecido no amor,

que nos faz mais silenciosos e mais lentos.

Sujeitos que param e se esquecem nos movimentos,

nos sons e vão pairando em ventos de aventura 

ou no bonde de todos os dias. 

Mas não te escrevo amigo Carlos, sigo teu conselho,

“pois que toda a finura 

do sentimento escapa à letra viva.” 

Ainda há esquinas por aqui; 

“perdoa a quem confessa (pois não mente):

o que a pena emudece por desgaste, 

no coração floresce plenamente.” 

E já não ouço aquela música. 

Foi bom pensar ti!

Tiago Goes Cardoso nasceu em Curitiba em 1985, onde reside atualmente. É graduando em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná.Escreve poesia e contos, possui trabalhos publicados no Jornal Boca do Inferno e no Jornal Cicuta, ambos publicados por estudantes da UFPR.

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