AUTORAMENTE | Textos de Tanise R. Sutil

ContoQuando o homem vira bicho

Poucos acreditarão na minha história quando eu contar, talvez creiam que seja bruxaria ou algo do tipo. Eu fugi muito tempo da minha consciência, no entanto, a conta chegou para ser cobrada. Veio de maneira assustadora e inusitada. Para ser mais exato, veio de maneira silenciosa, caminhando sob quatro patas.

Era sexta-feira, e como de costume, às sete horas me levantei da cama planejando fazer minha caminhada matinal. Aquele dia, porém, começou diferente. Após uma série de pesadelos que deixou em mim resquícios de sentimentos ruins, acordei antes mesmo de o despertador tocar. A manhã escura preencheu o quarto com uma melancolia fora do comum. Permaneci alguns minutos deitado, e no silêncio pude perceber o quão solitário eu estava. Senti-me desprezível, me questionando em que ponto da vida deixei as coisas seguirem aquele rumo. Mas agora lamentações não fariam as coisas mudarem, isto era fato. Depois de preparar e ingerir um café bem forte, saí pela manhã gelada em direção ao parque.

O ar frio penetrava minhas narinas e chocava-se em meus pulmões. A morbidez das ruas escurecidas entrava em conflito com o meu interior que se encontrava caótico e abafado. Eu me perdi em mim mesmo, já não sabia mais quem eu era ou quem seria dali em diante. Enquanto trocava passos vagarosos, divagava em meus pensamentos, algo naquela manhã fortalecia minha intuição de que alguma coisa estaria para acontecer e que eu precisava muito continuar caminhando. O vento parecia uma voz sussurrando em meus ouvidos coisas que eu não podia ignorar. Eu estava ficando louco?!

O parque estaria completamente deserto, não fosse a presença de um casal correndo em passos sincronizados, um indivíduo corpulento com seu Golden Retriever e um ciclista que chegava quase junto comigo. O dia parecia tão preguiçoso que até a garoa ameaçando cair demonstrava desinteresse em cumprir sua missão. Estudei o ambiente por um instante, programei meu dispositivo e comecei a correr ao longo da pista. Com alguns quilômetros atingidos, parei sob uma árvore e me sentei no gramado, onde fiquei observando o movimento que aos poucos ganhava o lugar.

Subitamente tive a impressão de estar sendo observado. Olhei ao redor e não havia ninguém ali perto que parecesse prestar atenção em mim. Um arrepio subiu até minha nuca, senti um calafrio atravessando a espinha. Tão logo vi que ao lado da árvore um amontoado de pelos negros repousava serenamente. Ora, um gatinho inofensivo me causara tanto pavor! Ri de minha tolice e acariciei sua lombar, num gesto contrito. Ter agido desta forma me trouxe, depois, uma grande consequência. Antes tivesse ignorado o felino.

Olhei no relógio e me levantei para ir embora. Eu não gostaria de ter que ir tão cedo, pois o dia seria extremamente desagradável. O trabalho como sempre estressante, testaria todos os limites de paz que eu poderia sentir naquela sexta-feira. Caminhei mais um pouco e me arrastei para fora do parque. A sensação de alguma coisa estranha no ambiente permaneceu comigo mesmo quando eu já estava na beira da rua, persistindo ao longo do caminho. Eu tinha a impressão de estar sendo seguido, e várias vezes olhei para trás e não via nada além de pessoas aleatórias que sequer notavam minha presença. Acelerei o passo e trotei em direção à minha casa. Ao entrar pelo portão o coração disparou com tamanho susto que levei ao ver aquela criaturinha que me esperava.

O gato preto estava sentado na calçada me encarando com seu olhar felino julgador. Como ele fora parar ali era um mistério para mim. Aliás, mistério resume tudo o que aconteceu comigo depois da chegada daquele bichano em minha casa. Sua chegada repentina seria apenas a primeira atitude que me causaria espanto, as outras me fariam até questionar-me se a vida era mesmo real.

Naquela tarde abri uma garrafa de uísque e fui para o quarto. Decidi que não ia trabalhar. Nada de escritório, eu só queria sossego. Meu coração estava apertado e eu não sabia o que seria de mim depois da separação. O que era bizarro para mim, pois eu não me recordava de ter me divorciado. Estes e outros detalhes fugiam da minha cabeça e cansado de lutar com isso, tentei dormir.

Repentinamente abri os olhos e me assustei. O gato estava parado ao pé da cama, tomando seu banho através de frenéticas lambidas. Como ele havia entrado? Ao ver que eu o observava, deu um impulso e pulou no colchão. Eu não tinha tempo nem disposição para cuidar de um animal de estimação e, depois do meu cochilo, eu precisava me livrar dele.

– Sai, gato! – ralhei, mas sem sucesso. Nem um movimento que indicasse que ele sairia dali. Fechei os olhos novamente.

– Teddy Salim. – Acordei e meu coração parou por um segundo. O gato falou! Eu não estava tão bêbado para ouvir um animal falando. Ele me olhou seriamente e continuou: – este é o meu nome. Não é Gato. E não se preocupe, só estou aqui para te ajudar. Você precisa vir comigo.

Era só o que me faltava, um bichano falando comigo, querendo me ajudar! Em que eu precisava de ajuda mesmo? Ri da situação, mas notei pela expressão macabra que o bicho falava sério. Segundos depois tudo ficou escuro ao redor de mim e o mundo girava dentro da minha cabeça. Perdi as forças, não conseguia gritar nem controlar o meu corpo. Algo muito estranho e horrível estava acontecendo comigo, e a culpa era daquele gato. Com certeza era um bruxo disfarçado. Senti que desmaiei e acordei num lugar muito diferente de onde estávamos há pouco tempo. Quando retomei a consciência, meu raciocínio estava lento. Eu não era mais um ser humano, tinha me transformado. Sem entender nada, segui o Teddy, querendo satisfações e morrendo de medo. Eu estava bêbado, sonhando ou tinha ficado louco?

Na vasta escuridão da noite, a única fonte de luz que eu via de longe era um halo envolvendo a imensa abertura que parecia levar ao nada. Próximo ao portal, por assim dizer, nossos olhos observavam a mágica acontecer.

A criatura que tomava a frente estava preparada para atravessar o lugar misterioso, como se aquela fosse uma ação corriqueira. Talvez estivesse mesmo acostumado a levar e trazer os outros. Acredito que era assim: ninguém sabia quando seria o escolhido, ele simplesmente surgia a qualquer instante e então tudo mudava. Ninguém continuava o mesmo depois de conhecê-lo. Se era do bem ou do mal, só saberia depois que tudo acabasse. A única certeza evidente logo no começo era que o processo era doloroso e muito assustador. Eu acompanhava receoso aquele ser, sentindo minhas pernas pesadas sob o corpo, questionando a mim mesmo se era uma boa ideia embarcar no desconhecido, temendo que fosse uma armadilha. Muitas dúvidas pairavam em minha mente confusa. Não fazia ideia de como eu fora parar ali. Tudo aconteceu numa fração de tempo, mal consegui perguntar quem era aquele sujeito.

A vida parecia mesmo tão estranha. Em um dia no qual tudo tendia a ocorrer normalmente, o indivíduo acorda preparado para cumprir suas tarefas cotidianas, e de repente tudo muda. Tudo, literalmente, muda, transformaram-se até meus dedos. O corpo já não existe mais como era para ser na verdadeira natureza.

A cidade ficou no breu, o clima noturno ficara mais intenso, o mundo cresceu. A visão ficou diferente, as cores estavam distorcidas e as imagens se formavam diante dos olhos mesmo que tudo ao redor tenha ficado escuro. Sentindo um enorme arrepio, eu estava certo de que tudo acontecia dentro de um sonho, porém, não conseguia acordar. Cerrei os olhos com força e tornei a abri-los, no entanto, ainda continuava naquela situação. Então pensei que quanto antes fosse adiante, mais cedo voltaria à realidade.

Assim fomos nós dois para além da abertura entre os universos. O desconhecido convidando sob uma pressão indiscutível. Eu, enquanto convidado, tinha apenas um objetivo: sair vivo e voltar à minha vida normal.

Chegamos então a um lugar que me pareceu muito familiar, a rua, as casas, senti que já estive naquele lugar, mas não conseguia me recordar de quando. Subimos em um telhado e o gato preto continuava em silêncio. Quando fui perguntar o que fazíamos ali, olhei direito para a residência à nossa frente. Fiquei pasmado: era a minha casa! Meu pobre coração acelerou mais um pouco com o que eu vi.

– O que significa isso? – perguntei, enquanto me via saindo de casa, deixando para trás minha família sem ao menos me despedir.

Outra vez eu estava atrasado como sempre, não tinha tempo nem para um café da manhã decente ao lado da minha esposa. Meus filhos cresceram e eu não vi. Meu casamento acabou e eu nem me dei conta. De repente uma pontada de tristeza invadiu o meu peito e eu quis correr para beijar a minha ex-esposa e abraçar meus filhos, mas isso seria impossível.

Contei ao gato como a minha vida era tumultuada por causa do trabalho. Eu mal parava em casa. O dinheiro entrava e saía da poupança, dinheiro que compensava a minha ausência em casa. Eu comprava presentes, mas nunca estava presente.

– O dinheiro não vale nada se não tem atitude. – disse o bichano.

Meus olhos se encheram de água e eu me arrependi do ser humano horrível que eu era. O olhar do gato era de acusação, não se mostrou sequer um pouco comovido. Então ele declarou que eu estava sendo patético por chorar naquela altura do campeonato.

– Eu tentei ser o melhor que pude, ser o melhor pai, o melhor marido…eu não deixei faltar nada dentro de casa. Quando eu não cumpria uma promessa, eu recompensava com um agrado, um presente. – Resmunguei.

– Você se deixou faltar dentro de casa. Todo esse tempo só tentou ser o homem dos negócios, dando mais valor ao trabalho. O homem que até hoje viveu ali jamais foi essa pessoa aí que está pedindo perdão. Se você tivesse tentado melhorar, nada teria acabado. Se ousasse tentar melhorar, teria cumprido sua missão na primeira tentativa.

Levantando-se, fez sinal para que eu o acompanhasse, mas de repente tudo ficou escuro novamente. Meu corpo estava quente, eu tentava gritar, mas nenhum som saía da minha garganta. Me debati contra um peso invisível que estava sobre o meu corpo. Talvez eu estivesse enterrado numa cova. Eu fora enterrado vivo? A ideia me apavorou ainda mais e eu não soube mais o que fazer. Respirando com dificuldades, orei baixinho para não morrer. Mas aí algo muito estranho aconteceu. Senti uma necessidade de abrir os olhos e ver o que havia ao redor. Tudo estava calmo e o ar estava mais leve.

Demorei para identificar que estava na minha própria cama, na antiga casa. Ao longe ouvi a voz de uma mulher e de umas crianças que riam como se estivessem se divertindo. Saí do quarto pé ante pé. As coisas estavam no lugar em que estavam quando saí para trabalhar no dia anterior. Quando apareci na cozinha, minha esposa que estava lá veio ao meu encontro e me ofereceu café. Vi pela porta do quintal dos fundos que meus filhos brincavam com algo diferente. O brinquedo não parecia com algum que eu tivesse dado. Caminhei até lá fora para ver qual era o motivo de tanta diversão. O mais novo, ao me ver, gritou:

– Olha, papai! – apontando para um gato. Era um gato preto! – ele apareceu aqui hoje, podemos ficar com ele?

– É, papai. Podemos? – perguntou a menina que trazia o bicho para eu ver de perto. Senti um calafrio ao me aproximar, mas mesmo assim acariciei o felino, pois parecia ser muito amigável. Tive a impressão de que ele me sorriu ao me encarar.

– Tudo bem. Acho que podemos. – falei.  Olhei bem no fundo dos seus olhos amarelados que brilhavam e completei: – ele vai se chamar Teddy Salim.

Mais tarde naquele dia eu estava em frente ao computador lendo distraidamente quando ouvi um barulho de batidas na porta. Levantei-me para abrir, mas não havia ninguém. Senti um tremor, não sei como nem por quê, me pareceu que aquele sentimento já tinha invadido meu corpo antes. Olhei para baixo e vi um papel dobrado, o qual me abaixei para pegar, crendo ser alguma das cartinhas que minha filha fazia. Abri o papel e nele estava escrito algo que me chocou ainda mais, em letras perfeitamente grafadas, um sinal:

“O mundo é das pessoas que agem, não das pessoas que falam.”

T. S

Poema – Dois mil e Vinte

Um dia vai parar e lembrar

Daqueles obscuros dias

Em que nas janelas fechadas

Grades invisíveis envolviam

Nossa liberdade limitada

Nossos sonhos dissipados

Nossa fantasia irrealizada

Vai lembrar que por muitos dias

Nossas portas foram trancadas

Quem abria era insano

Desumano, louco, sem noção

Era preciso manter-se ausente

Abraços e beijos evitados

Afetos de longe trocados

Eram puros gestos de proteção

Encarávamos aqueles dias

Certos de que a paz voltaria

Faces alegres seriam descobertas

Janelas e portas seriam abertas

E ganharíamos de volta

A linda vista de frente pra vida.


Tanise R. Sutil

A autora

Paranaense, natural de Piraí do Sul, Tanise R. Sutil mudou-se em 2021 para o interior de São Paulo. Graduada em Letras pela Faculdade Santa Amélia (UniSecal) de Ponta Grossa-PR e pós-graduanda em Cultura e Literatura pela Faculdade São Luís de Jaboticabal-SP. Autora de Até A Alma Ficar Nua, livreto de poesia publicado pela Olaria Cartonera de Ponta Grossa-PR, em 2020. Participou da Antologia Poética Poesia LivreConcurso Novos Poetas 2020 da Editora Vivara (PB). Além de escrever, atua como revisora textual e professora particular de Língua Portuguesa e Redação.

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