CERTAS LINHAS TORTAS… | Literatura em tempos de cólera

“O tempo me fez poeta”, disse Brodsky em seu julgamento. “O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”, escreveu nosso grande poeta Carlos Drummond de Andrade.

Que tempos são estes? Tempos de cólera.

Desde Auschwitz, Majdanek, Sobibor, Buchenwald e outros, a literatura perdeu a licença de ser inocente. E os escritores são inocentes? Certamente que não. Podemos até não acreditar, estando no império da televisão, mas a literatura tem o dom de influenciar as pessoas, para bem e para mal. Literatura pode ser usada como propaganda, pode ser usada como resistência (curiosamente, a literatura de propaganda costuma repousar esquecida no fundo das gavetas e nos gabinetes de curiosidades históricas).

Os tempos não são fáceis. Atos de ódio se espalham por toda parte, fake news é a palavra do momento (a criatividade usada para contar tais absurdos renderia tanta coisa boa…). Vamos, lentamente, perdendo a capacidade de distinguir entre verdade, mentira, pseudoverdades (estas, provavelmente, as piores). Lembram-se do pacto ficcional? Não era preciso assiná-lo com o demônio.

Tudo parece ruir, então talvez seja a hora de ler Sarah Kane. Os tentáculos do absurdo se espraiam por tudo, então talvez seja a hora de ler H. P. Lovecraft (o sobrenome não deixa de soar algo engraçado). Talvez seja a hora de aprender e ler muito, antes que já não se possa fazê-lo.

Principalmente, não levar em conta este intoxicado que vos fala e manter a
esperança e a coragem.

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