CONTO A GOTAS | A velha e o pó, de André Soltau

Desembarquei em minha infância carregando somente um lápis preto, duas laranjas e um punhado de uvas secas enroladas no papel que uso para desenhar.

Ela tinha três cadeiras em casa. Uma reservada para a solidão. Achei o caminho entre árvores e em passos tranquilos cheguei ao portão azul e descascado.

Fui convidado a sentar. Ao lado direito, a Solidão. Noutro, a velha Rosa sentada mastigava um punhado de amendoins.

Da boca saltava farelos e vociferava palavras grosseiras em um tom enfurecido. Eu, calmamente, escrevia sem me afetar com a Solidão sentada à beira da cadeira enquanto me olhava com um sorriso de canto e olhos safados.

A velha aumentava o som das palavras na mesma proporção que a senhora Solidão me encarava desafiante. 

Para dar certo tom mais calmo à conversa, descasquei uma laranja com os dedos e abandonei o papel sobre as uvas. Vi o fogão sujo perdido em pensamentos. Não importa a fuligem quando as palavras alheias são ácidas e provocam enjoos. A Solidão gargalhava em pé e batia forte em meu ombro esquerdo. Comecei a contar até dez bem baixinho.

Peguei o lápis com a mão ainda suja de fruta. Com a esquerda segurei um punhado de uvas assoprando para retirar o pó. Rabisquei o cabelo desalinhado e tracei o perfil com nariz grande e boca desdentadas. Atrás de meu ombro, a Solidão fuçava curiosa comparando a velha com as imagens que surgiam no papel. Eu desenhava e continuava a contagem. 

Velha Rosa pegou o pó de arroz sobre a sagrada bíblia enquanto dava de dedos em minha direção contando sobre os desmandos do padre na manhã de domingo. Misturava palavras raivosas com trechos de orações cristãs. Eu desenhava sem parar já acabando a contagem

Foi nesse momento que minha contagem foi interrompida pela raiva ao ver a Solidão deitada no chão de tanto que ria. A velha parou sua conversa nervosa e virou imediatamente seus olhos furiosos em minha direção segurando o papel e achando meus traços ofensivos. Correu para o espelho carcomido.

Comparava seu perfil agarrando com raiva o papel. A cada olhadela, virava furiosa para meu lado. Eu saía em passos lentos pela porta de trás me esgueirando pelas paredes escuras. Nesse instante a Solidão gritava alto para a velha. Surda, ela não dava atenção para traiçoeira sorridente.

A velha fixou os olhos no pedaço de espelho, tateando suas rugas com a ponta dos dedos e olhos marejados perdendo o restante da face juvenil.

Cheguei ao portão a tempo de ouvir a velha quebrando o espelho e dando passos ligeiros em direção à saída. Ria muito a Solidão quando segurei suas mãos já no portão escancarado. Corri pela rua de pedras lembrando que havia esquecido minhas uvas no que me restava de papel. O lápis continuava preso atrás da orelha. Escapei por pouco. Tirei o pó da roupa e voltei a embarcar. Minha infância precisa ser lembrada noutro canto mais tranquilo.

Do pó ao pó.

Imagem: Fotografia de  Shirin Abediniard 

André Soltau

O autor

André Soltau é escritor e editor. Colunista mensal da Revista TXT, é coordenador editorial da editora Traços & Capturas, de Itajaí/SC. Publicou os livros Companhia das Fábulas (Editora Cultura em Movimento. Blumenau/SC), Criancices-contos (Editora Traços e Capturas/Itajaí) publicado no ano de 2015, foi vencedor no prêmio Cocali ( Fundação Catarinense de Cultura) e distribuído em todas as bibliotecas públicas no estado de Santa Catarina, Poemínimos (Editora Traços e Capturas/Itajaí) poemas, O Caso do Ovo de Forma, Dobras (crônicas).

Está no prelo  a Coletânea Palavra d’água, que são dois títulos: Correntezas e Marés.

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