CONTO A GOTAS | Céu, de André Soltau

Na entrada de casa, Camilo plantou um pé de arruda ao lado do sol nascente, que era onde o ficava  quente mesmo nas manhãs de inverno. Toda vez que saía de casa, tirava um galho  pequeno e colocava atrás da orelha direita com medo do mau olhado.  

Logo no canto esquerdo de quem entrava, tinha um violão pendurado e, ali no  ladinho dos discos de vinil, um discreto quadro com uma aquarela contornando o texto que foi  presente de Silvia, uma paixão antiga. Lia toda manhã a frase ali estampada como um mantra  diário: Morrer é uma arte!  

Uma sala ampla com poucos móveis era o lugar de estada na casa. Um quarto separado por  uma cortina de chita vermelha e flores desbotadas, um banheiro pequeno feito de tijolo sem  reboco. Camilo era um solteirão que trabalhou por muitos anos com madeira fazendo móveis  para as casas ricas da região e nunca achou tempo para cuidar de sua morada.  

O pátio era seu maior prazer. Dedicava muitas horas do dia em cuidados com sua pequena  plantação que não dava apenas alimento para ele, mas também para alguns vizinhos mais chegados. Dava  alegria quando um pé de milho surgia na terra escura ou quando colhia uma fruta e podia  comer no pé da árvore. Ampliou o lugar quando decidiu desmanchar o galpão sem uso depois  de desfazer a carpintaria. Na mesma terra do antigo galpão hoje tem uma plantação de  batatas e alguns pés de laranja que começam a dar flor. 

O velho galpão abrigava suas máquinas, uma velha carroça usada para entregar as  encomendas e muitas memórias. Quem fez aquela construção foi seu velho pai com a  companhia do menino Camilo e seu amigo de infância, Samuca. Foram anos guardando  memórias e fantasmas ali. O galpão era a morada certa para eles. Quando destruiu a  construção antiga, os fantasmas se mudaram para sua casa que ficou pequena para tantas  memórias que só eram afugentadas quando Camilo tocava o violão nas noites sem lua. 

Levou a vida entre o trabalho e pouco tempo para amores. Silvia foi um amor intenso e curto.  Ela ficava incomodada demais com as inseguranças de Camilo quando pegava no violão para  cantar Boemia e depois se agarrava no terço implorando perdão. Partiu cedo demais esse  amor. Fechou a porta, desligou a luz e abriu o gás. Ele sofreu demais. Restou a saudade e o  quadro na parede. 

Quando o tempo foi ganhando a vida e o longo inverno da vida se anunciava, Camilo aproveitou a sombra do velho Flamboyant e construiu um oratório com sua santa de devoção.  Riscou a madeira, cortou com esmero e lixou os cantos para arredondar o acabamento.  Comprou um tecido florido e cola para forrar a parte interna. Não se esqueceu de deixar uma  saliência da madeira para acender velas e postar algumas flores. Foi seu canto de fé e ali agregou algumas vizinhas beatas com tantos pedidos para a santa que dava nome à igreja tão distante  dali. 

A vida foi mudando de rumo quando a aposentadoria minguou, uma seca grande tomou o vale  e a terra pausou seus frutos. Camilo sabia construir casas e móveis, mas não tinha o vigor doutros tempos. Sabia também tocar um violão e animar uma roda ou encantar a vizinhança. 

Foi em uma conversa na fila de espera para receber o dinheiro de aposentadoria que  reclamou da vida para um senhor que puxou assunto e brincou com Camilo dizendo que assumisse a vida de violeiro. Logo atrás da fila, uma senhora muito maquiada entrou na  conversa e foi oferecendo trabalho de cantador no seu estabelecimento.  

A conversa animou Camilo que já marcou uma visita naquele mesmo dia. Anotou o endereço no verso de um papel de embrulho e combinou a hora. Saiu tão feliz que só lembrou que não  sabia o nome da distinta senhora. O certo é que iria, mesmo tendo estranhado a hora marcada. 

Próximo do horário já estava bem alinhado, roupa passada, de banho tomado e perfume  cheirando à água de flores. Lustrou o sapato de duas cores por tanto tempo guardado no  fundo do armário e usou uma escovinha para tirar as sujeiras das lidas no terreno que pareciam  já fazer parte de sua mão. 

Usou um pano seco e macio para lustrar o violão e tomou o rumo do endereço combinado  quando a noite já estava alta. Foi se aproximando do lugar e ouvia risos e um agito que parecia um bar. Chegou à porta e foi abordado por uma senhora sorridente que lhe ofereceu uma  bebida que negou.  

Não lembrava o nome da senhora e ficou um tanto embasbacado sem saber o que dizer  quando foi avistado ao longe e chamado para dentro do estabelecimento.  

– Que bom que o senhor não desistiu. A noite hoje está cheia de clientes e uma música será  bem vinda. Disse a senhora. 

– Nem ao menos sei o seu nome, falou Camilo titubeando na voz. 

– Clô, prazer!  

– Mas Dona Clô, esse é um bordel? Falou alto Camilo, espantado que estava – Bem-vindo à Gruta Dourada, finalizou Clô, afirmando que o pagamento era bom e feito no dia. 

– Eu, um homem de fé, não posso tocar nesse estabelecimento, senhora, disse Camilo com a  voz incisiva.  

– Senhor, eu como devota de Nossa Senhora da Conceição, não vejo nenhum problema em oferecer alegria aos homens de boa índole. Clô encerrou o assunto e indicou o pequeno palco para  o inicio da música. 

Camilo foi subindo ao palco, ajeitando o violão e secando o suor das mãos e testa. Escolheu uma primeira música, meio a contragosto com o ambiente.  

Já nos primeiros acordes, chegou na ponta do palco uma moça sorridente com um vestido azul  brilhante. Olhou com encanto para Camilo e colocou um bilhete dobradinho no bolso de sua  camisa florida. Aquilo animou a curiosidade do violeiro que pausou logo após a música e,  afoito, foi logo tirando o papel do bolso.  

Morrer é uma arte, como tudo o mais. Que eu pratico surpreendentemente bem.

Abriu um sorriso de orelha a orelha e o baile foi até o amanhecer, quando saiu do recinto com dinheiro no bolso e braços dados com uma dama de vestido azul.  Naquela manhã, a faxineira da Gruta encontrou um terço empoeirado jogado no canto direito  do pequeno palco.

(Imagem: Mulheres, de Fernando Botero)

André Soltau

O autor

André Soltau é escritor e editor. Colunista mensal da Revista TXT, é coordenador editorial da editora Traços & Capturas, de Itajaí/SC. Publicou os livros Companhia das Fábulas (Editora Cultura em Movimento. Blumenau/SC), Criancices-contos (Editora Traços e Capturas/Itajaí) publicado no ano de 2015, foi vencedor no prêmio Cocali ( Fundação Catarinense de Cultura) e distribuído em todas as bibliotecas públicas no estado de Santa Catarina, Poemínimos (Editora Traços e Capturas/Itajaí) poemas, O Caso do Ovo de Forma.

Estão no prelo Dobras (crônicas) e a Coletânea Palavra d’água, que são dois títulos: Correntezas e Marés.

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