CONTO A GOTAS | Correspondidos, de André Soltau

Com chuva ou sol, não falhava um dia. Ele estava lá na boca do rio tarrafeando no comecinho da noite. Sempre à noite, quando precisava de silêncio para recuperar os pensamentos e botar no prumo o corpo depois de um dia entrando de bar em bar tomando uma lisinha aqui, um biter ali, uma cerveja barata noutro canto. Era naquela hora que o corpo pedia descanso.

Miguel Ferreira dos Santos ou Miguelzinho, como chamavam por ai. Baixinho entroncado com testa sisuda e boca sempre tensa. Era homem de pouco riso. Dizia que tinha pouco do que se alegrar e levava a vida sem achar graça de muita coisa. Amava mesmo bebida e pesca e dava umas pitadas de amor para a Perpétua, mulher que estava com ele já há um par de décadas.

Contavam na região que ele passou por poucas e boas numa guerra doutros tempos. Tinha os dedos indicador e médio de uma mão que não dobravam nunca. Eram duros como um espeto. Depois de muitos goles respondia aos curiosos que aquela era a sua arma de defesa apontando para o sujeito.

Miguelzinho fazia bico para complementar a renda de aposentadoria como jardineiro em uma ou outra casa. Na casa dos Tavares era mais frequente a visita para dar conta do tamanho daquele jardim com dois cachorros e crianças. Sempre tinha o que fazer por lá. Tinha o compromisso de ir nas quartas e sábados sem falhar, em feriados ou em festas da cidade. Só faltou uma vez. Conto a vocês.

Ele e Perpétua moravam em um casebre pendurado pertinho da boca do rio. Dali viam os barcos chegarem e partirem. A vida tinha o ritmo do encontro das águas. Alguns dias eram tranquilos, outros nem tanto. Os dois tinham muitas coisas compartilhadas além da cama e casa.

Separavam muito bem os dias da semana para que não ficasse ninguém sem cuidados. Nas segundas, quartas e sábados era Perpétua que fazia a romaria pelos bares da cidade. Nas terças, quintas e sextas o Miguelzinho seguia os mesmos passos da companheira.

Reservavam os domingos para seus rituais de fé e rezas pedindo bênçãos e proteção. Assim sempre tinha um sóbrio a manter o alimento da casa. A vida seguia do modo que lhes era conveniente. Quando um bebia, o outro pegava a tarrafa e saía com a carcomida batera. Remava até o meio do rio e ficava lá por horas até ouvir que o outro dormia embriagado. E de lá do meio do rio, costumavam gritar bem alto para serem ouvidos:

-Se a Perpétua tá na pesca, o Miguel tá no balcão, falava ele aos berros para a mulher.

-Se o Miguelito tá na tarrafa, a Perpétua tá a cachaça, respondia ela também em gritos.

Alquebrado pela velhice, com corpo marcado pela bebida não tinha motivos para rir. Só gargalhava quando bêbado. Numa noite, uma dessas gargalhadas sem parar, irritou Perpétua que estava em casa com dores fortes na barriga. Ela ficou brava e reagiu. Miguelzinho, sem pensar direito, envolto nos pensamentos ébrios, saiu ligeiro já enlaçando o braço direito na tarrafa e ajeitando a batera para entrar no rio.

Pela primeira vez nesses anos todos que ela não vai para o rio quando sóbria. Pela primeira vez nesses anos todos que ele entra no rio embriagado.

Perpétua só percebeu o ocorrido quando ouvia as cantorias e gargalhadas de Miguelzinho tentando segurar os remos para chegar ao meio do rio. A noite era escura e ela não enxergava nada para os lados da água. Só o ouvia entre resmungos, cantoria e gargalhadas altas. Chamou para que ele voltasse. Ficou rouca de forçar os chamados. Não foi ouvida com o vento batendo no seu rosto, os gritos não alcançavam o seu companheiro. Chorou de medo e dor na beira do rio. Dormiu ali ao relento, enrolada em um pano velho em cima do sofá carcomido por bichos.

Perpétua despertou assustada, já com o sol. Correu casa adentro chamando Miguelzinho. Não o achou. Apressou-se para a beira do rio e ainda viu o barco preso à pequena âncora balançando bem no meio da correnteza. Nada do homem. Pensou que dormia no fundo do barco, gritou como pôde. Sem resposta. O desespero tomou conta da mulher que correu apressada ao vizinho mais próximo para pedir a batera emprestada para o socorro. Teria que remar até Miguelzinho.

Tinha uns 150 metros de remo contra a correnteza para chegar ao lugar em que estava a outra batera. Remava e chamava pelo nome, sem resposta. Começava o desespero e o choro foi tomando conta da face de Perpétua que não desistia. Rema, grita, chora. Rema de novo, grita, espera, chora. Ofegante, alcançou a batera vazia sem tarrafa, sem remos e sem Miguelzinho. Chorava alto quando ouviu um chamado apressado do seu nome na margem esquerda já na cidade vizinha. Era o Seu Lalau que acenava para ela ir para aquele lado. Em desespero, obedeceu.

Chorava muito quando alcançou a outra margem. Lalau disse com voz trêmula prevendo a reação de Perpétua:

-Ele tá lá no Maré Baixa, apontando para o bar que ficava no beco próximo ao rio.

Levantou apressada do chão do barco, limpou o rosto encharcado de lágrimas e correu descalça para a porta do bar. E viu com os olhos que tinha, ninguém contou. Lá estava Miguelzinho sem camisa, calça arriada, descalço com meia garrafa de cerveja vazia. Avançou no pescoço do homem com fúria. Ele ria e acalmava a mulher dizendo que explicava o acontecido, que não preocupasse e que estava tudo bem, só tinham perdido a tarrafa enroscada num galho seco e os remos. Mas com a vida estava bem.

Entre choros e tapas, os dois ficaram ali abraçados por um longo tempo. Quebraram a rotina naquele dia e beberam juntos em plena quarta-feira.

Acabava a manhã quando os dois remavam juntos para o outro lado do rio cantando e gritando alto:

– Perpétua e Miguelzito estão de porre! Os peixes que esperem!

Comeram batatas no almoço. O amor ficou de barriga cheia, e daí!

Imagem de Jacek Yerka

André Soltau

O autor

André Soltau é escritor e editor. Colunista mensal da Revista TXT, é coordenador editorial da editora Traços & Capturas, de Itajaí/SC. Publicou os livros Companhia das Fábulas (Editora Cultura em Movimento. Blumenau/SC), Criancices-contos (Editora Traços e Capturas/Itajaí) publicado no ano de 2015, foi vencedor no prêmio Cocali ( Fundação Catarinense de Cultura) e distribuído em todas as bibliotecas públicas no estado de Santa Catarina, Poemínimos (Editora Traços e Capturas/Itajaí) poemas, O Caso do Ovo de Forma.

Estão no prelo Dobras (crônicas) e a Coletânea Palavra d’água, que são dois títulos: Correntezas e Marés.

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