CONTO A GOTAS | Nem bem nem mal, de André Soltau

Para contar essa história é preciso não ter medo, afinal os deuses são vingativos. Começo com nosso protagonista gritando alto no corredor do mercado público:

– Não procuro ali fora, deus está aqui dentro.

Frase que tornava Umberto conhecido pela cidade e irritava muita gente. Era conhecido por sua língua ferina e argumentos que deixavam muitos jovens da cidade balançados sobre a fé que movia os costumes e dava alimento para seus medos.

Tinha uma rotina demarcada por costumes de uma vida longa naquele lugar. Acordava muito cedo, lambia seu cabelo sempre para a esquerda tentando esconder a careca já tomando conta do tampo da cabeça. Seu café preto e sem açúcar nunca passava do meio da xícara e era acompanhado por um naco de pão com uma fatia generosa de queijo. Limpava o bigode avantajado sem escovar dentes e saía de casa pontualmente às sete e trinta em direção ao mercado do peixe. Era lá que se demorava boa parte da manhã em conversas com trabalhadores locais, dando uma pausa maior na feira de frutas em conversa com o proprietário curioso com as ideias de Umberto.

A casa de nosso personagem merece uma observação em detalhes para entendermos melhor seus pensamentos. Não pensem vocês, amigos leitores e amigas leitoras, que uma casa não dá pistas sobre seus moradores; dá rumos do que precisamos conhecer sobre essa pessoa que aqui nos interessa. Umberto vivia com uma gata nervosa chamada Hilda, a Hilst, e um peixe solitário batizado de Michel, o Foucault. Casa pequena com três cômodos, um quintal grande cheio de árvores frutíferas e belos canteiros com chás e temperos. Dos três cômodos reservava um para dormir, noutro cozinhava e o maior deles guardava uma estante de livros que não permitia pó e servia para o sono diário de Hilda que guardava o Michel na prateleira de baixo. Na parede lateral, Umberto reservava uma pequena mesa com livros sagrados de diversas religiões e flores sempre renovadas nas manhãs.

Sua rotina deixava os finais de tarde para leituras prolongadas de trechos da bíblia cristã, dos versos do islã e os Vedas. E, curiosamente, entre seus textos sagrados havia uma publicação em capa dura do livro Breve tratado de Deus, do homem e do seu bem-estar, o seu predileto. Habitava ali um deus despersonalizado sem púlpito.

Nessa vida, que chegava há mais de seis décadas morando na cidade, ele havia conquistado amigos e alguns desafetos. E só um inimigo, o padre Evaristo, que o acusava de ser um cancro para os costumes do lugar com suas blasfêmias contra a santa igreja. Tomava partido do pároco a beata Eva que, sem nenhuma explicação, depois da morte de sua irmã Guilhermina, começou a conversar com ele e até o presenteou com um livro escrito por um português que não deixava respirar no seu texto sem parágrafos, mas o assunto muito lhe interessou. Desse assunto, eu conto mais tarde.

Essa vida que lhes descrevo deixou, com o tempo, poucas amizades e pensamentos solitários sobre a fé. Ganhou uma amizade recente e inusitada de Eva, a beata, que lhe trouxe outra visão sobre as pessoas do lugar, e é sobre esse encontro que guardo minha narrativa para que vocês conheçam uma possibilidade de mudanças que a vida nos apresenta.

Vamos, enfim, aos fatos!

Numa manhã de inverno, Eva bateu palmas diante do portão vermelho da casa de Umberto. Chegou com uma bolsa amarela abraçada à frente. Já esperando palavras ásperas, o velho ateu já gritou de longe um “o que é?” sem interesse algum com o que lhe falaria a experiente em conversas beatas. E emendou:

– Se veio falar desse deus voyeur que tudo sabe e tudo vê, não tenho interesse algum.

– Trouxe um presente! Sussurrou Eva com timidez.

Rangia o portão quando Umberto saiu da porta e foi ao encontro da mulher que já caminhava por seu jardim com olhos curiosos entregando o pacote enrolado em papel fino amarrado por um retalho de algodão cru.

– Li todinho e creio que pode lhe interessar, disse a beata meneando a cabeça para os lados com timidez.

E tinham razão para estarem assim num momento tão inusitado, afinal ela frequentava a paróquia todo o dia e ele atazanava seus ouvidos com perguntas provocativas sobre a bíblia cheirando a sovaco que Eva carregava. Sabendo disso, já havia levado outro presente prevendo que se desenvolveria bem no jardim de Umberto:

– Trouxe um manjericão para teu quintal! Falou Eva, conhecedora do poder das plantas.

Daquele encontro vieram outros mais amenos. Os encontros, não sei contar os motivos, eram sempre nas tardes de conversas regados com jarras cheias de água e limão. Os dois ocupavam um canto do quintal bem ao lado do manjericão recém-plantado por Umberto e as conversas foram amenizando as rixas de fé.

Numa dessas tardes, até o padre Evaristo mudou o rumo de sua caminhada para ver com seus próprios olhos o que comentavam pelo lugar e havia afastado Eva de seus afazeres na paróquia. Passou escondendo-se entre os arbustos da rua e arregalou os olhos para dentro do quintal. A fé do padre balançou ao presenciar aquele encontro, afinal, como pode um homem
descrente conquistar os ouvidos de uma mulher tão dedicada a sua fé? Há mesmo mais coisas entre o céu e a terra.

O encontro que selou essa amizade iria resolver uma discórdia que se arrastou por muitas tardes. Umberto um dia disse não entender como um deus cria o humano unicamente para lhe prestar adoração e culto!!

– Que deus mais narcisista! Vociferava ele.

Eva silenciou, ouviu um pouco mais e finalizou a conversa com uma afirmação que tudo mudou:

– Ééé!! Se somos todos a imagem e semelhança desse deus, como podemos conviver com tamanha diversidade?

Umberto deu um grito tão alto de contentamento que se ouviu um eco lá no canto do morcego. Naquele final de tarde finalizaram a conversa lendo juntos a frase do livro predileto de Umberto:

Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.”

Começaram a vida a partir dali.

(Imagem: Três estudos para figuras na base de uma crucificação, Francis Bacon, 1944)

André Soltau

O autor

Nascido em Alegrete/RS, André Soltau começou seus estudos em História na UFSM/RS. Continuou no Mestrado em Educação(UFSC/SC) com a dissertação Jovens Nômades em Fronteiras Fixas, com defesa em 2004. Atuou como professor de ensino fundamental na cidade de Blumenau/SC entre os anos de 1991 a 2003. No ensino superior foi professor nas áreas de História, Música, Comunicação entre os anos 2002 e 2018 com disciplinas na área das ciências humanas. No ano de 2011 iniciou as atividades com a Editora Traços e Capturas tendo como foco autores iniciantes lançando livros em sistema cooperativo (https://www.facebook.com/TracosECapturas).

Em 2002 lançou seu primeiro livro com fotos e poemas, Companhia da Fábulas (Editora Cultura em Movimento. Blumenau/SC). Seu livro Criancices-contos (Editora Traços e Capturas/Itajaí) publicado no ano de 2015, foi vencedor no prêmio Cocali ( Fundação Catarinense de Cultura) e distribuído em todas as bibliotecas públicas no estado de Santa Catarina. Destaque também para o livro de poesia Poemínimos (Editora Traços e Capturas/Itajaí) poemas. Seu último trabalho ousou dialogar com público infantil:
O Caso do Ovo de Forma conta de uma galinha que bota ovo de todas as formas, menos ovalado.

Atualmente desenvolve o projeto Palavra d’água com apoio de Lei de Incentivo à Cultura de Itajaí, que ouve antigos moradores da cidade e suas memórias sobre a água. Esse projeto irá resultar em uma coletânea de contos baseados nas histórias reais narradas pelos entrevistados. Desenvolve também uma série de entrevistas com escritores/as da cidade de Itajaí no projeto conto e.converso, com apoio do edital Eventos Comunitários Online quando ouve suas trajetórias, projetos literários, seu estilo e referências.

No prelo:

Dobras – Crônicas ( janeiro/2021). Coletânea Palavra d’água – dois títulos: Correntezas e Marés ( Fevereiro/2021)

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