CONTO A GOTAS | Pax-vobis, de André Soltau

É preciso pressa em dia de limpeza e reza. Não há tempo para mesquinharias. 

Não poderia esquecer-se de regar o jardim e examinar se as formigas haviam, enfim, deixado em paz as roseiras, precisava dar de comer às galinhas, recolher os ovos e levar o lixo para a rua sem perder o caminhão de recolhimento que passava pontualmente às quartas-feiras. O pó, sempre o pó. Na rua de chão batido, qualquer coisa que se movesse, levantava uma poeira que pairava nos móveis, cortinas, chão. Era o dia de tirar o excesso. Demorava-se mais tempo na limpeza da imagem de Nossa Senhora da Conceição que ficava no canto direito da sala e recebia flores novas toda manhã. 

Por muitos anos, Eva morava com a irmã mais velha, Guilhermina. Sofriam as duas do mesmo mal. Seus corpos foram encurvando com o tempo e deixando uma protuberância nas costas, dificultando os movimentos. Desde a infância carregavam  muito peixe para o pai que foi pescador por toda a vida. 

Passaram por dificuldades sucessivas que as endureceram e encurvando as costas, obrigando assim que olhassem para o chão o tempo todo. É como se o peso da vida se materializasse na corcunda. Eva fazia tudo a seu tempo na lentidão que o corpo curvado pedia, mas a mente clamava pressa. A irmã já não movia a mão esquerda e ficava com afazeres mais leves. 

Naquela manhã, Guilhermina havia recebido um pacote volumoso que tratou logo de esconder assim que o carteiro entregou em suas mãos. Foi levando para o quarto sem dar ouvidos à Eva que esticava os olhos para ver aquela novidade enquanto preparava-se para os rituais das quartas-feiras.

É dia de cumprir a responsabilidade com a fé na igrejinha Nossa Senhora da Conceição, erguida por mais de um século e testemunha os valores cristãos que servem de alicerce na vida das irmãs. 

Organizada a casa, Eva grita: – Guilhermiiiinaaaaaa! e não aconteceu nada, o que não é comum. Preocupada, vai até o quarto da irmã e encontra a porta fechada. Bate e chama novamente. Ouve uma voz embargada: – Estou bem. Hoje não vou à missa. Tenta argumentar e não ouve mais resposta. Fica com o não e segue seu rumo até a porta lateral não sem antes titubear e novamente questionar Guilhermina: – Hoje você fica mesmo? Um sim baixinho foi a resposta. 

Saiu com seus pensamentos sobre a irmã mais velha. Sempre fora ela a mais beata, ajudando nas lidas da capela e, em casa, puxava rezas, lia a bíblia em voz alta e decorava o altar para a santa padroeira. E, pela primeira vez, não vai a uma missa? Mas vontade é vontade e cada um sabe a sua.

Pouca gente estava nos rituais daquela manhã. O padre Evaristo entrou com sua roupa branca combinando com os cabelos grisalhos. De voz mansa e verdades prontas, o pároco falou sobre a violência e medo, lembrando que Jesus alertava seus seguidores de que é dentro do coração humano que saem as más intenções. E foi, exatamente, Maria Madalena – a “outra Maria” como chamavam os seus apóstolos – que a encontrou pela primeira vez após ele ressuscitar. Foi ela, Maria Madalena, que levou a notícia aos discípulos que, descrentes, duvidaram das palavras da mulher. Quando o seu mestre surgiu, usou várias vezes a expressão pax-vobis para ser reconhecido diante do medo daqueles homens de pouca fé. A mulher o reconheceu pela fé.

Eva deu um pulo no banco, incomodada com a afirmação do pároco que logo foi interrompido com as palavras gritadas de Umberto, conhecido por suas brigas dentro da igreja e ateu convicto. Por que ele frequentava às missas? Perguntava-se a beata. 

Encerrada a celebração, Umberto esperava do lado esquerdo da porta como de costume. Eva esquivava-se dele toda vez que vinha à capela. Não gostava daquele homem de bigode avantajado e olhos penetrantes. Naquele dia parece que ele estava só olhando para ela desconsiderando os outros fiéis falando alto com voz direcionada à ela; – Pax-vobis!

Saiu apressada pela rua lateral evitando atravessar a praça e com pensamentos presos no que havia lhe dito o padre Evaristo. Como poderia um homem santo ter sido visto por uma prostituta logo após tamanha graça? E como seus seguidores tinham tanto medo? Homens de pouca fé, pensamento que encerrou na porta do mercadinho próximo à sua casa.

Comprou carne e batatas para o almoço e conversou apressada com Sinhá Rita que perguntava por Guilhermina. Respondeu com um aceno e uma mão de desdém acompanhada de um: – Em casa!

Já na rua de casa, abriu o portão com cuidado para não fazer barulho. Queria pegar a irmã de surpresa e descobrir o conteúdo do misterioso pacote. A porta rangia quando empurrada. Levantou um pouco o trinco para evitar o barulho e foi pé ante pé até o quarto de Guilhermina. Silêncio!

Um grito saiu da boca de Eva ao ver a irmã sentada em sua cadeira de leitura. Bíblia jogada no chão ao lado de um lápis preto, a irmã dura e olhos arregalados com um livro desconhecido e aberto em seu colo. Chamou diversas vezes pelo nome de Guilhermina, sem resposta. Sua curiosidade foi maior do que o susto. Pegou vagarosamente o livro desconhecido ainda aberto e leu a frase grifada pela irmã:

Maria Madalena, foi com ela que Jesus conheceu o amor da carne e nele se reconheceu homem.

Virou para ver a capa daquele livro que profanava o nome do homem santo, O evangelho segundo Jesus Cristo de um tal de Saramago. Homem sem fé! Pensou Eva.

Morria ali a beata e sua fé.

O pó, sempre o pó.  

(Imagem: Remedio Varo)

André Soltau

O autor

Nascido em Alegrete/RS, André Soltau começou seus estudos em História na UFSM/RS. Continuou no Mestrado em Educação(UFSC/SC) com a dissertação Jovens Nômades em Fronteiras Fixas, com defesa em 2004. Atuou como professor de ensino fundamental na cidade de Blumenau/SC entre os anos de 1991 a 2003. No ensino superior foi professor nas áreas de História, Música, Comunicação entre os anos 2002 e 2018 com disciplinas na área das ciências humanas. No ano de 2011 iniciou as atividades com a Editora Traços e Capturas tendo como foco autores iniciantes lançando livros em sistema cooperativo (https://www.facebook.com/TracosECapturas).

Em 2002 lançou seu primeiro livro com fotos e poemas, Companhia da Fábulas (Editora Cultura em Movimento. Blumenau/SC). Seu livro Criancices-contos (Editora Traços e Capturas/Itajaí) publicado no ano de 2015, foi vencedor no prêmio Cocali ( Fundação Catarinense de Cultura) e distribuído em todas as bibliotecas públicas no estado de Santa Catarina. Destaque também para o livro de poesia Poemínimos (Editora Traços e Capturas/Itajaí) poemas. Seu último trabalho ousou dialogar com público infantil:
O Caso do Ovo de Forma conta de uma galinha que bota ovo de todas as formas, menos ovalado.

Atualmente desenvolve o projeto Palavra d’água com apoio de Lei de Incentivo à Cultura de Itajaí, que ouve antigos moradores da cidade e suas memórias sobre a água. Esse projeto irá resultar em uma coletânea de contos baseados nas histórias reais narradas pelos entrevistados. Desenvolve também uma série de entrevistas com escritores/as da cidade de Itajaí no projeto conto e.converso, com apoio do edital Eventos Comunitários Online quando ouve suas trajetórias, projetos literários, seu estilo e referências.

No prelo:

Dobras – Crônicas ( janeiro/2021). Coletânea Palavra d’água – dois títulos: Correntezas e Marés ( Fevereiro/2021)

                                                                            

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