CONTO A GOTAS | Segredos íntimos, por André Soltau

 

Teca, não era esse o seu nome, mas chamada assim carinhosamente por escolha sua. Não gostava que a chamassem por aquele nome estranho de batismo. Sempre muito generosa, tinha orgulho de trabalhar na casa de família nobre no centro da cidade. Não perdia a oportunidade de dizer com alegria:

– Sou eu quem serve o café na mesa da família todo o santo dia.

A rotina é dura. Acorda com o sol e dorme com a lua alta. Morava à margem direita do rio lá no canto norte da cidade. Todo o dia levava uns 20 minutos para chegar ao trabalho no centro da cidade. Pedalava e se preocupava com o filho que cresceu tendo que se virar com o pão velho com café ralo no barraco da periferia. Era parte da vida, assim se vivia. Uma justificativa para tantas desigualdades entre dois mundos tão distantes.

Às vezes invejava seu vizinho Tonho, vulgo Marinheiro. Tinha uma vida dura, não há duvidas, mas o trabalho dele permitia tempo para reunir amigos, dançar aos sábados à noite e ainda ter uns trocados para tomar uns goles para rir da vida.

Era tratada com afeto e sempre ouviu a patroa dizer para amigos que Teca era da família. Sentia-se segura depois de mais de uma década servindo, passando, limpando e criando os filhos da casa. Nunca faltou um dia. Nunca chegou atrasada e ainda teve que dar apoio em domingos quando vinha parente passar uma temporada no casarão.

Teca só não comia com a família na sala maior. Mas tinha seu asseado cantinho do lado da geladeira com prato só dela e  um belo quinhão da comida servida a todos. Não tinha coragem de levar as sobras para o filho que passava os dias se virando com o que tinha. Mas entristecia quando nacos grandes de carne eram jogados para os cachorros no fundo do canil. Era parte da vida, assim se vivia.

Tinha uma rotina na casa que pedia horas demarcadas ou ela acabava o dia sem terminar o serviço. Chegava pontualmente 7h30, retirava o lixo do dia anterior e levava para a lixeira da rua. Enquanto isso, a chaleira estava no fogo com água para o café. Às 8h começava a organização da mesa com geleias, pão torrado, queijos de diversos tipos e frutas cortadas e separadas. O café era colocado em térmica com o leite quente no lado direito. 8h30. Todos sentavam para o café enquanto Teca começava a organizar os quartos e separar as roupas sujas. Conseguia reunir as roupas na lavação entre 9h15 e 9h30. Voltava para a sala lá pelas 10h para recolher as sobras do café da manhã. A casa começava a ficar vazia nesse horário com cada um da família saindo para seus afazeres. Só às 10h30, após juntar a louça do café e retirar a mesa, que Teca conseguia tomar um café ligeiro com o pão que sobrou e o restinho de geleia de morango que ela tanto gostava. Tinha que ser ligeiro porque às 11h começava os preparativos para o almoço que deveria ser servido pontualmente às 12h30 quando a casa voltava a ficar barulhenta. Só conseguia almoçar por volta das 14h, não sem antes separar as roupas coloridas das brancas e pretas. Máquina ligada, servia o prato e comia silenciosamente com os pensamentos nas tarefas da tarde: Roupa, varais, limpeza do canil, organização do lanche da tarde, varrer jardim e, por fim, separar o lixo para ser colocado para fora na manhã seguinte.

A tarde sempre permitia que assobiasse uma cantiga de amor, cantarolasse baixinho enquanto estendia as roupas ou varria o chão do quintal. Nessa hora ela sempre lembrava a alegria de Ritinha com seu assobio que parecia canto de pássaros de tão bonito que era e enchia a rua com suas melodias. Ela arriscava um assobio mais longo com o sol no rosto e pés descalços na grama bem cuidada pelo Seu Miguelzinho, que vinha uma vez por semana.

Foi na quinta-feira ensolarada, cantarolando Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?, que foi interrompida por um achado no bolso da camisa predileta do patrão. Amarrotado e úmido ainda dava para ler palavras de amor com um beijo vermelho assinando o recado amoroso. Guardou no bolso do avental como se fosse segredo íntimo dela.

Ruminou o assunto enquanto pedalava para casa. Foi longa a noite. Não sabia o que fazer, de que forma agir ou a quem contar. Pensou em “esquecer” o papel no quarto do casal ou jogar no chão durante o café ou até mesmo em dar fim quando levasse o lixo para a rua. Ainda não sabia o que fazer quando já pegava a sua bicicleta para trabalhar na manhã seguinte. Tomou a decisão que achava mais correta.

Antes do café ser servido, pediu para falar a sós com a patroa na cozinha. Com voz trêmula e punho cerrado, entregou o papel dizendo que estava no bolso do patrão.

– E não conte a ninguém sobre isso, entendeu? Ouviu da patroa com o dedo em riste direcionado ao seu rosto.

Seguiu a rotina matinal. Após o almoço, enquanto comia em seu cantinho espremido entre a geladeira e o fogão, ouviu a patroa chamar. Limpou a boca, abandonou o prato apressada e seguiu até a sala.

No dia que seguiu, pontualmente às 8h ela estava na fila da Delegacia do trabalho. Foi atendida às 10h55. A funcionária, sem erguer o rosto, pediu carteira de trabalho e documentos de rescisão. Voltou ligeiramente os olhos para ela e perguntou:

-Nome completo?

– Teopázia Cardoso dos Santos.

Saiu de lá com muitos papéis timbrados e a promessa de que a primeira parcela do seguro-desemprego seria depositada no mês seguinte.

Na volta para casa ficou assustada com os pensamentos nocivos que foram sendo revelados a cada pedalada que dava. O medo tomou seus dias. Acabava de cruzar dois mundos.

André Soltau

O autor

André Soltau é escritor e editor. Colunista mensal da Revista TXT, é coordenador editorial da editora Traços & Capturas, de Itajaí/SC. Publicou os livros Companhia das Fábulas (Editora Cultura em Movimento. Blumenau/SC), Criancices-contos (Editora Traços e Capturas/Itajaí) publicado no ano de 2015, foi vencedor no prêmio Cocali ( Fundação Catarinense de Cultura) e distribuído em todas as bibliotecas públicas no estado de Santa Catarina, Poemínimos (Editora Traços e Capturas/Itajaí) poemas, O Caso do Ovo de Forma.

Estão no prelo Dobras (crônicas) e a Coletânea Palavra d’água, que são dois títulos: Correntezas e Marés.

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