CONTO A GOTAS | Um caldo, de André Soltau

Algumas mulheres dizem que se o marido pesca, que pesque. Mas que limpe seus peixes.  Assim pensavam sua vizinha Adélia seguida por outras do lugar. Ambrósia não.  Tímida e franzina, tinha uma força para ajudar a tirar da bateia e levar para o barracão. Mas era a cozinha o seu lugar preferido.

O marido rude em gestos era pouco afeito aos carinhos e delicadezas. Quando falava, era manso e cuidadoso na escolha do que dizia. Tinha rotina demarcada. De manhã cedinho, colocava as mãos na terra, cuidava do quintal e da horta. Em casa de pescador tem que ter horta. Plantava novos temperos e semeava outras plantas, ajeitava a cerca de bambus para não entrar bichos e sempre remexia na entrada da casa adornada com um corredor de margaridas e rosas em cores diversas.  Na tarde, o rio o chamava para aquele instante de solidão e sustento. O peixe servia para a mesa e pequenas vendas na vizinhança garantiam os trocados para o sustento.

Para Ambrósia, a  cozinha sempre foi um lugar sagrado para o exercício de cuidados com a vida. A vida dos dois se fez assim. E era exatamente naqueles instantes de limpeza do pescado que ficavam sós na cozinha. Escamam, abrem o peixe, retalham e separam os maiores que vão para venda e outros pequenos para alimento da semana. Nos sábados não é assim, um peixe grande é ofertado pela semana que passou.

Os encontros na cozinha são um ritual sagrado até mesmo na limpeza de um peixe ou preparo de um caldo. Ela sempre gostou assim, quando os cotovelos dos dois roçam e trocam poucas palavras falando baixinho como se escondessem sua intimidade da vizinhança. Ele pausa em algum e conta que aquele deu trabalho quando lutou pela vida e quase levou a linha e anzol juntos.  Há uma pausa sempre grande em um silêncio quebrado quando ele afia a faca e ela relembra os dias sem palavras quando foi morar com aquele homem à beira do rio. No começo foi medo, depois lar.

Naquele dia do frio vento sul ele demorou mais do que de costume. Já fechava o dia e ela já murmurava uma reza para sua santa de devoção quando ouviu o barco atracar. Chegou com a tarrafa, feitio do Samuca, pendurada  no ombro esquerdo deixando um furo à mostra e um punhado de pequenos peixes na cesta de vime. Na outra mão, erguia orgulhoso uma  corvina gorda.

– Deu trabalho, mas dá um bom caldo. Foi dizendo com um sorriso desajeitado, entregando o peixe para a mulher e carregando o restante para o barracão.

– É, disse Ambrósia com um riso de alívio já segurando o peixe para o caldo e guardando o terço na gaveta do armário azul, não sem antes fazer o sinal da cruz apressada.

Quando ela começou a limpeza do peixe, ele chegava do quintal com as mãos perfumadas de orégano e cominho sem esquecer as cebolinhas e o salsão. Os olhos se encontraram com os dela em brilho doce depois da preocupação pela demora. Os dele em reverência à mulher que está ali em acolhimento.

Ele afiou a faca com destreza de anos no mesmo ato. Ambrósia já pegou a panela preta para caldos, deitou um fio de óleo e juntou a  cebola picada. Foi separando as postas e começando a fritura. Ele picava os temperos e contava, sem pressa, que estragou a tarrafa em um galho preso entre as pedras do costão. A conversa era tomada pelo aroma dos temperos que iam se misturando no ar.

Um toque do braço dele arrepiou a nuca de Ambrósia. Sorrisos sem graça e um movimento ligeiro das mãos afastou o braço dele da pele arrepiada. Ele pegou o alho e tomate, aproximou do fogão. Separou o orégano e a salsa passando bem devagar por trás dela, que já deixava um fio de água quente levantar fervura na panela. O calor cresceu. Era preciso poucos minutos para mergulhar o peixe na água temperada.

O cheiro tomava o ambiente atiçando a fome. Eles estavam coladinhos frente ao fogão quando a mão grande chegou ao quadril e a boca roçou a nuca de Ambrósia. Os temperos verdes foram colocados logo depois do peixe. A água tomou cores e o aroma de terra e verde envolveu os dois. Com uma mão, ela soltava vagarosamente os últimos temperos no caldo. Era preciso esperar uma meia hora para que a química fizesse o alimento cozer com sabor.

Ela o afasta dali, que se deixou  levar pela dança das mãos sujas e temperadas de Ambrósia. Ela afasta a toalha e deita na mesa rústica da cozinha fechando os olhos e segurando a saia na altura da cintura. Ele recolhe um prato com restos de limão enquanto toca na coxa quente da mulher.

Deu caldo!

(Imagem: Franklin Cascaes)

André Soltau

Nascido em Alegrete/RS, André Soltau começou seus estudos em História na UFSM/RS. Continuou no Mestrado em Educação(UFSC/SC) com a dissertação Jovens Nômades em Fronteiras Fixas, com defesa em 2004. Atuou como professor de ensino fundamental na cidade de Blumenau/SC entre os anos de 1991 a 2003. No ensino superior foi professor nas áreas de História, Música, Comunicação entre os anos 2002 e 2018 com disciplinas na área das ciências humanas. No ano de 2011 iniciou as atividades com a Editora Traços e Capturas tendo como foco autores iniciantes lançando livros em sistema cooperativo (https://www.facebook.com/TracosECapturas).

Em 2002 lançou seu primeiro livro com fotos e poemas, Companhia da Fábulas (Editora Cultura em Movimento. Blumenau/SC). Seu livro Criancices-contos (Editora Traços e Capturas/Itajaí) publicado no ano de 2015, foi vencedor no prêmio Cocali ( Fundação Catarinense de Cultura) e distribuído em todas as bibliotecas públicas no estado de Santa Catarina. Destaque também para o livro de poesia Poemínimos (Editora Traços e Capturas/Itajaí) poemas. Seu último trabalho ousou dialogar com público infantil:
O Caso do Ovo de Forma conta de uma galinha que bota ovo de todas as formas, menos ovalado.

Atualmente desenvolve o projeto Palavra d’água com apoio de Lei de Incentivo à Cultura de Itajaí, que ouve antigos moradores da cidade e suas memórias sobre a água. Esse projeto irá resultar em uma coletânea de contos baseados nas histórias reais narradas pelos entrevistados. Desenvolve também uma série de entrevistas com escritores/as da cidade de Itajaí no projeto conto e.converso, com apoio do edital Eventos Comunitários Online quando ouve suas trajetórias, projetos literários, seu estilo e referências.

No prelo:

Dobras – Crônicas ( janeiro/2021). Coletânea Palavra d’água – dois títulos: Correntezas e Marés ( Fevereiro/2021)

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Sobre o autor

danielosiecki
Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

danielosiecki

Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

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