DICAS | Dissipando a neblina: sobre a sutil diferença entre mistério e suspense

Quando vamos a uma biblioteca ou livraria percebemos que esses locais possuem formas de organizar e classificar seus livros. Seja para tornar o local visivelmente agradável, seja para manter a organização ou ainda para facilitar o acesso do leitor a determinado título, as estantes estão sempre divididas pelo assunto ou gênero das obras. Afinal, todo leitor possui um gênero favorito ou, ao menos, se sente mais atraído por determinadas características similares que podem ser identificadas nos diferentes livros que lê. Quem possui o costume de ir a esses locais logo cria o hábito de se dirigir diretamente às mesmas seções onde já esteve. Na maioria das vezes de forma inconsciente, buscando encontrar uma nova história que lhe agrade, tendo como base uma anterior que já seja querida por si.

A facilidade da divisão dos gêneros está exatamente em enquadrar o gosto do público ao mercado e permitir que os produtores de conteúdo (livros, filmes, músicas, etc.) sejam capazes de preencher a demanda desses consumidores. Percebemos que com o desenvolvimento das ciências humanas e a introdução de diferentes artes como o cinema ao longo do tempo, as formas de se contar uma história foram transformando-se e o texto escrito passou a influenciar o visual e o texto visual passou a influenciar o escrito de volta como nunca antes visto, assim as linhas que determinavam os gêneros se tornaram mais fluidas e baças, permitindo que novas formas e sentidos fossem encontrados em uma única obra.

slife fino holmes

Por conta dessas combinações voláteis, torna-se difícil aos autores iniciantes alcançarem as expectativas ou os padrões de obras renomadas no mercado. Sendo assim, para não se deparar com o desagrado do público entender as diferenças e similaridades entre o Mistério e Suspense pode ser a diferença para quem deseja arriscar esses estilos.

O leitor desta matéria provavelmente irá dizer: “Ah! Mas é tudo a mesma coisa”.

Eu, particularmente, sou do time que gosta de pensar que se as coisas possuem nomes diferentes, elas não são necessariamente iguais. Em geral suspense e mistério são gêneros que se misturam e que acompanham, por exemplo, o terror e o horror (os quais também não são a mesma coisa). Apesar de parecer ínfimo, compreender a diferença entre eles é importante. Não só para melhorar a sua escrita como autor, mas também para reconhecer quais tipo de obras são boas referências na hora de planejar o próprio trabalho. Ambos são gêneros que podem estar unidos, uma história pode conter elementos tanto de suspense quanto de mistério. O mistério e o suspense vão trabalhar com a tensão e a agitação do seu leitor e das personagens, mas em graus diferentes como explicaremos a seguir.

Man's Portrait Photo

O QUE SE PROPÕE CADA UM?

Para entender melhor o que ocorre com cada um, utilizaremos referências tanto da literatura quanto do cinema já que a cena em si com a devida descrição e representação auxilia para dar aquele tom à história. O site Homo Literatus abre sua postagem da seguinte forma “Suspense e mistério são duas técnicas narrativas diferentes, apesar de possuírem efeito semelhante, e são utilizadas essencialmente nas obras de horror e de terror”. Não é de hoje que a mídia procura explorar o medo em suas diferentes formas. O medo de criaturas mitológicas e fantásticas, o medo do desconhecido ou até mesmo o medo de outro ser humano remonta a tempos imemoriais, não sendo à toa que autores desde os séculos IX a XIII  já registravam histórias de horror na China, como o compilado de Horror Oriental da editora Bururu. O tema que deveria espantar e ser motivo de repúdio, quando bem explorado e coberto de suspense ou mistério torna-se esteticamente atrativo a muitos leitores.

A abordagem mais simplista que trago a vocês foi feita por Alfred Hitchcock. Não sendo o único a trabalhar essas caracterizações, mas o diretor e produtor estabeleceu resumidamente as seguintes diferenças para ambos no cinema:

O suspense ocorre quando o telespectador sabe mais que a personagem. O desenrolar da trama e as cenas criam uma tensão em saber qual será a reação da personagem.

Donald Breecher coloca que a tensão é criada principalmente em torno das personagens que desconhecem a situação, pois muitas vezes o que está para acontecer é inevitável e cabe a nós apenas esperar quando a “catástrofe” irá ocorrer. Noel Carroll exemplifica que, numa cena de perseguição entre uma vítima e um monstro, “há o suspense de saber se ela será salva ou não”. Há apenas duas alternativas possíveis: A morte ou sobrevivência, seja da vítima ou do monstro. (Homo Literatus)

Outro recurso possível de se identificar na literatura de suspense é quando o leitor tem acesso aos vários pensamentos e atitudes de mais de uma personagem da história – muitas vezes retratados em capítulos diferentes. Quando o narrador não apenas dá enfoque a uma única figura, permitindo por meio do meio do fluxo de pensamento das mesmas, ou com ajuda de outros registros como cartas e diários, podemos observar diferentes ângulos de uma trama e por meio deles tentarmos reconstruir ou já saber como o enredo irá se desenrolar.

Um exemplo que tive contato recentemente foi Uma casa no fundo de um lago, de Josh Malerman, o mesmo autor de Caixa de Pássaros (ambos os livros lançados no Brasil pela editora Intrínseca). A capa, o resumo e a forma do discurso utilizado pelo escritor nos preparam para acompanhar os protagonistas, sabemos que eles irão encontrar algo nessa casa, apesar de não termos certeza do que seja, página por página nos preparamos para o que irá acontecer.

Outra sugestão de obra que se encaixa nesse gênero: Stephen King – IT: A coisa

woman_liyng_pexels-photo-267684.jpg

Parece confuso, pois esse recurso também é utilizado para solucionar os livros de mistério, mas no segundo caso quem nos apresentará tais fatores serão as próprias personagens. Afinal no mistério pode-se perceber a inversão da tensão. As personagens sabem mais do que o espectador. Em geral são filmes em que contam com reviravoltas (o famoso plot twist).

Para Carroll – mais uma vez não podemos deixar de recorrer a ele – o mistério lembrará as obras que envolvem crimes, investigação e traços do romance policial. Ele permite mais possibilidades sobre o fim da trama, por exemplo, por haver vários supeitos em um único caso e a revelação acontece muito próxima ao fim do número de páginas. Um exemplo que posso oferecer é o do livro Neverwhere (traduzido como Lugar Nenhum pela Conrad) do escritor Neil Gaiman, que mistura referências mitológicas, aventura, e mistério até mais ou menos metade do volume, quando revela o verdadeiro vilão e Master mind.

Outra sugestão de obra que se encaixa nesse gênero: Um estudo em Vermelho – Conan Doyle


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Alfred Hitchcock – Minhas 13 Histórias Favoritas de Suspense;

Cezar Rogerio de Moura – Curso: Como escrever um roteiro de cinema;

Gustavo Guerra – Dissecando Filmes, Cinema, Especial, Qual a diferença entre Suspense x Mistério e Terror x Horror. Video.

Donald Beecher – Abstract: Suspense. link.

Facebook Comments

Sobre o autor

TatiCared
Formada em Letras-Japonês (UFPR). Gosta de livros, filmes e games. Co-Editora da Tudo éX Texto e produtora do Sacolão dos Livros. Também oferece seu serviço de coaching na Laboralivros.com

TatiCared

Formada em Letras-Japonês (UFPR). Gosta de livros, filmes e games. Co-Editora da Tudo éX Texto e produtora do Sacolão dos Livros. Também oferece seu serviço de coaching na Laboralivros.com

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: