DICAS | O Tempo Revisitado: O Pastiche em Akutagawa

rashomon-e-outros-contosRecentemente terminei de ler um livro de contos de Ryûnosuke Akutagawa (1892-1927) intitulado Rashômon e outros contos. Muito do que li ficou em minha cabeça, especiamente a parte em que a coletânea traz os textos mais recentes do autor – incluindo o  derradeiro manuscrito, feito antes de seu suicídio.

Entretanto, não é dessa parte da obra – e dessa fase do autor – que eu gostaria de falar, mas sim de um grupo específico de contos de narrativas históricas: Ochômono (coisas da nobreza). Apesar do título enfatizar o contato com a aristocracia japonesa, os contos não são centrados somente na elite, mas em histórias do povo situadas na última divisão do período clássico japonês, o período Heian (794-1192).

Cena do filme Rashomon (1950), de Akira Kurosawa

Os contos da era Heian, especificamente Rashômon (1915) e Yabuno naka (dentro do bosque, 1922) foram baseados nos escritos do clássico Konjaku Monogatarishû (coletânea de narrativas de ontem e de hoje, século XII) e são os contos mais conhecidos, em especial porque foram neles que o famoso cineasta Akira Kurosawa se inspirou para fazer o filme Rashômon (1950), com o qual ganhou vários prêmios no Festival Internacional de Cinema de Veneza de 1951.  Kurosawa se utilizou das narrativas de Akutagawa, assim como o próprio Akutagawa fez se valendo das narrativas clássicas. Podemos dizer que ambos utilizaram da inspiração suscitada por uma obra para fazer a sua própria, trazendo outra visão, explorando outros questionamentos.  Não se trata de uma cópia, mas de um revisitar:

Akutagawa, quando retira de uma coletânea compilada oito séculos antes pequenas cenas ou relatos sucintos, estes são deliberadamente transformados em obra sua, sendo utilizadas como motor para a sua discussão ética; e Kurosawa, ao retomar e adaptar dois contos seus, também se apropria das reflexões desenvolvidas, mas, criando novos personagens, reitera sua confiança final no ser humano, sentido ausente nos originais.

HASHIMOTO, Madalena. “Ryûsuke Akutagawa: apresentação de uma estética contida de escritor”

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ilustração de Gustave Doré (1668)

No ocidente, existe o termo pastiche para designar uma criação que é uma reinterpretação de outra, muito discutida no século XIX — cabe ressaltar aqui que o pastiche muitas vezes é associado a uma visão negativa, em que ele perverteria o sentido original da obra, criando assim uma obra menor. Tal característica, isto é, a de perverter, não de fazer algo “menor”, é típico da paródia e não do pastiche. O pastiche fica com a fama de ser a “cópia malfeita e desprovida de humor” de alguma coisa. Mas essa ideia não faz jus à proposta do pastiche. É graças ao trabalho de La Fontaine em seu livro As Fábulas (1668) que as histórias contadas por Esopo no século IV antes de Cristo foram trazidas de volta à luz, caindo no conhecimento de várias pessoas ao redor do mundo.

Diferentemente do ocidente, que questiona o valor do pastiche, na cultura japonesa ele é bem visto. Honkadori (tirar de um poema original) é uma tradição literária japonesa em que seu recurso é fazer uma alusão ou reinterpretação de trechos, versos ou trama de um autor respeitado. Isto é tão tradicional quanto o costume da corte de recitar poemas. No compêndio de poemas Man’yoshû (coletânea das dez mil folhas, publicado por volta de 759, período Nara) são encontrados vários poemas que fazem referências a obras de famosos poetas chineses, ou mesmo, poemas que fazem referência a outros poemas publicados no mesmo livro. Pode-se dizer que, reconhecer em um poema um trecho reinterpretado de outro, era sinal de um verdadeiro apreciador e conhecedor da arte.

Akutagawa sentado, centro.

De qualquer forma, o que proponho aqui é notarmos no trabalho de Akutagawa, que ao utilizar uma historia tradicional e revisitá-la, ele a permeou com conceitos de sua época. Os questionamentos morais que existem em seus contos não eram possíveis no tempo histórico da historia original. Ou talvez até fossem, mas eles não seriam apresentados naquele texto antigo. Outro aspecto interessante de se observar é que, no período histórico em que vivia o escritor (pós industrialização do Periodo Meiji e pré guerra) a cultura ocidental tinha grande força, tanto no meio social quanto acadêmico. Fazer histórias que tratassem de uma época “esquecida” era uma forma de encontrar suas raízes e valorizá-las. Não querendo tratar de qualquer postura política do autor, mas evidenciando o interesse em trazer algo de sua cultura que não era exatamente o que estava na moda. O pastiche trouxe originalidade ao seu texto, afinal ele estava apresentando algo de contrastante àquele meio industrializado ao utilizar uma base tradicional.

Pode parecer discurso de gente chata, mas quando aquele professor ou colega mais velho recomenda a leitura de um clássico pode não ser tão má ideia, não é mesmo?  Num meio onde muitos jovens escritores se baseiam em séries televisivas (tv que nada, é netflix na verdade), tirar inspiração de grandes obras, mesmo as mais simples ou esquecidas, pode resultar num trabalho maravilhoso. Afinal, nessas mesmas séries, filmes e até mesmo livros atuais – ao menos os melhores – se forem investigados a fundo, poderá se perceber que existem influências de obras do passado. O revisitar faz parte da criatividade humana.

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Ilustração de Genji Monogatari, séc XII Cap. 48 – 宿り木 Yadorigi (“Hera”). Museu de Arte de Tokugawa.

Os contos de Akutagawa são construídos a base de uma pesquisa minuciosa, que pode ser notada nos títulos citados acima, mas também em vários outros, como os contos Edomono (“coisas de Edo”, antigo nome da capital Tokyo no período Edo 1603-1868) e alguns contos da era Meiji (1868-1912), com destaque para o conto Butôkai (O baile, 1912), onde os detalhes de vestimenta e comportamento são cuidadosamente colocados e identificados no contexto histórico, ao mesmo tempo em que o autor apresenta questionamentos contemporâneos a ele.

 

Quanto mais à base o escritor se inclina, melhor ele pode entender de onde vêm aqueles frutos e no que eles se transformam. Talvez, uma boa reflexão – quem sabe até um exercício – à criatividade seja pensar em grandes histórias antigas e recontá-las não apenas para refazer, mas para propô-las por outro ângulo.

 

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Sobre o autor

Lua Bueno Cyriaco
Administradora do Clube de Livros, Produtora e organizadora do Concurso Literário Autoramente! Ilustradora e quadrinista - Formada em Artes Visuais (FADM-UNOPAR), graduanda em letras Japonês (UFPR) Assina os cadernos e marcadores da própria marca Lunares.
Uma brasiliense no frio de Curitiba.

Lua Bueno Cyriaco

Administradora do Clube de Livros, Produtora e organizadora do Concurso Literário Autoramente! Ilustradora e quadrinista - Formada em Artes Visuais (FADM-UNOPAR), graduanda em letras Japonês (UFPR) Assina os cadernos e marcadores da própria marca Lunares. Uma brasiliense no frio de Curitiba.

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