DICAS | Quando a Literatura conduz o homem: a seleção de contos de Alfred Hitchcock

Para as matérias dos últimos meses retomei dois costumes que tinha na minha adolescência. O primeiro foi o costume da leitura, o que pode parecer estranho, mas há muito não faço uma leitura prazerosa, sem a necessidade de me debruçar sobre o texto, analisá-lo, fichá-lo e reinterpretar o seu conteúdo para um trabalho acadêmico; coisa o que tenho feito cotidianamente nos últimos anos. O segundo foi voltar a ruminar histórias de horror. Quando mais nova havia em mim essa fissura por creepy pastas e também me recordo de colecionar algumas versões em mangá bastante obscuras como Hellsing e Serial Experiment Lain. Histórias que envolviam o sombrio, que mexiam com aquilo que era mais macabro e que me davam a certeza que o protagonista estaria morto – ou pelo menos completamente ferrado – ao final da trama eram ao mesmo tempo as minhas favoritas e as que me tiravam noites de sono. Nunca me desvencilhei desse gosto, mas a última história que tive o (dhttps://i2.wp.com/thejar.hitchcock.zone/files/gallery/org/7054.jpg?w=800&ssl=1es)prazer de ler foi há três anos. Por mais que seja uma consumidora de séries televisivas e jogos, os efeitos visuais e sonoros que causam um susto repentino me incomodam e me aborrecem bastante.

Pois bem, ao trabalhar com o projeto da campanha do livro H. H. Holmes, psicopata americano que está sob financiamento coletivo no catarse, precisei não apenas ter um estudo dos dados do famigerado médico e assassino, como também tive que resgatar algumas aulas de criação de roteiro de cinema e outros grandes nomes de autores e artistas cujo os trabalhos retratassem esse assunto. Eis que encontrei o seguinte título: Alfred Hitchcock apresenta: Minhas 13 histórias favoritas de suspense. Esse nome prendeu a minha atenção e, se há em você leitor um mínimo de conhecimento cinematográfico, sabe o peso que é poder encontrar um material do grande diretor de Psicose (1960)  e O Homem que Sabia Demais (1956).

Consegui encontrar uma versão na biblioteca da faculdade, traduzida por Alfredo Barcellos Pinheiro de Lemos e lançada pela Editora Record, provavelmente da década de 70, e depois de passar pelos contos, gostaria de apresentar algumas das razões pelas quais eu gostei dos textos e acredito que os amantes do cinema e literatura de suspense devem lê-lo.

slife fino holmes

O livro, diferentemente do que se pode pensar, não é uma obra escrita pelo Mestre do Suspense. As páginas são uma compilação de 13 histórias de autores diferentes e de épocas diferentes e elas estão ali pela simples razão de Hitchcock gostar delas e acreditar que os todos espectadores de seus filmes possam apreciá-las também. O prefácio (a única intromissão que faz durante a leitura) serve apenas para nos avisar que em todas as histórias “alguém sempre faz alguma coisa” e que as “personagens encontram o seu destino final de uma estranha maneira”. A brevidade em estabelecer o ambiente para as histórias e já inserir o leitor naquele universo, de forma que ele assuma por conta e risco a jornada, muito se assemelha com outros tipos de mídias como por exemplo os jogos de terror.

Posso dizer também que esse livro é uma raridade. Não encontrei reedições do mesmo e todos os volumes com os quais me deparei, tanto físicos quanto de vendas digitais, tinham um aspecto antigo, folhas amareladas, diagramação como que feita em máquinas de escrever e a lombada costurada e quase desmanchando. Essa aparência envelhecida tem seu charme e traz a sensação interessante de estar lendo um relato feito por alguém da família em um diário ou como se estivéssemos ouvindo alguém narrar oralmente um caso que poderia acontecer com um amigo ou vizinho.

O primeiro conto foi o que me convenceu de fato. Em menos de dez páginas a nostalgia de ser arrastada para o fim da trama, sabendo que algo aconteceria, mas não exatamente o quê, trouxe de volta as memórias da adolescente e leitora aficionada. Felizmente, ou infelizmente, a variedade de autores ofereceu não apenas cenários diferentes como também estilos narrativos variados. Enquanto há histórias sangrentas e eufóricas, outras são lentas e não tão impressionantes quanto previ.

Por essa mesma razão, a variedade foi uma porta que me apresentou para nomes não tão conhecidos da literatura e que, em sua grande maioria, não possuem tradução de livros no Brasil. Além disso, como estudiosa da área de Letras, todo texto é uma descoberta de temas e assuntos a serem trabalhados. A fonte de inspiração do cineasta pode me servir também como fonte de criação, como obra a ser estudada nas salas de aula, oficinas dentre outros. Não sendo o único, Querem minha caveira, 13 Historias que ate a mim assustaram e Histórias para Ler no Cemitério são alguns dos títulos do mesmo gênio e que já estou ansiosa para encontrar e ler.

 

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Sobre o autor

TatiCared
Formada em Letras-Japonês (UFPR). Gosta de livros, filmes e games. Co-Editora da Tudo éX Texto e produtora do Sacolão dos Livros. Também oferece seu serviço de coaching na Laboralivros.com

TatiCared

Formada em Letras-Japonês (UFPR). Gosta de livros, filmes e games. Co-Editora da Tudo éX Texto e produtora do Sacolão dos Livros. Também oferece seu serviço de coaching na Laboralivros.com

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