DICAS | Tipos de Narrador: Autor Onisciente Neutro

Vamos agora ao segundo tipo de narrador, proposto nos estudos de Ligia Chiappini, que venho tratando nos posts anteriores. Caso tenha pegado o bonde andando, fique à vontade para ver a proposta aqui e para conhecer o primeiro narrador tratado no post anterior (Autor Onisciente Intruso), clique aqui.

Autor Onisciente Neutro (neutral Omniscience)

No caso do Autor Onisciente Neutro há também o uso da 3ª pessoa que tende ao sumário, mas o uso da cena é frequente para os momentos de diálogo e ação, ao passo que a caracterização dos personagens é feita pelo narrador que descreve e explica ao leitor.

As outras características com relação a ângulo, distância, canais são as mesmas do Autor Onisciente Intruso. A única diferença é que, no caso do Onisciente Neutro, não existe a intromissão com comentários ou instruções por parte do narrador, embora a presença de um narrador se interpondo entre a história e o leitor seja sempre muito nítida.

Vindo do século XIX, esse narrador se mantém também no século XX e é bastante usado em estilos de romance policial dos anos 30, como o Falcão Maltês. A trama é interessante, mas não vou tratar dela aqui, vou apenas mostrar o trecho citado:

11258_gg“O rosto de Spade estava calmo. Quando seu olhar encontrou o dela, seus olhos, amarelo-pardos, brilhavam por um instante com malicia, e depois tornaram-se de novo inexpressivos — foi você quem fez isso — perguntou Dundy à moça, mostrando com a cabeça a testa ferida de Cairo. Ela olhou de novo para Spade, que não correspondeu absolutamente ao apelo dos seus olhos. Encostado ao batente, observava os circunstantes com ar educado e desprendido de um espectador desinteressado”

O narrador tudo sabe, no entanto não tece comentários sobre o que o personagem – Spade – pensa ou sente. O que faz com que ele fique ainda mais misterioso ou enigmático para o leitor, mas também pareça assim para os outros personagens.

Mesmo em uma cena de um beijo, seus sentimentos e comportamento não é explicitado pelo narrador:

“Ela pôs as mãos nas faces de Spade, encostou a boca entreaberta na dele, com o corpo colado ao seu. Os braços de Spade envolveram-na apertando-a com os músculos salientes sob as mangas azuis, uma das mãos acariciando-lhe a cabeça, os dedos meio perdidos entre o cabelo vermelho, a outra movendo os dedos tateantes sobre as costas esbeltas. Seus olhos desprendiam uma chama amarelada.”

O que seria essa chama? Desejo, atração física, ternura? Não sabemos, nos cabe interpretar ou adivinhar, pois o narrador nada diz. Claro que em alguns momentos os sentimentos transparecem advindos até de uma reação física, como abaixo:

“Uma raiva violenta subiu-lhe repentinamente ao rosto e ele começou a falar numa voz áspera, gutural. Segurando o rosto enfurecido nas mãos, com o olhar relampejante voltado para o chão, amaldiçoou Dundy durante cinco minutos sem parar, amaldiçoou-o com repetidos palavrões.”

Através da descrição da reação física, podemos perceber o sentimento: ódio. Qualquer tom diferente de sentimento que possa haver não é descrito, o leitor que deve pensar o que lhe couber. Porém, a percepção ainda é do narrador; o ângulo exterior, mesmo que próximo.

Um escritor que é apontado como exímio na composição da “narrativa objetiva” (a história que pode se contar por si mesma) é Flaubert.  Ele também é usado para ilustrar essa categoria de narrador, em especial com seu romance Madame Bovary.

Na verdade, Flaubert alterna o estilo do Narrador Onisciente neutro, com onisciência seletiva e onisciência múltipla (outros estilos de narrador que vamos ver mais a frente). Conforme Ligia diz: “Flaubert é ruma espécie de criador do estilo Indireto Livre, pois aperfeiçoou  extraordinariamente esse recurso narrativo que é típico dessas outras categorias e não do onisciente neutro”.  Madame Bovary virá como exemplo dessas outras categorias a frente, no entanto há o destaque de algumas passagens típicas do Onisciente neutro:

516HZDElAyL._SX316_BO1204203200_“Os peitilhos das camisas abaulavam-se como couraças! Todo mundo estava escanhoado; e mesmo alguns, que se levantavam antes do amanhecer, não tendo boa vista para se barbear, vinham com grandes arranhões diagonais por baixo do nariz e nos queixos pedaços de pele arrancada, do tamanho de moedas de 3 francos, os quais, inflamados pelo ar fresco, durante o caminho, marchetavam de nódoas rosadas aquelas caras brancas e alegres.”

 

 

Segundo Ligia, qualquer trecho do Capítulo IV poderia ser utilizado como exemplo, foi destacado o mais curto por praticidade.

***

E aqui fazemos a pergunta proposta para essa análise:

1 – Quem narra?

Um Narrador Onisciente neutro, um eu que tudo segue, tudo sabe, mas omite opiniões. Quando estas aparecem, é de forma sutil.

2 – De onde narra?

Ele está próximo, mas o ângulo é de frente, ou de fora.

3 – Quais canais utiliza e qual distância está?

Somos colocados a uma distância próxima do que é narrado, porém não temos acesso aos pensamentos dos personagens, apenas ao que pode ser visto.  O narrador continua sendo o meio que o leitor tem de saber a história, ele que intermedia e guia a visão e percepção do leitor, mesmo que não sugira nada claramente, a presença dele é inevitável e clara.

 ***

Lubbock (ensaísta e critico inglês) chama a atenção para a banalidade da história e para o talento de Flaubert que consegue fazer uma grande obra literária ao narrar algo tão simples quanto um adultério, assunto batido e gasto (sim, mesmo para o século XVIII). E o elemento que traz a força do livro é a capacidade de alternar cenas em que tudo é visto sob o ponto de vista do autor onisciente (como o trecho acima) com cenas que o ponto de vista é da personagem Emma (ou de Charles, em menor frequência). Assim é possível perceber que a opinião do autor, Flaubert aparece sim, mesmo que indiretamente, disfarçada, mas aparece, pois a visão de Emma ou dos demais personagens não é suficiente para expressar o que para elas é obscuro, confuso ou invisível, entra então discretamente o autor para revelar o que lhe interessa. O narrador onisciente com seu “conhecimento superior” entra em cena para mostrar, com certa ironia, a pobreza e o ridículo da burguesia provinciana, que não seria possível através do entendimento da personagem (imersa naquela realidade, sem “questioná-la”):

“Seu par de olhos não basta; o quadro visto através deles, por si mesmo, é uma pobre coisa, pois ela só pode ver o que sua mente é capaz de apreender; e isso tampouco lhe faz justiça, uma vez que ela mesma, em grande parte, é a criação das coisas que a cercam.”

A opinião do narrador não é mostrada claramente, embora exista nas subjetividades e entrelinhas, aparecendo vez ou outra.

***

No próximo post; “Eu” como testemunha.

 

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Sobre o autor

Lua Bueno Cyriaco
Administradora do Clube de Livros, Produtora e organizadora do Concurso Literário Autoramente! Ilustradora e quadrinista - Formada em Artes Visuais (FADM-UNOPAR), graduanda em letras Japonês (UFPR) Assina os cadernos e marcadores da própria marca Lunares.
Uma brasiliense no frio de Curitiba.

Lua Bueno Cyriaco

Administradora do Clube de Livros, Produtora e organizadora do Concurso Literário Autoramente! Ilustradora e quadrinista - Formada em Artes Visuais (FADM-UNOPAR), graduanda em letras Japonês (UFPR) Assina os cadernos e marcadores da própria marca Lunares. Uma brasiliense no frio de Curitiba.

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