EDITORIAL

Em setembro de 2003, em um evento na sede da ONU realizado em memória de 22 pessoas que morreram no atentado à sede da organização em Bagdá, que também celebrou o Dia da Paz Internacional, o então Ministro da Cultura (numa época longínqua em que havia ministério da cultura no Brasil) Gilberto Gil surpreendeu o mundo da melhor forma que um artista progressista poderia fazer: uma reunião de chefes de estado tocando juntos que simbolizou esperança e bons tempos vindouros. Gil cantou Toda menina baiana, com Kofi Annan na percussão, o então secretário-geral das Nações Unidas, morto em 2018.

Kofi Annan e Gilberto Gil, 2003

Aquela imagem de harmonia e prosperidade hoje em dia é apenas um sonho distante, quase irreal que parece estar cada vez mais envolta a uma névoa onírica. Nada do que vem do atual desgoverno brasileiro pode surpreender alguém que tenha um mínimo de consciência crítica. Não trata-se mais de partidarismo, de preferir este ou aquele político, pois simplesmente vivemos o maior retrocesso de nossa história. Se pararmos pra pensar por alguns segundos, é assustador como em uma análise breve perceberemos que a atual situação político-econômica brasileira é sem precedentes. Nunca houve semelhante descalabro. Nem os militares de 64 eram entreguistas como o são o presidente e seus asseclas. 

No último 21 de setembro Bolsonaro discursou na Assembleia Geral da ONU, e como esperado, a presepada não poderia ter sido mais vergonhosa. Seu discurso, repleto de mentiras, dados fictícios e negacionismo, surpreendeu até os mais céticos. Dentre tantos absurdos, o arremedo de presidente afirmou que o auxílio estipulado por seu (des) governo foi de 800 dólares (o que daria pouco menos de R$ 4.300,00). Fato que gerou verdadeira enxurrada de comentários nas redes sociais Brasil afora. 

Um do pontos altos da viagem da trupe manicomial a NY, porém, foi o episódio tragicômico do presidente e seus postes, que não puderam entrar em um restaurante e foram obrigados a comer na calçada. Isso por não estarem vacinados. Vergonhoso. E para encerrar com chave de ouro mesmo, até depois de Bolsonaro sofrer bullying de Boris Johnson (primeiro-ministro do Reino Unido), o ministro da saúde (pelo menos este senhor atende como Ministro da Saúde) Queiroga, foi positivado com Covid-19. Resumindo: a delegação brasileira vai aos EUA, apresenta um discurso negacionista, mente da forma mais vil, canalha e descarada possível e ainda coloca a vida dos outros em risco. É desanimador, mesmo que não tenha sido surpresa, vermos algo tão horrendo e patético como isso.

Imagem autoexplicativa

Ainda assim comemoramos nossa chegada à edição #40 da Revista TXT. Teremos nessa edição comemorativa, como praxe, o texto Putas horas, lentos gestos, de André Soltau, na coluna Conto a Gotas. Nosso artista gráfico Carlos Garcia Fernandes nos brinda com mais uma série de sua HQ Hotel Di Brasil Curva Dirio. Teremos o segundo texto de Sérgio Lutav na coluna Poética do Estrangeiro. Ainda nesta edição publico a resenha sobre o livro Põe-me – poemas de amor, poemas de quando, de João Guilherme de Souza Corrêa (Laboralivros, 2021). Na coluna Autoramente, para textos literários de convidados e convidadas, publicamos o poema Drummond, de Tiago Goes Cordeiro. Teremos também a estreia da coluna TXT Indica, sempre com três indicações de lançamentos da literatura brasileira e mundial.

Mesmo com todo esse horror que parece não ter fim, lá de longe, vindo de um lugar que tenho certeza que ainda existe no coração do Brasil, consigo ouvir a doce voz de Gil cantando  “Ah ah ah ah/Que Deus deu/Oh uh oh/Que Deus dá/Ah ah ah ah/Que Deus deu/Oh uh oh/Toda menina baiana tem um santo, que Deus dá/Toda menina baiana tem encantos, que Deus dá/Toda menina baiana tem um jeito, que Deus dá/Toda menina baiana tem defeitos também que Deus dá”…

#forabolsonarogenocida

Daniel Osiecki, editor-chefe

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Sobre o autor

danielosiecki
Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

danielosiecki

Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

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