EDITORIAL

No mesmo ano em que o Nobel de Literatura vai para o escritor tanzaniano Abdulrazak Gurnah, completam-se 46 anos do assassinato brutal do jornalista Vladimir Herzog e 57 anos que Jean-Paul Sartre recusou o Prêmio Nobel de Literatura de 1964. Herzog foi preso, brutalmente torturado e morto nos porões do Doi-Codi em 1975. Os militares emitiram nota declarando que Herzog cometeu suicídio. As imagens do jornalista enforcado em sua cela são horrendas e a notícia correu o mundo inteiro; esse episódio foi um dos primeiros em que a opinião pública passou a virar, ou seja, a população que há mais de uma década apoiou (em sua maioria) o Golpe Civil-Militar de 64, passa a olhar a situação política do país de forma mais crítica.

Vladimir Herzog, brutalmente torturado e assassinado pelos militares nos porões do Doi-Codi, 1975.

Novamente à questão do Nobel de Literatura, a premiação esteve nos trending topics literários de todas as redes sociais possíveis e imagináveis por vários motivos. Um deles foi, mais uma vez, o prêmio ser concedido a um autor completamente desconhecido para nós (muito em breve teremos traduções das obras de Gurnah) o que torna quaisquer tipos de críticas negativas ou positivas sobre sua obra incipientes. 

Outro motivo pelo burburinho, e que deve sim ser comemorado, é o fato da premiação (10 milhões de coroas suecas, aproximadamente R$ 6,2 milhões) ter ido para um escritor negro que sai do eixo eurocentrista (mesmo escrevendo em inglês). Tendo trabalhado durante anos como professor de literatura,  Gurnah pesquisou questões do pós-colonialismo, elementos que também explorou em sua ficção. Dentre outros títulos (todos inéditos em português), constam em sua bibliografia Paradise, By the sea e Admiring silence.

Abdulrazak Gurnah, vencedor do Nobel de Literatura de 2021.

Voltando a exatos 57 anos, chegaremos à polêmica recusa do Prêmio Nobel de 1964 por Jean-Paul Sartre. O filósofo francês foi laureado com o prêmio por livros como A náusea, O ser e o Nada, As Palavras e outros, porém recusou o prêmio assim como constar na lista de laureados. Em nota à Academia Sueca, explicitou Sartre:

“Senhor secretário,

Segundo algumas informações eu teria este ano algumas chances de obter o prêmio Nobel. Ainda que seja sempre presunçoso falar de um voto antes que este ocorra, tomo a liberdade de escrever-lhe para evitar um mal entendido: por razões estritamente pessoais, não desejo figurar na lista dos possíveis agraciados. Sem que isso signifique questionar a alta estima que tenho pela Academia Sueca e pelo prêmio que ela concede, não posso e nem quero neste ano e nem no futuro aceitar o prêmio Nobel.

Peço-lhe, senhor Secretário, aceitar as minhas desculpas por uma situação que lastimo e crer em minha alta consideração,

Jean Paul Sartre.”

Naturalmente que Sartre teve plena consciência de que muitas premiações (o Nobel principalmente) não dizem muita coisa sobre os reais elementos essenciais da obra literária e, muitas vezes, são decisões político-ideológicas.  Prezando por sua liberdade artística e filosófica, Sartre foi extremamente coerente com seus posicionamentos ideológicos, o levando, inclusive, a romper suas relações com Camus (por divergências sobre a Guerra da Argélia).

Jean-Paul Sartre

Na edição #41 da Revista TXT, como de praxe (e para nosso deleite), temos na Coluna Conto a Gotas, o belo texto A velha e o pó, de nosso caro escritor André Soltau. Com muita honra também publicamos mais um artigo do escritor Marcelo Nunes na coluna Leituras Xenólogas, para autores convidados. É o belo texto A literatura, as drogas e o álcool, fazendo uma simbiose entre esses elementos, tornando o texto quase sinestésico. Naturalmente que ainda teremos nosso autor de HQ’s, Carlos Garcia Fernandes nos brindando com suas provocações políticas e na TXT Indica, mais três indicações imperdíveis de leitura.

O presidente genocida está caindo, caros leitores e caras leitoras, falta pouco. O navio está afundando e muitos dos ratos estão fugindo (Guedes será o próximo!). Em nome de Vlado Herzog, resistamos.

Evoé!

Daniel Osiecki, editor-chefe

Facebook Comments

Sobre o autor

danielosiecki
Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

danielosiecki

Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: