EDITORIAL

Caros leitores e caras leitoras, vivemos no Brasil uma realidade que mais parece uma fenda no tempo. Nós, brasileiros e brasileiras, vivemos fora do tempo (usando aqui um termo do escritor israelense David Grossman) para me referir a momentos que se encaixariam perfeitamente em narrativas distópicas, ou com apelo ao fantástico, ao absurdo. O homem que preside esta nossa república onírica (pelo menos deveria presidir) o faz da pior forma possível, com desprezo por quem mais precisa do poder público, e parece que o pesadelo ainda vai durar bastante tempo.

No Editorial da edição# 33 da TXT, a primeira de 2021, escrevi que estava otimista e que possivelmente teríamos vacina já em janeiro (naturalmente que ficamos a ver navios, mesmo tendo iniciado o processo de vacinação, mas ainda é inócuo). Os (as) brasileiros (as) se tornaram uma espécie de cultores do consumo, do neoliberalismo, do “Deus Mercado”. Curiosamente aqui em nossas plagas o consumismo é muito evidente por questões externas, quer dizer, o brasileiro (a) médio (a) é um (a) deslumbrado (a) que nutre sonhos de ir à Disney, Las Vegas, Paris, e nunca de forma crítica, mas com o complexo de vira-latas tão conhecido por nós.

Andy Warhol disse que ” No futuro todos serão famosos por 15 minutos”. Será que a profecia do mestre da Pop Art se referia ao fato de os imbecis terem voz e, ainda mais, terem respaldo oficial para isso? Vários artistas da Pop Art, Warhol entre eles, buscaram reproduzir o “american way of life” com cores fortes, vibrantes e com elementos teoricamente próximos ao gosto popular. Flertes com anúncios publicitários e imagens de personalidades faziam eco à busca pelo novo, pela atmosfera do pós-guerra (e a geração baby boomer surge nessa imensa ressaca).

In the car, Roy Lichtenstein. 1963.

Não havia tempo a perder, portanto, alguns artistas desse período buscavam representar, como o futurismo de Marinetti, o movimento frenético que simbolizava a visão das conexões. Não havia preocupação com o passado, tampouco vislumbravam um futuro promissor, mas se interessavam, basicamente, pela plenitude do presente. Parece simples, mas não é. Essas questões levantadas por Warhol,  Roy Lichtenstein, Peter Blake e outros, acabaram moldando o zeitgeist que foi extremamente relevante para gerações futuras.

Na edição #34 da Revista TXT, o escritor André Soltau nos apresenta o conto Pax-Vabis (coluna Conto a Gotas), no qual retrata uma situação inusitada em que a literatura vence o obscurantismo. A história de duas irmãs carolas que têm a vida mudada graças a José Saramago. Carlos Garcia Fernandes, em sua segunda participação como autor de HQs, dessa vez traz um retrato real da situação política brasileira através de sua heroína, Vitória. Tive o prazer e o privilégio de escrever o texto da orelha do primeiro livro do poeta e editor Raul K. Sousa, Ligações que rasgam (Kotter Editorial), que publicamos nesta edição como release; Thaliany Ribeiro faz a resenha de meu novo livro de contos, Fora de Ordem (Editora Ipêamarelo). Nossa resenhista Victória Toscani resenha o livro O Formato da Nossa Decepção, de João Paulo Oliveira. O escritor Paulo Sandrini escreveu um release sobre meu outro livro que publico em 2021, 27 episódios diante do espelho (Kotter Editorial). Resenho o último livro do escritor curitibano Renato Vieira Ostrowski, Revolta das canetas (Kafka Edições).

Aproveitem a edição #34 da TXT enquanto a vacina não chega, caros leitores e caras leitoras.

Evoé!

Daniel Osiecki, editor-chefe

(Imagem: M-Maybe, Roy Lichtenstein, 1965)

Facebook Comments

Sobre o autor

danielosiecki
Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

danielosiecki

Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: