EDITORIAL

Em 1922 o poeta americano TS Eliot publica o seu magnum opus, The Waste Land (A Terra Devastada). Escrito durante o período entre guerras, o poema épico de Eliot é o zeitgeist absoluto do início da década de 20. Seus versos representam toda uma hiper realidade que foi desmantelada com o êxodo de artistas para a clara e iluminada Paris da década que se iniciava depois do pior conflito armado já presenciado até então. Foi através da busca incessante pela identidade artística destruída pela Primeira Guerra Mundial que toda uma geração de jovens artistas revolucionários se encontraram na capital francesa para produzir, provocar, contestar, enfim. Há de se levar em consideração a visão da agitadora cultural e escritora Gertrud Stein, que fazia as vezes de uma espécie de mecenas, batizando essa leva de jovens revolucionários de “A geração perdida”.

Gertrud Stein

Trago Eliot para abrir esta edição #35 da Revista TXT com The Waste Land não por acaso, pois o poeta, em seu poema monumental fez diversas referências aos acontecimentos sombrios do pós-guerra e de como toda uma geração lidou com o desespero, com a morte e com seus próprios demônios. Pablo Picasso, que também viveu ativamente na Paris dos anos 20 sob os auspícios de Stein, abordou a questão da destruição e da angústia metafísica em Guernica, de 1937.

Vivemos no Brasil (e no mundo) talvez o pior momento das últimas décadas. O Brasil tem-se mostrado na vanguarda do retrocesso com declarações e ações desastrosas de um presidente despreparado e negacionista, uma espécie de apedeuta que profere contra todos que o contradizem insultos randômicos, ameaças pueris que só pioram nossa imagem no exterior. Claro, com essa incompetência e inabilidade de gerir um país de proporções continentais como o Brasil, o presidente é o pivô de uma das piores crises econômicas da história.

TS Eliot

Caros leitores e leitoras, não é minha intenção trazer mais desespero e tristeza para vocês, mas é impossível não ver o caos que tomou conta de nosso país. Como sempre, enquanto ainda tivermos forças e disposição (que precisamos mais do que nunca), nosso bravo periódico segue firme e forte. Claro, contando sempre com suas leituras, opiniões e apoio.

Nesta Edição #35 da TXT Magazine, nosso colunista André Soltau, na coluna Conto a Gotas, nos brinda com o conto Nem Bem nem Mal, em que temáticas como religiosidade e contestação reaparecem; o artista gráfico e cartunista Carlos Garcia Fernandes apresenta a continuação da série de HQ intitulada O Presidente, trazendo uma realidade paralela que seria a ideal para nós; Victoria Toscani resenha o livro Relicário, da autora Índia Alves (lançado pela editora Traços & Capturas). Na coluna Leituras Xenólogas, para autores convidados, temos o prazer de publicar um artigo do escritor e editor Nicodemos Sena sobre o livro Bucólico Desatino, do escritor e editor Sálvio Nienkötter, coordenador editorial da Kotter Editorial. Na coluna Autoramente apresentamos três poemas do poeta paulistano Vitor Miranda.

O escritor João Simino também estreia na TXT como autor convidado. Na Coluna Autoramente publicamos um conto e um poema do escritor curitibano. Apresentamos ainda o poeta itajaiense Cristiano Moreira, estreando na edição de março da Revista TXT com três poemas.

Enquanto a vacina não vem, caros e caras, tomem todo o cuidado que é possível ter nesse momento. Leiam muito, escrevam, se revoltem, gritem. Não esqueçam, como já cantou Brecht em outros tempos sombrios, “a cadela do fascismo está sempre no cio”.

Evoé!

Daniel Osiecki, editor-chefe

(Imagem: Guernica, Pablo Picasso, 1937)

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Sobre o autor

danielosiecki
Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

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Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

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