EDITORIAL

No último 29 de março, Curitiba comemorou seu segundo aniversário em meio à pandemia. A efeméride não contou esse ano, naturalmente, com as mesmas repercussões dos anos anteriores. Na verdade quaisquer que sejam as comemorações, ainda enquanto estivermos afundados em uma crise sanitária e política sem precedentes, não teremos muitos motivos para festejar. De qualquer forma vale lembrar os 328 anos da capital das araucárias, sobretudo para deixar claro que Curitiba não é representada por um certo juiz com a voz fina, por uma certa operação tendenciosa que visou, o tempo todo, tirar de cena um político que claramente venceria o ser vil e escroque que assumiu a chefia do executivo federal no triste 28 de outubro de 2018.

Curitiba (que de sua fundação em 1693 até 1721 se chamava Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, sendo batizada depois com o nome que carrega até hoje, que vem do guarani, kur yt yba, e quer dizer “grande quantidade de pinheiros”), “a verdadeira, não aquela pra inglês ver”, parafraseando o nosso célebre vampiro da Ubaldino do Amaral, é a cidade representada por Emiliano Perneta, Rocha Pombo, Dalton Trevisan, Paulo Leminski, Alice Ruiz, Helena Kolody, Tatára, Lápis, Tezza, Banda Blindagem, pelo Festival de Teatro de Curitiba, pela Cinemateca idealizada pelo gigante Valêncio Xavier, a Curitiba do Atletiba e de tantos outros nomes e símbolos que fizeram a cidade que é tão careta e reacionária com sua burguesia tosca, cafona e deslumbrada, ser, ao mesmo tempo, gigante artisticamente.

Largo da Ordem, Curitiba

Aproveito essa edição #36 da Revista TXT para fazer menção à outra efeméride, esta de além-mar, trata-se da Revolução dos Cravos, em Portugal. O movimento simbolizou a queda do fascismo no país e a derrocada de uma das ditaduras mais duradouras da história. Salazar dominou Portugal por mais de 40 anos. Com a Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, além de Portugal respirar os bons ares da democracia, as colônias africanas (Angola, Moçambique, Cabo-Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau) tornaram-se independentes, dando início a diversos movimentos pós-coloniais e guerra civil.

Da revolução surgiram vários escritores e artistas engajados com a nova situação, tanto em Portugal quanto nas ex-colônias. Nomes como José Saramago, José Cardoso Pires, António Lobo Antunes, Augusto Abelaira, Lídia Jorge, Pepetela (Angola), Mia Couto (Moçambique), Germano Almeida (Cabo-Verde) só para citar alguns nomes, mesmo tendo diferenças geracionais entre eles, cada um participou daquilo que se convencionou chamar de A geração do 25 de abril. Sem dúvida é uma das datas mais relevantes na história recente de Portugal e também das ex-colônias.

Soldados portugueses no 25 de abril de 1974, Lisboa

Fazendo menção às duas efemérides nesta edição #36 da Revista TXT, temos a coluna Conto a Gotas, do poeta e editor André Soltau, com o conto Céu, mais uma vez flertando com a narrativa poética e lírica. Levando em consideração as comemorações da Revolução dos Cravos em 25 de abril, publico um artigo analisando a obra do escritor português António Lobo Antunes, na coluna Leituras Xenólogas. A resenhista Victória Toscani escreve sobre o livro Por que as madrugadas são longas?, de Mila Cassins (Edição do autor). O cartunista e artista gráfico Carlos Garcia Fernandes nos brinda com a HQ Tristão e Isolda, da série Olhares.

Leitoras e leitores, aproveitem, compartilhem e leiam nosso material mensal. Lembrem-se, como já cantou nosso maior escritor ainda em atividade, “Curitiba sem pinheiro ou céu azul, pelo que vosmecê é – província, cárcere, lar -, esta Curitiba, e não a outra para inglês ver, com amor eu viajo, viajo, viajo“.

Evoé!

Daniel Osiecki, editor-chefe

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Sobre o autor

danielosiecki
Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

danielosiecki

Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

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