ENTREVISTA | Marlise Sapiecinski*

Na primeira década dos anos 2000, mais precisamente em 2004, durante a graduação em Letras na PUCPR, fiz uma disciplina de Poesia Brasileira. A professora já era bastante conhecido por nós, jovens aspirantes a poetas e a pesquisadores, e de certa forma sua fama de exigente e de pôr os alunos à prova nos preocupava. Marlise Sapiecinski era uma professora que tinha um repertório intelectual imenso, mas isso nunca a afastava de nós, pois Marlise sempre fez questão de nos considerar aprendizes, e não inferiores. Da mesma forma que nos sentíamos apreensivos em sua presença, nos sentíamos seguros por sua gentileza e generosidade. Um exemplo disso eram os saraus que Marlise promovia nos encerramentos das aulas, em que convidava alunos e alunas para lerem textos seus ou de outras pessoas. Ali pude exercitar pela primeira vez as leituras em público de meus poemas.

Algum tempo depois, ainda na graduação, descobrimos que Marlise havia trocado de área, tinha se tornado fotógrafa. Lembro de ter achado estranho alguém tão apaixonado pela literatura largar o trabalho na universidade para explorar um terreno bastante diferente. Aos poucos fui entendendo as escolhas da ex-professora por essa área que tem, para minha surpresa, muito em comum com a poesia. É sobre suas escolhas, influências, projetos futuros e presentes que Marlise Sapiecinski conversou com a TXT.

TXTMarlise, primeiramente é um prazer conversar com você. Muito obrigado por aceitar o convite. Tendo sido seu aluno há alguns anos, lembro muito bem de sua paixão pela literatura, muito especial pela poesia portuguesa e brasileira. Gostaria de saber de seu início no universo literário, quer dizer, como você chegou ao curso de letras e como se deu a transição do início do interesse acadêmico para mestrado e doutorado?

Marlise Sapiecinski – Daniel, fico grata pela oportunidade de voltar a falar com você, longe agora da sala de aula, sobre um tema sempre tão instigante como a Literatura.

Minha incursão pelo universo literário aconteceu de forma bastante precoce, desde sempre, creio que antes mesmo de concluir o meu processo de alfabetização, com a descoberta das letras e a sedução das palavras, com todo o seu poder de encantamento, como tão bem descreveria Drummond, um dos meus poetas preferidos, ao qual você se refere mais adiante.

E foi assim, penetrando surdamente no reino das palavras, perscrutando os seus significados, de início muito mais por intuição acerca de toda a sua simbologia, que eu me rendi, desde muito cedo, à literatura. O fato é que muito antes de tentar compreendê-la teoricamente, muito antes de me decidir pelo Curso de Letras, eu já estava destinada a ser gauche na vida, entendendo esse sentimento como algo que, de certo modo, une todos aqueles que foram marcados pela inquietação, traduzida no desejo de compreensão do sentido mais íntimo das coisas e, para tal, servem-se largamente da Literatura, quando não da Filosofia, sem conseguir esconder, lá no fundo, mesmo que sem grandes talentos para os versos, como é o meu caso, um certo cacoete pra poeta, como disse, de forma tão simples e perfeita, Manoel de Barros.

Acho que isso explica como cheguei ao Curso de Letras e, consequentemente, o desejo de aprofundamento dos meus estudos literários através dos cursos de Mestrado e Doutorado.

TXTDe que forma seus estudos acadêmicos se relacionam (ou se relacionavam) com sua produção literária? Sei que você tem bastante material literário escrito.

MS – Na verdade, com exceção de alguns versos publicados aqui ou ali, sem muita relevância, a meu ver, meus estudos acadêmicos estão mais relacionados com a eventual produção de crítica literária. Tive a oportunidade de publicar alguns artigos, em diferentes veículos da área, assim como o livro “A Poesia de Fernando Pessoa e o Existencialismo”. Essa relação, entre estudos acadêmicos e produção crítica, se deu de forma natural, uma vez que temos a tendência de escrever e, por extensão, publicar acerca de temas sobre os quais nos debruçamos de forma mais demorada, e que, no meu caso, sempre estiveram relacionados com a poesia de uma forma geral e mais especificamente em torno de poetas como Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa, que foram objetos de estudos acadêmicos.

TXT – De que maneira você chegou a passar uma temporada em Portugal? Seus estudos na Universidade de Coimbra foram parte de sua tese A presença de Carlos Drummond de Andrade em Portugal?

MS – Meus estudos na Universidade de Coimbra deram-se em função do tema que escolhi para a minha Tese de Doutorado, inicialmente na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que foi pesquisar acerca da presença de Carlos Drummond de Andrade em Portugal.

Fiz o que se chama de Doutorado Sanduíche, que é um programa de estudos no qual o estudante de Pós Graduação realiza parte de seu trabalho em uma universidade no exterior. Para que isso fosse possível, consegui, através do Programa de Pós Graduação em Letras da UFRGS, uma Bolsa de Estudo da CAPES.

Minha pesquisa pretendeu “ler” Carlos Drummond de Andrade num outro contexto cultural, procurando avaliar, através dessa “leitura”, a recepção de sua obra para além do cenário crítico-literário brasileiro. Desse modo, busquei novas perspectivas para a interpretação da poética de um dos autores mais representativos da poesia brasileira do século XX. A intenção foi verificar como o poeta tem sido acolhido pelo público, pelos seus pares e pela crítica especializada portuguesa, bem como a atenção que tem merecido da imprensa lusitana em geral, além de procurar averiguar o espaço editorial conferido à sua obra em Portugal.

TXT – Sei da importância de Pessoa e de Drummond para você. Quais outros (as) autores (as) fariam parte de sua lista essencial, digamos de seu paideuma, como leitora e como autora?

MS – A lista de autores que, além de Drummond e Pessoa, marcaram de forma significativa a minha trajetória como leitora é bastante grande, cada um com a sua singularidade poética, a sua personalidade literária, e não caberiam todos aqui, mas não posso deixar de mencionar, entre outros:

Na poesia, Hilda Hilst, Kaváfis, Wislawa Szymborska, Manoel de Barros, Camões, Baudelaire, Shakespeare, Pound, T. S. Eliot, Emily Dickinson, João Cabral de Melo Neto, Dante, Garcia Lorca, Goethe, Vinícius de Moraes, Adélia Prado…

Na prosa, Dostoievski, Cervantes, Clarice Lispector, Tchecov, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Jorge Luís Borges, Kafka, Graciliano Ramos, Cervantes, José Saramago, Virginia Woolf, Gabriel García Márquez, Marguerite Yourcenar, Kazuo Ishiguro…

TXT – Agora dando um salto: em meados de sua carreira acadêmica você decide largar esse universo da pesquisa (pelo menos da pesquisa acadêmica formal), da sala de aula, para se dedicar à fotografia. Como se deu esse processo e por quê?

MS – Difícil dizer exatamente como se deu. Não tinha planejado. Simplesmente aconteceu, por contingências da vida, talvez… Continuo tão apaixonada pela literatura quanto antes, senão mais, pois hoje leio apenas o que me dá prazer. A fotografia apareceu como uma nova paixão. O coração é generoso, quando se trata de paixões. Tudo cabe. E a academia é sempre um lugar para onde posso voltar, se a saudade apertar. Mesmo tendo alcançado certo destaque na Fotografia, confesso que às vezes a distância dói. A sala de aula é um lugar privilegiado por excelência. Nada se compara.

TXT – Em seus tempos de professora e pesquisadora de literatura, a fotografia já ocupava algum lugar de destaque?

MS – Sempre tive curiosidade e grande interesse pelo universo das artes em geral, incluindo a fotografia, tanto que costumava manter, dentro e fora da sala de aula, um diálogo muito próximo entre esse universo e a literatura, mas devo confessar que a fotografia não ocupava um lugar especial nesse contexto. Acho que ela me pegou sorrateiramente, sem avisar. Precisei de uma boa dose de coragem para encarar, sobretudo depois de tantos anos dedicados à pesquisa e com uma promissora carreira acadêmica, mas mulher é desdobrável. Eu sou. (Adélia Prado)

TXT – Já sabendo de suas principais referências literárias, gostaria de saber quais são suas principais referências na fotografia.

MS – Como referências na fotografia, posso citar alguns nomes importantes, de fotógrafos geniais, que se tornaram ícones e têm o nome registrado na história do mundo e da fotografia, como: Henri Cartier-Bresson, Sebastião Salgado, Annie Leibovitz, Steve McCurry, Ansel Adams, Richard Avedon, Robert Capa, Helmut Newton, Robert Doisneau, Walter Firmo, Irving Penn, Diane Arbus, Elliott Erwitt, Alberto Korda, Mario Testino.

TXT – Marlise, como essas duas áreas tão distintas, fotografia e literatura (mas também tão próximas) convergem em seu modus operandi? Quanto há da Marlise fotógrafa na Marlise poeta/pesquisadora e vice-versa?

MS – As artes dialogam o tempo todo, basta ter olhos para ver, já que estamos falando de fotografia, espaço onde a sensibilidade do olhar faz toda a diferença. Quero crer que, inevitavelmente, se pode encontrar na Marlise fotógrafa rastros da outra, a que se pretendia literata. Nesse sentido, é com enorme satisfação, um certo orgulho e quase inconfessada vaidade, que algumas vezes ouço os comentários que se referem à minha fotografia como “poesia em imagens”.

O fato é que, tanto a literatura quanto a fotografia, trabalham com imagens, criando-as e recriando-as, cada uma a seu modo. Enquanto a literatura vale-se da linguagem verbal, que constrói a imagem mental, por seu turno a fotografia vale-se da linguagem não verbal, que constrói a imagem visual. Não é por acaso que Susan Sontag afirma que a fotografia é uma arte próxima da poesia, uma vez que a imagem criada pelo fotógrafo pode revelar algumas características típicas da imagem do poeta. Isso acontece quando ele consegue superar a simples visualidade, abrindo um portal para o mundo dos sonhos e da imaginação. As relações, portanto, de semelhanças entre a imagem literária e a imagem fotográfica devem-se ao fato de que ambas estão calcadas na tentativa de apreensão de instantes da vida.

TXT – Para encerrar, há algum projeto em vista para publicação? É algo que flerte com fotografia e poesia? Se houver, pra quando será?

MS – Sim, tenho em mente o projeto de um livro que conjugue imagens com prosa poética, poemas, crônicas. É algo de fôlego, que exige um tempo de preparação. Trata-se de um trabalho de fotografia um pouco diferente do que tenho feito até então. Algo mais intimista, que retrate de uma forma simbólica emoções delicadas, como a dor, a solidão, a tristeza, o abandono, o autoexílio, o sentimento de não pertencimento, o desespero e a loucura nossa de cada dia.

*Marlise Sapiecinski é Fotógrafa e Professora, com Mestrado e Doutorado na área de Literatura, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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Sobre o autor

danielosiecki
Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

danielosiecki

Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

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