LEITURAS XENÓLOGAS | Eroguro Nansensu: a contracultura e o underground do início do Século XX

           

Entre 1867 e 1912 o Japão viveu a chamada Era Meiji, ou Período Meiji, fase que sucedeu o Xogunato, organização política similar ao feudalismo vigente em seu território até então. Devido a seu sistema político particular, o Japão era visto como uma nação economicamente atrasada e distante das demais no que diz respeito às Relações Internacionais. Ainda que sob pressão da comunidade internacional, o que inclui o posicionamento de uma esquadra de navios norte-americanos na Baía de Edo ainda em 1853 que exigia a abertura dos portos japoneses, o Japão gradativamente pôs um fim à sua reclusão dando início a uma série de mudanças políticas, econômicas e sociais que o aproximariam do ocidente.

Ao longo do Período Meiji e nos períodos subsequentes (Era Taishō, de 1912 a 1926 e início da Era Shōwa, que durou de 1926 a 1989), o país passou por um rápido processo de modernização, tornando-se uma potência mundial. Houve mudanças no modo de produção, que deixaria de lado seu modelo próprio de feudalismo e abraçaria tecnologias empregadas nas indústrias do ocidente e fazendo com que a população migrasse do campo para os recém formados centros urbanos. Vivendo sua própria Revolução Industrial, o Japão tornava-se um país capitalista.

Com o advento da produção em larga escala e graças à adoção de um modo de vida tipicamente urbano, surge a necessidade de se consolidar uma indústria voltada à cultura no país, para atender aos desejos sociais e culturais tanto da burguesia quanto da classe trabalhadora. O estilo de vida e a cultura americana também ganham espaço na mídia de massa e na paisagem urbanística das cidades japonesas com a popularização dos cafés (estabelecimentos considerados modernos e voltados ao público jovem e adepto à cultura ocidental), boulevards e lojas de departamento. O surgimento de um público consumidor ativo, que era ao mesmo tempo um sujeito submisso ao Imperador e símbolo do progresso da nação, viabilizou o contato com o pensamento ocidental, trazendo ares emancipatórios à juventude da época. E é aqui que as coisas começam a desenhar um cenário propício para que a classe artística japonesa questionasse o consumismo incentivado pelas grandes revistas e jornais da época, que costumavam associar o consumo a um estilo de vida ocidentalizado e moderno e que passavam por um rigoroso processo de censura por parte das autoridades.

Anúncio da loja Mitsukoshi publicado em uma revista da década de 1930

Com a popularização da mídia impressa ao longo da década de 1920 e o acesso às ferramentas necessárias para a produção em massa ou em pequena escala e de forma independente, começam a surgir publicações de caráter revolucionário, de teor marxista ou anarquista, e publicações voltadas às artes gráficas e à literatura voltada ao erotismo e ao grotesco. Essas publicações passaram a compor o movimento Eroguro nansensu (エロ・グロ・ナンセンス), que buscava representar na mídia impressa uma sociedade considerada decadente, alienada e forjada em prazeres sexuais. A expressão Eroguro nansensu é um wasei-eigo, um neologismo baseado na língua inglesa formado pela junção de “ero” (erotic), “guro” (grotesque) e “nansensu” (nonsense).

O erotismo (“ero”) já era um termo onipresente na mídia da época, frequentemente atrelado às discussões relacionadas à promiscuidade sexual e aos padrões de beleza (especialmente relacionados ao corpo feminino). Entretanto, o termo ero também deve ser pensado como parte das diversas representações simbólicas relacionadas às relações sexuais, expressividade física e a afirmação da pessoalidade que costumavam ser bastante reprimidas histórica e culturalmente no país que buscava disciplinar os jovens a partir da educação formal (as instituições de ensino no início do século XX tinham o compromisso de formar soldados e boas esposas/mães sábias).

Quanto ao termo “guro”, ou grotesco, este era associado a personalidades, pensamentos e comportamentos considerados desviantes, deformados, obscenos e criminosos, também associados às desigualdades sociais decorrentes do sistema capitalista e de uma sociedade voltada para o consumismo que eventualmente passava por dificuldades econômicas em momentos de crises ao longo da década de 1920 (como o terremoto de Tóquio de 1923 e a Grande Crise de 1929).

Em outras palavras, o grotesco de Eroguro nansensu pode ser relacionado às mazelas enfrentadas pela classe trabalhadora e frequentemente retratada na literatura proletária ao redor do mundo, como em “Germinal” de Émile Zola (1885) e em “Kani Kōsen” (“Navio-caranguejeiro”), de Takiji Kobayashi, publicado em 1929 e fortemente influenciado por Zola, o romance narrava as dificuldades vivenciadas por trabalhadores de um navio pesqueiro. Para se ter uma noção do alcance deste tipo de literatura na época, 15 mil cópias de “Kani Kōsen”foram impressas antes da obra ser banida pela forte censura do governo impostas para conter a popularização da ideologia marxista no território japonês. Kobayashi foi preso e torturado pela polícia em 1933, as autoridades afirmam que ele teria falecido em decorrência de um ataque cardíaco.

Dito isto, é importante salientar que apesar de possuírem certos elementos narrativos em comum, o Eroguro nansensu não corresponde literalmente à literatura proletária japonesa, embora estivessem categorizadas de uma única maneira no lei que proibia muitas das obras desses dois universos.

Por fim, a expressão “nansensu”, nonsense, se refere ao tom cômico, muitas vezes associado ao que chamamos de “comédia pastelão” no Brasil, adotado por algumas publicações Eroguro nansensu. Inspiradas pelo estilo humorístico de Groucho Marx e seus irmãos e repletas de ironias, essas publicações satirizavam o ultranacionalismo do governo japonês e, ao mesmo tempo, retratavam de forma pitoresca e caricaturesca as transformações culturais moldadas pela influência de costumes europeus e americanos. Um dos reflexos dessa influência foi a explosão do fenômeno das modan garu (“modern girls”), ou moga, que adotaram não apenas a moda, mas também valores emancipatórios baseados na contracultura ocidental. Embora não possuíssem um discurso político e ideológico elaborado, seu comportamento buscava ser o oposto das chamadas ryōsai kenbo (“boas expostas, mãe sábias”), procurando se afirmar enquanto mulheres independentes, modernas e libertas sexualmente, frequentavam cafés, teatros, cinemas, fumavam em público e consumiam o que desejassem.

Uma das famosas representações das modan garu pode ser vista no filme “Banshun”, ou “Primavera Tardiade Yasujiro Ozu, lançado em 1949, a personagem Aya representa uma figura feminina que rejeita as tradições japonesas da primeira metade do século passado. Na literatura, o vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1968, Yasunari Kawabata faz diversas menções às modan garu em seu livro “Asakura Kurenaidan” (“A gangue escarlate de Asakusa”), publicado em 1930.

Modan garu

Outros autores renomados do início do século XX também se encaixavam no chamado Eroguro nansensu, incluindo Osamu Dazai, autor do segundo livro mais vendido da história do Japão, atrás apenas de “Kokoro” de Natsume Sōseki, “Ningen shikkaku” (lançado no Brasil como “O declínio de um homem”), livro de 1948 apontado como uma autobiografia parcial do autor e que narra o submundo de uma grande cidade japonesa da época e que é repleto de trechos eróticos, comportamentos desviantes como a promiscuidade, o vício em álcool e em morfina e eventos que fogem da lógica e da razão. Anteriores a Dazai, dois dos principais expoentes desse tipo de literatura foram Edogawa Ranpo (pseudônimo de Hirai Tarō inspirado na pronúncia japonesa do nome Edgar Allan Poe) e Yumeno Kyūsaku. Considerados mestres do horror e do mistério, ainda hoje são citados como os pilares do gênero no Japão e diversas de suas obras receberam adaptações para animações, filmes e mangás, e é nessas duas últimas duas mídias que, ao menos no ocidente, o Eroguro nansensu continua em evidência servindo frequentemente de referência para diretores como Takeshi Miike e Noboru Iguchi e ilustradores como Suehiro Maruo, Junji Ito e Shintaro Kago.

Por fim, considera-se o fenômeno Eroguro nansensu uma série de respostas artísticas e de manifestações espontâneas frente aos sentimentos de ansiedade e de inconformismo frente às mudanças políticas, econômicas e socioculturais do início do século XX, mudanças ocorridas graças a um processo rápido e desenfreado de modernização e pela difusão de práticas e valores ocidentais no território japonês.

Felipe Augusto Soares Lima

Felipe Augusto Soares Lima é professor de sociologia, licenciado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), atualmente, cursa Bacharelado em Letras Japonês na Universidade Federal do Paraná (UFPR). É vocalista da banda Clan dos Mortos Cicatriz, cujas letras fazem diversas referências à literatura japonesa e apresentador do programa/podcast Misshitsu Paranoia sobre contracultura japonesa na rádio comunitária Vírus.

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