INUTIFILIA | O Além-Mignon de uma análise de Agony a partir da Carne

Neste mês, o Inutifilia volta mais uma vez aos videogames desta vez com o conceito de carne: Tarik Alexandre explora uma possível análise do game Agony. A partir de um comparativo de imagens e texto, se elabora a ponte entre o polêmico jogo recém-lançado e o pensamento oriundo da pintura.

Apesar do evidente sumiço (rs), o Inutifilia continua! Para compor o texto que estou apresentando nesse mês, busquei cumprir com o protocolo de fazer uma pesquisa um pouco mais completa e mais explicativa de alguns conceitos que seriam importantes serem conhecidos para que minha exposição fizesse sentido. Sendo assim, peço humildemente um pouco de amor, paciência e atenção (com muito carinho) aos termos da coluna. Todas as referências e possíveis imagens explicativas serão de grande ajuda pra compreensão total da ideia! É longo, mas é bacana. Juro juradinho. 🙂

Por esses dias tenho acompanhado bastante o YouTube. Faço isso de tal forma que continuo contemplando algumas madrugadas pesquisando e fazendo navegações a base de submarino com o sofá e as cobertas e que, vez ou outra, uso o periscópio para ver a janela, os postes ou a geladeira.  Acredito que não há nada mais inutilmente profícuo do que assistir os jogos de videogame. Aliás, o interesse pelo stream se tornou uma prática bastante usual desde a minha descoberta do Vinesauce e outros inúmeros canais que regularmente acompanho. Porém, assistindo a alguns streams de alguns jogos, eu estava verdadeiramente cansado: era um repeteco tão grande de jumpscares e todo esse tipo de padrão do terror que mais causam desconforto pela vergonha alheia do que propriamente pelo asco.   O cansaço em relação a esses jogos me fez buscar as possíveis causas, e me remeteu a algumas reflexões que já previamente havia desenvolvido na Universidade há pouco mais de um ano atrás e decidi retomá-las para escrever esse texto. Pretendo demonstrá-las  a partir de agora, e acredito que são bastante prestativas (e complexas) do por que um jogo de terror pode ser interessante.

  1. O Estranho Misterioso ou o modelar das superfícies

Quando tratamos da vida animal num geral, costumamos pensar (e com bastante justiça) na grande variedade de espécies e formas de vida que subsistem no nosso ambiente: pássaros, felinos, caninos, marsupiais e toda a sorte de bichos, mamíferos ou não, que provavelmente algumas espécies ainda têm a proeza de passar despercebidas pela humanidade.  Mas antes de variedades, de qualquer tipo de beleza vivente, são carne. A beleza dos animais, por sua vez dos seres vivos, se constitui de veias, fluxos de fluídos que os envolvem.  Entre os sacerdotes medievais dizia-se que para dissuadir os noviços dos prazeres da carne deviam encarar os belos corpos como conjuntos de músculos e visceras grudados aos ossos que putrefam, sendo meras imitações imperfeitas da alma e do espírito de Deus. Entre o entendimento do que é o corpo para um medieval e qualquer filme da série Jogos Mortais (2004)  há inúmeras semelhanças, ainda mais sob o olhar da inquisição e qualquer método de tortura grotesco que geram bilheterias lotadas nos cinemas. A mesma pele que gera fascínio, causa profundo asco quando exposta e triturada por algum processo de empalamento ou retaliação.

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Notem nos olhares dos alunos o espanto e ao mesmo tempo curiosidade em relação ao corpo dissecado.

No renascimento levaram essa afirmação medievalista do corpo tão a sério – num sentido completamente contrário aos medievais, mas ainda assim a sério -, que se tornaram incrivelmente fascinados pela maquinaria dos corpos, a anatomia e a beleza enquanto carne.  Deste período surgem intelectuais como René Descartes (1596 – 1650), primeiro filósofo da modernidade, no seu notório livro O Discurso do Método reconhecendo o corpo como uma mera máquina que funciona por um processo de estímulo e resposta, sem contar a sua polêmica afirmação de que os animais não possuem alma, sendo meras máquinas sencientes. Blaise Pascal (1623 – 1662), em sua obra Pensamentos, de forma radical, acredita na  auto-flagelação da carne como melhor forma de lidar com o pecado (o que seitas como Opus Dei,  popularizadas por Dan Brown, até hoje aprovam). Os famosos estudos anatômicos de Leonardo da Vinci (1452 – 1519) , tão comuns em souvenires de qualquer feira (os típicos broches do Homem-Vitruviano entre outros inumeráveis), eram motivos de perseguição, blasfêmia e ao mesmo tempo admiração e cautela. O fascínio e fetiche pela carne é tão grande que vale a pena doar algum tempo de observação a Lição de Anatomia do Dr. Tulp (1632) de Rembrandt (1606 – 1669), dando a devida importância aos olhares inquietos dos acadêmicos que reparam no cadáver aberto a fim de compreender os grandes mistérios da medicina. Antes de mais nada a vida é carne, e o mistério que a encobre é de um estatuto milenar. Georges Didi-Huberman (1953-), crítico  e teórico da arte num livro intitulado A Pintura Encarnada, possui uma explicação sobre a noção de carne na pintura que nos abre os olhos para uma questão interessante:

A pintura pensa. Como? Esta é uma questão infernal. Talvez inaproximável para o pensamento. Tateamos. Procuramos um fio. Somos tentados a abordar a questão como aquela de uma sapiência do pintor, de sua vocação de sabedoria e de sua vocação de ciência. […] Sabedoria e ciência sempre se infectaram e se perverteram, entrançaram-se; constituem-se, em suma, com o sentido. […] Ao menos três paradigmas aí produzem nós e jogos: os paradigmas do semiótico (o sentido-sema[1]), do estético (o sentido-aisthesis[2]) e do patético (o sentido-pathos[3]). Acontece que Leonardo da Vinci, em sua Profezie, deu à palavra sentimento toda a extensão e a perversidade dessa rede. […] Eis o que ele escreve: […] Quanto mais se falar com as peles,  vestiduras do sentido, mais se adquirirá sapiência. (DIDI-HUBERMAN, 2012, p.19)

Mais adiante, Didi-Huberman diz que

A cor não é veste; a cor nunca deveria vir sobre os corpos, como um recobrimento. Quando ela o faz, é apenas um sudário ou, então, um fardo. […] Se a cor sabe mostrar que não se deposita simplesmente sobre seu “objeto”, mas constitui seu aparecer mesmo, o colorido torna-se então aquilo que atribui à pintura a “vivacidade” e o “natural” […].

Cumpre, pois, interrogar-se sobre o encarnado, a começar pela impossível  arbitragem da palavra.  En, seria dentro, seria sobre? E a carne, não seria o que em todo caso designa o sanguinolento absoluto, o informe, o interior do corpo, por oposição à sua branca superfície? Mas então, por que nos textos dos pintores as carnes encontram-se constantemente invocadas para designar seu Outro, isto é, a pele? Talvez seja porque esse equívoco mesmo, essa impossível arbitragem, já constitua algum fantasma maior da pintura. O fantama não é o sonho que coloca entre parêntese a prática, é uma relação tal com o objeto de desejo que, ao dividir o sujeito, modifica inconscientemente a vigília e o ato. (DIDI-HUBERMAN, 2012, pp.31-32)

Observemos minuciosamente: Leonardo da Vinci afirma que o sentir é uma mistura entre os cinco sentidos, o temperamento (estar feliz, triste, raivoso, etc.) e o símbolo (algo como a metonímia de Bom-Bril significar esponja de aço, em outras palavras, uma imagem ou um termo tomar a representação de algum significado ou sentido maior) de tal forma que não podemos diferenciá-los claramente. Sabemos como são separadamente, mas quando devidamente sentimos, sentimos as três formas do sentir ao mesmo tempo.  Toda essa sensibilidade, toda a capacidade de sentir é conhecida/apreendida através da pele. Quando dizemos pele, vale a pena glosar, não a entendamos vagamente como a nossa pele, ou então a pele de algum animal: pensemos pele como superfície, tudo aquilo que devidamente se encontra no exterior, de forma que se mostra, é visível. Quanto mais sentimos as superfícies e suas exterioridades, mais estamos próximos da sapiência: quanto mais sentimos, mais conhecemos o mundo tal como ele se apresenta.

 Talvez você consigo mesmo se questione: qual é a relação disso com a pintura?

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Francis Bacon, Pintura (1946). Observemos que, para além do aspecto grotesco da imagem,  o que se ressalta é a manipulação da condição da carne como característica fundamental e moldada a partir das cores.

A pintura transcreve pela pigmentação (pelo colorido, ou ainda pela cor), o que é exterior: cria casas, árvores, pessoas, sentimentos, realidades alternativas, etc.  Em resumo: a pintura faz carne das coisas! Ao demonstrar a carne, não se trata de meramente representar: por que nos é tão chocante os quadros de Francis Bacon (1909 – 1992), ou de Lucian Freud (1922 – 2011) ao ponto de olhá-los e nos sentirmos mal por serem tão…asquerosos? Há uma curiosidade sobre a carne: a carne quando se forma ao redor do osso, só se liga a ele enquanto está viva. Uma vez um frango morto desossado, nunca mais ligamos a sua carne a seus ossos outra vez. O Encarnado é aquilo que dá vida, ou ainda algo muito próximo da própria vida. O pintor se torna aquele que dá vida a suas criaturas a partir das peles, e a cor se torna o intermediário entre a superfície e a própria materialidade da carne.  Pintar é propriamente criar dando vida carnal às coisas: uma tarefa infernal.

 

Eis o mistério do encarnado ou da carne: como é possível suscitar vida através da materialidade? Ou ainda: como a carne é viva?  O mistério em relação a carne não parte apenas de sua existência biológica, mas sim como ela guarda consigo os poderes de transformar, agir e constituir realidades dentro de si:  animais são máquinas de carne que operam e sentem, uma vez que reagem ao mundo exterior, produzem amor, ódio, criam, destroem.  Eu não acreditaria em um deus que não soubesse dançar, diz Nietzsche.  A carne vive a dualidade de emergir a partir da reprodução e ao mesmo tempo se canibalizar. Podemos dizer que a carne se retro-alimenta: se devora para se criar e se cria para se devorar.  Tal é o curioso poder que abriga os seres vivos e tudo o mais que se compõe desta estranha superfície! Repetimos a pergunta de Didi-Huberman: encarnado é o que está dentro da carne ou sobre ela?  Jesus é o Pai encarnado: reflita sobre isso.

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Francis Bacon,  Três estudos de figuras como base para uma Crucificação (1944). Engraçado que estes seres tenham alguma semelhança com os monstros que encontramos nas séres do Silent Hill, não?

Talvez a partir daqui comecemos a entender um pouco melhor porque os jovens cheios de espinhas e grandes ouvintes do heavy-metal nos anos 80 são fascinados pelos cinema gore e trash, como Massacre da Serra-Elétrica (1974), Sexta-feira Treze (1980), Pânico (1996), e qualquer outro filme com grandes custos de maquiagem, um bicho feio e uma orquestra para surtir efeito na hora do susto. A carne é tão fascinante que mobiliza as maiores pornochanchadas da televisão brasileira nos anos 70, quanto os mais horripilantes filmes de terror que você possa ter conhecimento. Lembrou-me imediatamente alguns versos de William Blake (1757 – 1827) no célebre Casamento do Céu e do Inferno:

  1. O Homem não tem corpo que seja distinto da Alma pois aquilo a que se chama Corpo é a parte da Alma discernida pelos cinco Sentidos, principais entradas da Alma nesta era.
  2. A Energia é a única vida e provém do Corpo e a Razão é o limite ou circunferência exterior da Energia
  3. A Energia é o Eterno Deleite. (BLAKE, 2006, p.13)

A Energia que provém do corpo (ou então da carne, deste ponto de vista), é uma energia infinita, a saber, uma Energia que cria e extrapola o racional por ser total sensibilidade. Se pudéssemos juntar a sensibilidade dada por Da Vinci com a de Blake, notamos que o poder da carne é o poder de criação dos seres e da vida.  Podemos conceber até com bastante justeza que a noção de dionisíaco dada por Nietzsche no seu célebre livro O Nascimento da Tragédia, para os familiarizados com filosofia, possa ser pensada como um pensamento da carne nas devidas proporções.

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Chapa do trecho acima mencionado do livro Casamento do Céu e do Inferno de William Blake. Uma curiosidade a respeito desse livro é que todos os poemas são compostos como chapas: são pinturas conjuntas de texto que retratam a união entre o céu e o inferno.

Ora, é evidente que essas considerações sobre a carne não serão as primeiras, tampouco as últimas que foram feitos pela história da humanidade (em especial pelo ocidente), e que se eu me decidisse falar sobre isso com alguma completude, eu levaria uma eternidade. Nas referências haverão alguns livros que podem ser pertinentes sobre o assunto e que possam esclarecer um pouco mais a respeito do tema. Porém, depois deste arco minimamente explicativo, podemos chegar finalmente ao que interessa: Por que o tema da carne veio à tona? Chegou o momento cereja do bolo.

  1. A Máquina do Mistério

Em particular, tenho bastante interesse pelos jogos de terror. Aliás, em outro texto que fiz a respeito do Silent Hill isso pode ser evidenciado. Mas, um dos meus grandes anseios e incômodos em relação aos jogos de terror num geral era a grande mesmice das narrativas que  têm surgido tanto nos âmbitos indies quanto mainstreams:  sustos repentinos (jumpscares), monstros Donnie Darko, colete objetos (Slenderman, Outlast, etc) e uma história tocante sobre um indivíduo perturbado ou eventos que o Supernatural resolveria.  Acredito que a saturação do nicho é tamanha que  muitas vezes sequer se precisa ver muito mais de 10 ou 20 minutos do jogo para saber o caminho que ele irá enveredar. Porém, dia desses consultava alguns canais de jogos que tenho o prazer de assistir, especialmente o canal do John Wolfe, youtuber texano que joga quase que exclusivamente jogos de terror. Neste fluxo ininterrupto de assistir streams de jogos novos que andam caindo no canal de Wolfe, pude assistir alguns minutos (também conhecido como horas) de um jogo chamado AgonyAgony se trata de um jogo de survival horror,lançado em 29 de maio de 2018, produzido pela Madmind Studio e distribuido pela PlayWay. A ambientação de Agony se constitui eminentemente de uma alma que é enviada ao inferno e busca através de uma deusa (The Goddess) o retorno ao mundo terreno.

 

Até aí, é só mais um jogo sobre o inferno, tipo Dante’s Inferno (2010), a série Doom (1993/2016), Diablo (1996) e outros tantos que você deve estar pra lá de cansado de ver por aí.  No entanto, Agony segue uma característica que o difere substancialmente em relação a outros jogos (e que aqui incluo também o jogo Scorn, ainda prestes a lançar por uma produtora independente e que o nosso querido resenhista Raony Moraes possui um interessante trabalho a respeito que insiro aqui para vocês apreciarem) pelo seu conteúdo visual e de ambientação.

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A deusa vermelha (The Red Goddess) é uma entidade que permeia o inferno e com poderes suficientes para trazer os mortos de volta à vida terrena. O jogador é induzido a encontrá-la e completar suas tarefas para conseguir alcançar esse objetivo, o que não exatamente se constitui de uma tarefa fácil e muito menos serena.

Em primeiro plano, podemos tratar da polêmica que Agony criou no mercado de jogos em função de sua censura ser extremamente elevada: cenas eróticas, mutilação, muito sangue e mamilos, sem contar a intenção de práticas de penetração. Afinal de contas, se é o inferno, o inferno se constitui eminentemente de um ambiente de carne! Entretanto, em função de uma série de cláusulas e motivos mercadológicos, o jogo em sua forma final trouxe algumas modificações e menos cenas impactantes do que seria esperado num primeiro instante [pequena nota intrometida: não é preciso dizer que o jogo é só para maiores de idade, né?]. O inferno, em Agony, não busca reproduzir as características de um inferno dantesco, como um helicoide de sete planos. Apesar dessa quebra, o interessante do jogo é que ele não deixa de introduzir referências canônicas ao satanismo (como a famosa ilustração de Baphomet de Eliphas Lévi (1810 – 1875) do livro do Ritual de Alta Magia, divulgada nos blogs mais outsiders e por usuários de tábuas de Ouija) e do próprio Dante (1265 – 1321), como ambientes com gelo, luxúria e todos os demais pecados que somos acostumados no ocidente. Parece uma releitura satisfatória em vários âmbitos e que promovem um prazer para quem conheça a simbologia num geral.

Todavia, ainda não é esse o detalhe mais significativo de Agony para que eu o trouxesse aqui. O que compete ao jogo e que, de uma maneira extremamente explícita e impactante o faz intimamente semelhante a Scorn, é sua capacidade em apresentar a carne como constitutiva de um mundo a partir da dimensão orgânica e dos corpos que estão enclausurados no inferno. É muito notório que o jogo busca nos introduzir numa realidade completamente alternativa e repleta de seres outros (não somente as almas humanas que por lá permeiam e estão em danação) que habitam o espaço como composição da maldade e do sofrimento estético que constitui o âmbito infernal.  A alteridade dos seres em relação a nós, feitos de uma matéria orgânica (e por sua vez, grotesca), nos garantem uma grande imersão dentro do espaço de ação do protagonista para com o ambiente. Ademais, a imensidão desse mesmo espaço é de tal forma tão incomodativa e fascinante que proporciona ao jogador a capacidade de exploração de forma a poder contemplar e apreciar as diversas cenas grotescas e infernais que Agony se compromete a apresentar.  A incrível possibilidade da forma dos objetos e dos visuais que o jogo oferece se tornam uma narrativa estética de encarnação incrivelmente pertinente e necessária para o jogo.

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Um dos inúmeros ambientes de Agony: escuros, com algumas semelhanças a estética encontrada nas pinturas de Giger,  que influenciaram O Oitavo Passageiro e Scorn. A alusão a Baphomet de Lévi é muito clara quando confrontamos a imagem deste monstro. Morrer para qualquer bicho é realmente incomodativo.
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Om nom mon nom, que delícia rs.

Em algumas conversas com amigos interessados na proposta de Agony, concordamos quanto ao fato de que o gameplay e as demais características da mecânica do jogo não necessariamente apresentam inovações.  Em outras palavras, Agony pode ser um jogo que nos concebe um “fuja do bicho papão”, tal como Amnesia (2010), Alien Isolation (2014) e outros tantos títulos que caíram no gosto popular uma vez que o jogador é indefeso. Porém, cabe ressaltar que Agony se destaca por uma excelente narrativa visual e que promove a  olhares mais atentos uma grande provocação ao interesse da carne como um constitutivo de uma vida/dimensão alternativa e, por sua vez, maligna.  Por fim, talvez Agony, tal como Scorn, conseguem apresentar de modo bastante velado (apesar de impactante)  o curioso estatuto da composição da vida, ou ainda da carne e da cor que falamos anteriormente.

Ora, ressaltemos: o tema da fascinação da formação da vida, ou ainda da formação dos seres vivos em seu aspecto biológico é um tema literário muito requisitado. Talvez os escritores de suspense policial, terror, ou ainda entusiastas do estilo se sintam contemplados pela noção apresentada nesse texto, sem contar os autores que aqui mencionei e deixo nas referências.  Talvez a genialidade seja tratar do tema da carne sob aspectos outros que não somente os grotescos, asquerosos e repletos de veias, mas sim como consegue o músico Jaeden Camstra com seu trabalho em parceria com Sleepdealer em sua música Let’s go to Hell:

https://www.youtube.com/watch?v=qlfPqph0vLE

O ponto fundamental é que pudéssemos dar à noção de carne esse teor constitutivo da realidade, da vida e do mundo também como maravilhamento.  Escrever seria como pigmentar o papel com impressões de sensibilidade capazes de nos dar esses ambientes magníficos, e por sua vez de conhecimento e sabedoria, dos quais temos profundo interesse em nos debruçar. Em suma, o corpo é a produção da beleza, do grotesco e relação dos seres com o mundo.

Deixo nas referências bibliográficas algumas fontes que encontrei com mais imagens dos jogos em questão (Scorn e Agony) para que os interessados possam ver com mais calma, além de algumas sugestões de leitura sobre o tema da vida e/ou da carne. Deixo também os vídeos de gameplay que acompanhei para compor esse texto. Infelizmente, todo o material do Youtube está em inglês 🙁 , mas pode ser visto com legendas em inglês para ajudar quem não seja tão familiarizado com a escuta.

[1] Sinal, marca, ato

[2] Sentir, compreender pelos sentidos

[3] Paixão, excesso

 

saturno_goya
Bu!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, O. Manifesto Antropófago. Disponível em http://www.letras.ufmg.br/padrao_cms/documentos/profs/sergioalcides/manifestoantropofago.pdf. Acesso em 23/06/2018.

BERGSON, H. A evolução criadora. Trad. Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Ed. da UNESP, 2010.

BLAKE, W.  4 Visões Memoráveis. Trad. Manuel Portela. Ed. Antígona. Lisboa: 2006.

DELEUZE, G. Francis Bacon: the logic of sensation. Trad. Daniel Smith. Ed. Continuum. Londres: 2003.

DIDI-HUBERMAN, G. A Pintura Encarnada. Trad. Osvaldo Fontes Filho e Leila Aguiar Costa.  Ed. FAP-UNIFESP. São Paulo: 2012.

LISPECTOR, C. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

REFERÊNCIAS DE VÍDEO

Trailer de Agony

Trailer de Scorn

Gameplay de Agony feita por John Wolfe – Parte 1

Gameplay de Agony feita por John Wolfe – Parte 2

Página da Steam de Agony

Página Oficial do Scorn

 

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Sobre o autor

Tarik Alexandre
Mestre em Filosofia (UFPR). Pesquisador de teoria da literatura. Editor da Tudo éX Texto e das editoras Urso e BuruRu. Tem experiência como revisor de textos acadêmicos e literários, além de leitura crítica. Oferece seus serviços de Revisor e leitor crítico no Laboralivros.

Tarik Alexandre

Mestre em Filosofia (UFPR). Pesquisador de teoria da literatura. Editor da Tudo éX Texto e das editoras Urso e BuruRu. Tem experiência como revisor de textos acadêmicos e literários, além de leitura crítica. Oferece seus serviços de Revisor e leitor crítico no Laboralivros.

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