INUTIFILIA | O Demônio Meridiano no Nostalgic House

Em um trabalho ensaístico, Tarik Alexandre faz uma breve análise a respeito do house lançado recentemente nas plataformas do YouTube, o denominando como Nostalgic House. Nesse processo, somos convidados a conhecer o estilo em conformidade com a concepção de melancolia.

 

Tem sido interessante como nos últimos anos o YouTube tem  concentrado uma enorme gama de artistas independentes de música eletrônica publicando seus trabalhos vindos do Soundcloud ou do Bandcamp. Diariamente são postados séries de vídeos de lo-fi e house. Tanto é assim que mesmo que você seja um assíduo frequentador das fontes, não conseguiria acompanhar toda a movimentação que existe no movimento.  Para de alguma forma me manter informado/atualizado das tendências que percorrem os caminhos obscuros da internet, gosto de consultar um canal do YouTube chamado EELF. Gosto dele não exatamente porque ele venha a ser um canal mais popular ou que tenha maior repercussão do que outras fontes, sim pelo seu particular recorte. Explico: EELF produz uma curiosa fusão entre antigas filmagens oriundas dos anos 90 com músicas house que se pretendem vampirizar o antigo estilo noventista que nos alcançou pelos discos da Jovem Pan e Summer Eletrohits.

O house, com suas origens nos idos de 1970 com Frankie Knuckles e maiores repercussões em Chicago com Ron Hardy, é um estilo musical eletrônico que possuiu grande adesão em função de suas batidas dançantes e sua preferência por mixagens ligadas intimamente ao pop. Apesar da relativa idade do gênero, as produções são inesgotáveis ao ponto de ter se tornado o verdadeiro sucesso dos anos 90 (quem sabe “Barbie Girl” do Acqua seja um bom ponto de referência) em que toda e qualquer música, desde a Led Zeppelin a Gipsy Kings, foi remixada a 125 ou 130 bpm para criar um hit de sucesso.  Se você nunca passou pela experiência peculiar (ou aterradora) de entrar em uma festa de formatura, cruzeiros temáticos ou baile de 15 anos em que exista um DJ aparentemente animado e com muita vontade de causar um agito no seu sedentarismo espiritual, conto para vocês que entre a curadoria musical certamente se encontraria alguns hits de house.

slife fino holmes

Entretanto, não é exatamente esse aspecto, ou ainda o recorte, que o house promovido pela EELF oferece. Essas composições contêm, enquanto um diferencial em relação à suas antecessoras, uma temática acidiosa e nostálgica para com esse passado de jogadores de Super Nintendo e apreciadores de Nirvana. Em outras palavras, é como se pudéssemos perceber que essa retomada dada pelo lo-fi e por esse “nostalgic house” com temas mais taciturnos e preciosistas, – em certa medida seguindo os passos do vaporwave por outras diretrizes – buscassem compreender o estilo enquanto rememoração de uma experiência etérea e, por si só, fantasmática.  Há no nostalgic house (por ora denomino assim), uma ponte de derivação muito direta com o que foi chamado nos anos 2010 de outsider house (também conhecido como lo-fi house), que utiliza com mais ênfase em elementos do estilo techno e noise, proporcionando a concepção de uma composição ligada com a proposta de uma música ambiente sóbria e mais contemplativa se comparada com o house propriamente dito. O outsider house bem como o nostalgic house partem do pressuposto de uma música dada à concepção de formação de ambiente, mas é possível observar no nostalgic house um resgate ao estilo noventista de forma que se afasta dos elementos techno: há a procura por uma composição que utilizando samples e beats mais originários do house produza músicas tristes.

É curioso que esse estilo nasça justamente de uma fonte underground da internet popularizada pelo EELF.  O underground é sempre um ambiente muito próximo do periférico, propriamente descentralizado e excêntrico. Nesse sentido gosto de lembrar de Mark Fisher, que através de uma excelente colocação em seu texto Reality is Elsewhere posiciona a periferia como um local onde é possível o surgimento do propriamente diferente. Fisher pontua que nos pontos afastados dos grandes centros urbanos é que se faz possível conceber arquiteturas exóticas e elementos discrepantes numa totalidade: o excêntrico é propriamente o ex-cêntrico. Ao contrário do que se poderia supor, o centro das grandes metrópoles não consegue desenvolver variedade, pois são cobertas de uma aura de normatividade que acarreta em certa esterilidade ou em uma cidade estática. Somente ao que escapa a essa norma, tal como o fora do centro, consegue suscitar a variedade. Variedade aqui é justamente o que está próximo de um estranhamento, de uma aparência inquietantemente familiar, feito um sonho.  É este aspecto sonhador que parece nos interessar no nostalgic house: a sua condição suburbana conduz a sonhar com esse passado reinventado, ou a vivê-lo enquanto muito próximo do insólito, correlato a essas questões do sono que se aproximam de uma fantasia, ou ainda um fantasma.

O critério do nostalgic house paira em seu aspecto acidioso, como apresentado anteriormente. A acídia, também conhecido como demônio meridiano, é um dos temperamentos pecaminosos que, de acordo alguns antigos cristãos medievais e as leituras de Klibansky, Saxl e Panofsky, estava próximo da preguiça e da tristeza. O demônio meridiano acometia aos eclesiásticos estudiosos ao meio-dia, que em função do sol a pino, tinham enorme indisposição.  De acordo com Agamben em seu livro Estâncias, o acidioso se comporta de forma irrequieta, incapaz de se fixar em qualquer atividade ao ponto de sentir extrema gastura por conta de sua inquietação. Em geral, o acidioso após tanto cansaço pela inquietude dorme por cima de seus livros, absolutamente dominado pelo demônio. É interessante que entre as categorias legadas a acídia (ou suas filhas), se encontra a ociosidade, sonolência, inquietude, instabilidade, verborragia e curiosidade, que de acordo com São Tomás de Aquino teriam “a ver com a divagação da mente pelo ilícito”.  Agamben avança em direção a considerar entre as filhas da acídia que a instabilidade seja suscitadora do desespero, gerando a divagação e a fantasia. Logo, o acidioso entra em gastura e sono profundo porque propriamente delira, fabula e dentro de suas fabulações não consegue se libertar ao ponto de cair exausto por cima de seu livro de estudos. É atividade do acidioso ser, portanto, contemplativo de eventos que propriamente não existem. “Cabeça vazia, oficina do diabo” desse ponto de vista é, no mínimo, coerente.

A acídia, ainda de acordo com Agamben, foi anexada ao conceito de tristeza, de forma que ambas se tornaram a preguiça enquanto pecado capital.  Entretanto, para além do aspecto teológico, podemos observar a acídia como a atividade da fantasia, ou ainda de um sonho lúcido que, diante de sua força e grandeza, acarreta a um estado de torpor e tristeza, gerando sono e inanição.  Tomado por esse preceito, poderíamos compreender que a atividade acidiosa no seu fator fantasmático/fantasioso, se desvela como fruto na condição de ex-centricidade, ou periferia do próprio pensamento que fabula sobre um possível-impossível. O não-normativo é o que se permite o delírio, e nesse sentido poderíamos estabelecer uma ponte entre Fisher e Agamben, compreendendo que o pensamento suburbano é diretamente ligado com esse delírio de uma borda, que escapa ao centro e ao padrão, podendo ser entendidos como fantasmados.

 Enfim, em que medida podemos compreender o nostalgic house a partir desses parâmetros? Se levássemos a cabo a condição da acídia em certa proximidade com o nostalgic house uma vez que o estilo pretende trazer para si essa experiência dos anos 90, de modo a reformatá-la enquanto nostalgia, poderíamos estabelecer uma ponte entre ambos na medida em que o torpor acidioso, a saber, seu caráter de fantasia está intimamente ligado com uma noção de tristeza. É muito notório através das composições que percorrem o EELF o uso de filmagens amadoras que, de alguma forma, são cenas de uma vida costumeira e aparentemente feliz. É curioso, inclusive, que todas as músicas tragam dentro de si uma grande presença de ecos e uso de samples do período, como que suscitando uma imersão em um ambiente etéreo, etereidade no da própria fantasia. Tanto mais curioso que, inúmeras dessas músicas, em especial o lo-fi, seja utilizado com fins de estudo ou até mesmo para dormir. Essa fantasia, enquanto retomada dessa experiência do passado, como imersão próxima ao sono e ao sonhar, nos remete a alguns aspectos da concepção de melancolia.

A melancolia, famigerado termo grego que designava a bílis negra, era considerada uma patologia.  Em sua origem, principalmente consagrada pela teoria de Hipócrates, era um entre os quatro fluidos que percorriam o organismo e que causavam um estado de tristeza e torpor: seus efeitos colaterais atingiam desde inanição a atitudes consideradas insanas ou “não-ortodoxas”. Como toda doença, a melancolia era tratada através de mudanças alimentares, prática de exercícios e atividades de entretenimento que fizessem com que o melancólico pudesse expurgar o fluido de dentro de si e produzir outros fluidos, como o sangue ou a ira. Pelo menos era assim que os antigos a tratavam.  Porém, o aspecto interessante que pairava ao redor do temperamento melancólico era ser uma doença desenvolvida por indivíduos que tinham a característica de serem inteligentes ou sábios. Figuras célebres como Platão, Sócrates e Diógenes – filósofos de extrema relevância para a filosofia e o pensamento ocidental -, eram considerados melancólicos de forma irrefreável.  Ora, existe na formulação dos sintomas da melancolia uma proximidade muito direta entre o ato de pensar (ou refletir) com essa tristeza incapaz de ser sanada.  Mesmo enquanto patologia, sua causa maior era o fato de se pensar demais.  Não à toa, assim, que a acídia (reitero aqui a sua origem eminentemente medieval), possua dentro de si características propícias do pensamento: verborragia, torpor, sonolência, vertigem e tristeza.

Evidentemente, ao longo do tempo, a concepção de melancolia se desligou de seu caráter patológico, tornando-se apenas um estado de espírito ou um temperamento não necessariamente patológico. Em linhas bastante gerais, houve uma separação entre o que se considerava um estado suscitado pela ordem espiritual e um problema eminentemente fisiológico: coube para a depressão, finalmente, carregar os sintomas patológicos que antes eram atribuídos para a melancolia. Contudo, não pretendo me estender mais além nesse aspecto (deixo aqui disponível alguma bibliografia que pude consultar caso haja interesse). O recorte que nos interessa recai justamente sobre a seguinte perspectiva: uma vez interpretada a acídia como um tipo de melancolia, poderíamos conceber o nostalgic house como uma música melancólica.

Penso que esta chave de leitura nos permitiria alguns ganhos para a compreensão desse movimento, pois se há essa fantasmagoria que paira ao redor do nostalgic house, intimamente ligada com a tristeza, o que acarretaria esse estado de retomada de um passado que se pretende relembrar algum estágio de felicidade ou devaneio? Em outras palavras: por que a música eletrônica contemporânea, desde o vaporwave ao menos, se volta para o passado e busca com ele extrair algum tipo de fruto ou proveito estético/conceitual? Não se trata meramente de um pastiche, tampouco de uma repetição de um período musical consolidado há 30 atrás, mas sim alguma espécie de recondicionamento desse movimento que se vale dessa fantasia do passado e, com ela, tenta tratar de seu próprio tempo. O nostalgic house, como faria o vaporwave, não busca fazer desse passado alguma espécie de deboche ou crítica a uma sociedade de consumo. Pelo contrário, notamos certo enaltecimento desse período, utilizando elementos estilísticos de outros movimentos de house para produzir uma música nova e de repercussão.

Cabe-nos, diante disso, observar os sintomas: quais seriam os possíveis desdobramentos dessa nova experiência estética fundada no passado, não mais nos anos 80 e sim nos 90, e que agora busca fundar uma nova vertente de house? Que tipo de fantasmagoria é essa que nos assola e que, agora, cresce aos borbotões pelo YouTube? Essa melancolia que recai sobre as novas tendências musicais soam como sintoma de um novo modo de compreensão da música eletrônica underground, crescendo de forma vertiginosa pelos canais de música no YouTube e Bandcamp. Parece existir a necessidade de formação desse ambiente de fantasia e sonho, um mundo que parece, em um primeiro momento, perdido ou incapaz de ser como era nos “bons tempos”. O caráter nostálgico se debruça sobre um modo de percepção do mundo e que, diante das circunstâncias, parece enxergar o presente com algum dissabor ou descrença. É interessante que esses “bons tempos” buscam voltar sem que necessariamente sejam idênticos ao que eram em sua origem, como se fosse dado que Kasino e DJ Marcinho Fazendo a Festa são impossíveis de serem reposicionados nas mesmas condições hedonistas e de um futuro millenial que significava prosperidade e progresso. O devaneio se restringe, quase que cabalmente, a fazer um passado que se faz tristeza no presente.

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Sobre o autor

Tarik Alexandre
Mestre em Filosofia (UFPR). Pesquisador de teoria da literatura. Editor da Tudo éX Texto e das editoras Urso e BuruRu. Tem experiência como revisor de textos acadêmicos e literários, além de leitura crítica. Oferece seus serviços de Revisor e leitor crítico no Laboralivros.

Tarik Alexandre

Mestre em Filosofia (UFPR). Pesquisador de teoria da literatura. Editor da Tudo éX Texto e das editoras Urso e BuruRu. Tem experiência como revisor de textos acadêmicos e literários, além de leitura crítica. Oferece seus serviços de Revisor e leitor crítico no Laboralivros.

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