INUTIFILIA | Tarkovsky e a Água – Algumas Impressões

Em um itinerário bastante sucinto e reflexivo, Tarik Alexandre mostra uma série de impressões relativas a presença da água de forma constante nos trabalhos do cineasta Andrei Tarkovsky. Valendo-se de uma análise do trabalho teórico e imagético do cineasta, se cria um comentário que busca comparar a aparição da água com o conceito de sonho.

Acredito que não exista circunstância mais propensa ao pensamento do que a vida ordinária. Aliás, creio já ter me repetido sobre essa frase tantas vezes ao longo dessa coluna que nem seria necessário mencioná-la. Sendo assim, em um desses dias estava fazendo café coado, prática esta que ainda costumo fazer nos seus moldes mais antiquados, enchendo o bule de água na torneira.  Talvez o que mais fascine, para mim, é o fato de como a água se adapta aos seus meios: toma a forma dos objetos que a comportam. O Bruce Lee diz algo muito parecido em uma de suas entrevistas mais célebres, dando o famoso imperativo “be water, my friend”, no sentido de que devemos nos adaptar aos mais variados meios, nos moldarmos assim como a água e, assim, dominá-los.

A água é um elemento repleto de força justamente no que possui de mais frágil e flexível. Sempre que a manipulamos, se demonstra delicada e maleável com seu gorgolejar e seus desenhos na superfície.  Sempre somos impressionados com o barulho da chuva, ou vendo quedas de água, fontes, etc. como se a maleabilidade dela fosse algo que nos atraísse de forma involuntária.  Levando em consideração essa capacidade de molde, talvez pudéssemos pensar a água como aquilo que consegue vir-a-ser tudo que lhe toca, como Midas que transforma a tudo em ouro: a água pode se transformar em tudo que deseja, feito um sonho.

A humanidade costuma ter inúmeras narrativas sobre a conquista dos próprios sonhos. Desde o famoso anel de Giges de Platão na República (que encontramos uma narrativa correlata em O Senhor dos Anéis), a casos mais infantis como Em Busca do Vale Encantado. É válido rememorar o texto sobre Silent Hill levando em consideração que a bruma é, justamente, água em suspensão. Mas, tendo em vista essa amplitude de narrativas, certamente as que mais me chamam a atenção sobre como poder materializar os sonhos sejam os filmes do cineasta russo Andrei Tarkovsky: Solaris (1972) e Stalker (1979).

slife fino holmes

Tarkovsky possui a fama infinita de ser um autor maçante e soberanamente tedioso em função de suas tomadas extremamente longas, com poucos diálogos e todos eles repletos de frases difíceis e sumamente ligadas com questões existenciais. Provavelmente se você detesta filmes cults em geral, acharia dos filmes mais insuportáveis da história do cinema e preferiria assistir um episódio do Bob Esponja. Porém, pretendo com essa abordagem demonstrar em que medida ambos estes filmes podem ser pertinentes como narrativas que visam a conquista do sonho, possuindo uma relação imediata com a água.

solaris chuva
Cena de Solaris, em que Kris Kelvin (Donatas Banionis) observa o interior da casa de seu pai. É notório que no exterior chove abundantemente.

Cronologicamente, Solaris foi produzido anteriormente a Stalker. Trata-se de uma adaptação do livro homônimo de Stanislaw Lem (1961), que trata a respeito de um planeta denominado Solaris (ou mais para uma massa plasmática que se assemelha a um oceano), em que Kris Kelvin, um doutor em psicologia, se junta a uma estação que circula na órbita desse planeta/massa disforme. Em função de um convite do professor e amigo Gibarian, Kelvin segue até essa estação e descobre, após sua chegada, que o amigo/mentor estava morto. Percebendo o grau de abandono da estação espacial e de certo teor de destruição, Kris encontra uma série de conflitos, a começar pela tripulação que, em suma, enlouqueceu ou perdeu de vista o interesse em prosseguir com as pesquisas sobre o estranho planeta, sendo sobreviventes somente os doutores Sartorius e Snaut. Diante do envolvimento com este ambiente decadente, depois de se estabelecer na estação, Kris se vê em uma relação conflitante consigo próprio com questões eminentemente pessoais, em especial amores mal resolvidos do passado: sua ex-namorada Hari reaparece materialmente e de forma completamente súbita na estação, mesmo ela tendo cometido suicídio há muitos anos. (É curioso que em Silent Hill 2, James Sunderland encontra uma mulher muito parecida com sua falecida esposa Mary, chamada Maria, que se descobre posteriormente ser fruto de um delírios de James). Entretanto, de tudo isso que foi mencionado, nada nos verdadeiramente interessa, tampouco para a adaptação de Tarkovsky em si, pois além de existir uma enorme discrepância entre a narrativa de Lem e a proposta por Tarkovsky, parece-nos que a proposta do filme utiliza a narrativa do livro como pano de fundo para outros interesses.

 

stalker água.jpg
Cena de Stalker (1979)

Ora, não nos é precioso quais são as tramas entre Kelvin e Hari, ou ainda entre os doutores que visam decidir sobre o futuro da estação, muito menos para Tarkovsky. Talvez pudéssemos apontar para o seguinte aspecto: Solaris se assemelha a um oceano e é capaz de produzir materialmente os desejos do inconsciente de quem o circunda. A sua forma similar a da água consegue trazer à tona de forma material/física o que nos é resguardado de mais precioso em nós mesmos. Kelvin, em miúdos, desejava ter Hari de volta e quando a consciência de Kelvin entra em contato com esse oceano, este reproduz seus desejos como formas vivas. É curioso que, em inúmeras tomadas, vemos poças de água e chuva escorrendo pelas marquises da estação, ou até mesmo da casa do pai de Kris, como se os sonhos (ou ainda estes desejos), inundassem os ambientes que as personagens estão presentes, sugerindo de forma sutil a existência como que repleta ou submersa nessa esfera sonhadora.

 

Aparentemente este é um argumento de minha parte bastante especulativo, ou dotado de pouca evidência, já que tomo um símbolo como determinante de algum tipo de afeto ou temperamento. Até eu mesmo tive essa conclusão por muitos anos (ou ao menos desconfiava de minha própria especulação), tendo em vista que conhecia pouco ou nada da crítica de Tarkovsky. Entretanto, após assistir O Espelho (1975), sinto que tive uma confirmação mais evidente. Em uma das primeiras cenas do filme, há uma mulher que está sentada em uma cerca e, ao longe um homem que se intitula médico se aproxima. O médico, de alguma forma flertando com a moça decide sentar ao lado dela na cerca para conversar e, ele quebra com o peso. Rindo da situação, o médico se pergunta:

Caí, e que vejo eu…Raízes, arbustos. Nunca lhe pareceu que as plantas também sentem, pensam, raciocinam até? As árvores, a aveleira…[…] Estão calmos. Livres da correria, da pressa. Também das banalidades, tudo isto só a nós diz respeito.

Se tomássemos em consideração essa afirmação dada pelo médico, não poderíamos pensar que, então, todos os elementos são vivos nos filmes de Tarkovsky? Em outras palavras, talvez a água, bem como as plantas e todo o ambiente que rodeia as filmagens não estão pensando e propriamente interagindo com as personagens e com nós, espectadores? Em Esculpir o Tempo, Tarkovsky parece de alguma forma trazer essa questão por outras palavras ao afirmar que a arte não está desprovida de significado, mas sim repleta dele e que a imagem é esse instrumento que transmite um significado. A concepção do cinema é, para o autor, uma questão de poesia em que se trata de explicitar os modos de relação para com a realidade:

Quando falo de poesia, não penso nela como gênero. A poesia é uma consciência do mundo, uma forma específica de relacionamento com a realidade. Assim, a poesia torna-se uma filosofia que conduz o homem ao longo de toda a sua vida. […] para nos darmos conta da imensa força emocional dessas figuras sublimes que pairam altíssimo sobre a terra, e nas quais o artista aparece não como um mero explorador da vida, mas como alguém que cria incalculáveis tesouros espirituais e aquela beleza especial que pertence apenas à poesia. Tal artista é capaz de perceber as características que regem a organização poética da existência. Ele é capaz de ir além dos limites da lógica linear, para poder exprimir a verdade e a complexidade profundas das ligações imponderáveis e dos fenômenos ocultos da vida. (TARKOVSKY, 1998, p. 18)

Uma vez que a poiésis, ou ainda esse produzir cinematográfico estaria intimamente ligado com a relação entre humano e mundo, ou ainda entre o senciente com os demais sencientes, seria possível pensar que cada aspecto fotográfico ou cada elemento que recorrentemente aparece nas filmografias de Tarkovsky são um símbolo de relação com essa realidade que pretende ser desvelada ou explicitada: a água, portanto, seria um desses elementos. Logo, é plausível levantar uma hipótese de uma demiurgia da natureza, em que todos estes elementos produzem uma poética sobre a vida, ou propriamente da vida que se cria.

Por outro lado, é curioso que o Tarkovsky em uma série de entrevistas nega que a presença de certos elementos em seus filmes tenham a ver com uma estrutura simbólica. Em um artigo do site No Film School, pude encontrar por parte de V. Renée um recorte interessante de uma entrevista dada pelo cineasta em 1981:

Existem alguns artistas que vinculam simbologias em suas imagens, mas isso não é possível pra mim. Os poetas Zen possuem uma boa maneira de lidar com isso: eles trabalham para eliminar qualquer possibilidade de interpretação, e neste processo levanta-se um paralelo entre o mundo real e o que o artista criou em seu trabalho. (Tradução nossa)

Tendo em vista esse comentário, é possível que compreendamos não que Tarkovsky estabeleça um processo simbólico em relação a certos elementos, mas sim que estes sejam usados como os próprios elementos. Em outras palavras, poderíamos compreender que a água, em Tarkovsky, é a própria água: não um símbolo, mas uma matéria viva que suscita o sonho. Um pouco mais adiante nesse mesmo artigo, existe outro recorte extremamente pertinente em que Tarkovsky fala de sua relação com a água:

Há sempre água em meus filmes. Eu gosto da água, especialmente riachos. O mar é muito vasto. Eu não o temo; só é monótono. Na natureza eu gosto de coisas menores. Microcosmo, não macrocosmo; superfícies limitadas. Eu amo a postura japonesa para com a natureza. Eles a concentram em um espaço confinado a reflexão sobre o infinito. A água é um elemento misterioso – por conta de sua estrutura. E ela é muito cinegênica; ela transmite movimento, profundidade, mudanças. Nada é mais bonito do que a água. (Tradução nossa)

stalker.jpg
Cena de Stalker. É interessante que quando o Asseadiador, O Professor e o Escritor entram na zona, as filmagens subitamente se tornam coloridas. Coincidência?

Ora, a água produz profundidade, movimento e mudanças, o que nos aproxima diretamente de algumas características relevantes que encontramos em Stalker. Provavelmente o filme mais celebrado pela crítica, fomenta algo muito próximo de nossa discussão inicial e, concomitantemente, relaciona os aspectos introduzidos em Solaris. O longa trata a respeito de uma região proibida pelo governo que se chama “Zona”, em que um grupo de três pessoas (o Assediador, Escritor e Professor) decidem entrar, pois sabe-se que nesta região indeterminada, é possível que seus sonhos sejam realizados. A Zona nada mais seria que uma região em que a realidade e o sonho se tornam um plano indiscernível e passível de ser concretizado, o que é uma proposta muito similar com a proposta de Solaris, diga-se de passagem. Mais uma vez, de forma flagrante, Stalker possui muitos momentos repletos de água, ou ainda que os personagens interagem com a água. Um desses momentos, certamente o mais célebre e apreciado é conhecido como a oração/prece, em que o Assediador nos diz o seguinte:

Deixe que tudo tal como tem sido planejado se torne verdade. Deixe-os acreditar e então deixe que eles riam de suas próprias paixões, porque o que eles chamam por paixão em verdade não é um tipo de energia emocional, mas uma fricção entre suas almas e o mundo exterior. E, o mais importante, deixe-os acreditar em si mesmos. Deixe-os serem inofensivos, como crianças, porque a fraqueza é uma grande coisa e a força uma nulidade. Quando um ser humano nasce, é fraco e molenga; quando morre, ele é duro e insensível. Quando uma árvore está crescendo é tenra e viçosa, e quando se torna dura e seca, ela morre. Dureza e força são companheiras da morte. Moleza e fraqueza são expressões da pujança do ser, porque o que é endurecido nunca irá vencer.

São curiosos dois aspectos nesse trecho: a fala ser executada tal como uma prece (tanto o Professor e o Escritor dizem que o Assediador irá começar a dar sermões) e o fato de que esse discurso se liga imediatamente ao que parece pretender Bruce Lee quando trata sobre o fluir do ser tal como água. Para além do fato do trecho apresentar um poço ondulante, todas as características mencionadas são características próprias da água. Tendo em vista as repetidas vezes que esses momentos correlatos com a água aparecem, que não somente são exclusivos de Solaris e Stalker, mas bem como em Nostalgia (1983) e Andrei Rublev (1966) são recorrentes, seria possível compreender a água não só como um signo que denomina o conceito de sonho, mas sim o próprio sonho como água.  É nesse sentido que o comentário de Luiz Carlos Oliveira Jr. para a revista Contracampo nos vem a calhar:

A recorrência dos quatro elementos na obra de Tarkovski, como bem sabemos, tem muito mais uma função física do que simbólica. A água possui uma aparição constante em Stalker, o filme mais úmido da história, e sua importância está justamente na sua natureza, ou seja, em ser uma matéria primitiva, um dos constituintes fundamentais e preponderantes de tudo que existe no mundo, a começar pelos homens. E não é só a imagem-miríade da água (lago, poça, chuva, goteira), é também seu som em diversas modalidades (ora um barulho de cachoeira, ora um gotejar que ocupa praticamente toda a banda sonora). Embora passe por entre os dedos, a água tem um peso. Embora passem perante nossos olhos e não voltem, as imagens de Tarkovski têm um peso: a densidade não só do tempo que elas materializam, mas também do estranhamento que, mesmo terminado o filme, não se esgota em nenhuma interpretação.

A água tem um peso, mesmo que passe pelos dedos. A água em sua flexibilidade é que possui o caráter mais afirmativo de vida, já que materializa em si esses corpos próximos do sonho, da leveza adaptativa ao meio e ao existir.  Sendo assim, Tarkovsky estabelece a existência de forma que possamos enxergá-la como uma estética do propriamente frágil, volátil e sem permanência.  Assim como a água que se molda conforme o recipiente, o viver se faz como o encontrar, ou ainda o local dos sonhos que se dão encarnados, fluídos enquanto matéria movente. Se a pensamos finalmente como esse elemento do sonho que se reside nas pequenas coisas da natureza, poderíamos observar que esse gesto sonhador dos filmes de Tarkovsky não seriam de nenhuma ordem do sublime, ou ainda próximos de uma lógica do majestoso, mas sim de uma demonstração da epifania do costumeiro em que o poético se demonstra na natureza de maneira constante.

nostalgia tarkovsky

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

TARKOVSKY, A. Esculpir o Tempo.  Trad. Jefferson Luiz Camargo. Editora Martins Fontes. São Paulo: 1998.
O ESPELHO. Direção: Andrei Tarkovsky. [S.I]: 1975,  1 DVD (108 minutos).
STALKER. Direção: Andrei Tarkovsky. [S.I]: 1979, 1 DVD (163 minutos).
Studying Andrei Tarkovsky’s Use of Water & Fire in His Films: Is There Symbolism?
Andrei Tarkovsky: The Master of Poetic Cinema
Not a Drop to Drink: Water as a Symbol in the Films of Andrei Tarkovsky
Stalker – Contracampo
Entrevista Bruce Lee

Facebook Comments

Sobre o autor

Tarik Alexandre
Mestre em Filosofia (UFPR). Pesquisador de teoria da literatura. Editor da Tudo éX Texto e das editoras Urso e BuruRu. Tem experiência como revisor de textos acadêmicos e literários, além de leitura crítica. Oferece seus serviços de Revisor e leitor crítico no Laboralivros.

Tarik Alexandre

Mestre em Filosofia (UFPR). Pesquisador de teoria da literatura. Editor da Tudo éX Texto e das editoras Urso e BuruRu. Tem experiência como revisor de textos acadêmicos e literários, além de leitura crítica. Oferece seus serviços de Revisor e leitor crítico no Laboralivros.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: