LEITURAS XENÓLOGAS | A Actriz: o palco do esquecimento e do vazio, de Luís Serguilha, por Ana Maria Haddad Baptista*

Existem, segundo os grandes pensadores (incluindo, claro, escritores), momentos nas diversas etapas da humanidade, espaços que poderiam ser comparados a grandes desertos. Áridos. Aromas em dispersão. Dissolução de sonhos. Predominância de imbecilidades. E a grande tentação, embora sem fundamentações objetivas, de que, talvez, o passado tenha sido melhor. Tal tipo de tentação é perigosa. De qualquer forma os vazios não somente existenciais, mas de metáforas autênticas que nos levem a enxergar possibilidades, sempre permearam a humanidade desde que o mundo é mundo.

Mas, de repente, em meio ao caótico, que na verdade, sempre habitou épocas, surgem cintilações com alto grau de lucidez. Este é, precisamente, o caso da obra A Actriz de Luís Serguilha que desafia nossa percepção. Atravessa-a.

O autor  nasceu em Portugal e mora, atualmente, no Brasil já faz alguns anos. Pode e deve ser considerado um nômade. Morou em muitos lugares. Não somente no Brasil. Mas pode-se dizer que andou pelo mundo em diferentes momentos de sua vida. Sempre em busca de uma compreensão maior dos enigmas humanos. Continuamente à espreita. Poeta, ensaísta e um verdadeiro promotor de acontecimentos felizes em que predominam os encontros poéticos e, sobretudo, o exercício incessante do pensamento.

A Actriz é, sem dúvida, um acontecimento. Surge quando, para o nosso bem,  as portas e janelas da exterioridade se multiplicam em prejuízo, por lembrar de Octavio Paz, do possível domínio de nós mesmos. Surge para potencializar vozes mais profundas e que venham ao encontro de nossos movimentos mais silenciosos. Porque, sabe-se, nada mais povoado de vozes interiores do que o  silêncio. Diga-se de passagem que o silêncio, cujo espelho se estilhaça em graus de solidão, requer coragem. A coragem que poucos têm porque desafia a construção da liberdade. Tão repudiada em tempos áridos e desérticos. Nas palavras do autor: “Não quero regular consciências, não quero denegar os sentidos, nem representar a humanidade, não quero os plácidos ressentidos, quero perturbar, agitar perspectivas” (p.918). E, ainda: ” O homem acovardou-se porque bloqueia o desejo de atravessar o corpo e a mente simultaneamente, aprisiona o desejo porque sente o desejo como carcerário. Tem medo do desejo dadivoso, criativo, activo” (p.197).

Luís Serguilha teve a ousadia de escrever um livro com  mais de mil páginas. Desafia as leis que regem o quantitativo e o qualitativo. Desafia, com bravura, as leis do “comércio” editorial. Desafia os famosos concursos literários petrificados em seus pretensos critérios há muito fossilizados e cooptados pelos ‘acordos’ de mercado. Desafia a crítica literária (com a habitual inveja de seu objeto). Desafia o ciúme indisfarçável de seus pares. Mas desafia, sobretudo, a famosa questão da qualidade versus quantidade. Via de regra, infelizmente, conteúdos, das mais variadas tipologias textuais são avaliados tendo como balança a quantidade. Procedimento comum. Sem qualquer fundamento. Tais processos de avaliação desconhecem, talvez, que a Teoria da Relatividade (em sua primeira versão) tinha por volta de dez ou doze páginas e deu uma guinada, sem precedentes, em questões epistemológicas que envolvem as questões do tempo e da memória. Desconhecem que cada conto de Guimarães Rosa, (mesmo os mais breves), valem por muitos livros de quinhentas páginas. Portanto, que fique claro, quantidade não significa qualidade. Mas estamos diante de A Actriz. Um caso raríssimo em que a quantidade simplesmente não interfere na qualidade. Esta que não possui balança e muito menos cálculos. Mas se mede por graus, natureza e estratos abismais de profundidades, se pensarmos no eu profundo proposto por  Bergson e não esquecermos de Bachelard.

O que podemos esperar de A Actriz ? A linguagem usada pelo autor nos dá, de sobra, autorização, (por lembrar de Haroldo de Campos), para denominá-lo um romance-poema. Ou poema-romance. Tanto faz. A ordem não altera as imagens poéticas que desbordam em A Actriz num estado permanente de movimentos incessantes. Abismais. Horizontais. Verticais. Espirais. O  grande desafio do autor, entre tantos outros, foi o de traduzir signos corporais em verbais.

O livro é dividido em dezenas de partes não numeradas. Pode-se dizer que em blocos. Cada bloco em um único parágrafo. Separados por espaços em branco, logo após páginas em preto,  onde somente o silêncio fala e causa uma espécie de tensão entre as partes que numa leitura possível é a pausa para que os leitores possam respirar juntamente com o autor e com a Actriz.  Por quê? Porque o romance é puro movimento, como no seguinte fragmento: “A ACTRIZ  não se capta pela sua prossecução, constrói-se quando deixa de se de visualizar, é indecidível, os seus gestos topológicos, espontâneos acontecem num ritmo enviesado entre vozes “( p.69). A  cada parte o movimento predomina não somente no ritmo do próprio texto, mas, inclusive, em movimentos sutis alucinantes. Na verdade dançamos com a Actriz! Ao longo da leitura da obra nosso corpo reage. Como se estivéssemos no palco com a Actriz mencionada pelo autor.

A disposição estrutural das partes é de chamar a atenção porque reforça, novamente, a questão da liberdade. Talvez um dos pontos mais essenciais deste livro em se tratando de literatura. Lembremos, seriamente, de Sartre: um escritor quando escreve sabe que sua liberdade está atolada. Afogada. Afundada. E a do leitor também. Ou seja, se somos seres condenados à liberdade temos que construí-la num movimento doloroso. Continuidade perpétua. Pois bem: A Actriz exige tal exercício. O livro não é sequencial. Cada bloco, por falta de uma expressão mais exata, é independente. O leitor poderá perfeitamente começar a leitura da obra pela última parte. Ou pela segunda. Enfim a escolha é do leitor.  Ou por qualquer bloco do livro. Tal procedimento do autor é um convite à liberdade. Tal convite se justapõe à liberdade da Actriz! Uma justaposição que se abre para todos os lados da obra. A sede de liberdade e de  mostrá-la, conceituá-la, praticá-la, é evidente no livro. Serguilha é um ser liberto. Nada pode retê-lo. Uma espécie de fúria que busca envolver a todos.

O livro, (e nem poderia ser diferente), traz diversos ressoares e ecos quase inescrutáveis do autor. Isto é,  de Deleuze, Derrida, Blanchot, Bataille e tantos outros, visto que se trata de uma obra organicamente conceitual. Razão, intuição e alto grau de sensibilidade (aquela permitida somente a quem vive a vida em sua autenticidade intrínseca) se cruzam a todo momento. Como por exemplo: “O homem não compreende que a vidência constrói o inconsciente e o impensável e que a substância, o hiato, o rigor da abstracção e a causa da imagem não têm a ver com a imagem traduzida” (p.173). Ou: “Se a realidade é um devir em produção vertiginosa e criação é loucura escavadora de vazios imprecisos, é mutação sígnica inconsciente que se infiltra e dilata o tempo ” (p.459).

A linguagem poética de Serguilha evidencia, a todo o momento, que filosofia e poesia não são opostas como a maioria concebe. O autor coloca na prática da linguagem que poesia e filosofia são complementares. Sem hierarquias estúpidas. A poesia, a poesia que pensa de fato a realidade (se é que ela existe) propõe o intenso exercício do pensar. Lembremos que os sábios, de todas as áreas do conhecimento, se alimentaram de literatura. Infelizmente poucas pessoas sabem disso. Assim como os grandes escritores se alimentaram da matemática, da física, da astronomia, da filosofia e outros campos do saber.

O romance-poema em referência possui um outro aspecto muito caro em termos de linguagem: multiplica, intensifica, estende as dimensões temporais. As dimensões da memória. Luís Serguilha consegue, como poucos, elucidar, de uma vez por todas, que a poesia não está submetida ao tempo histórico. Não está sujeita a linearidades temporais. A poesia traz todos os tempos em uma única dimensão. Passado, presente e futuro formam a eternidade do instante. Somente o instante desdobrado em múltiplos tempos  pode dar conta, em parte, do subterrâneo que nos atravessa. Habita-nos. Mesmo que não tenhamos a consciência de tal processo.

Objetivamente, no livro em questão, o autor nos mostra isso quando, como dissemos no início deste texto, podemos ler os blocos da obra sem uma direção. Isso, em grande  parte, dá um não bem dado à sucessão que os sistemas de dominação nos forçam para submeter corpos, mentes, pensamentos. Os sistemas de dominação são invisíveis e sutis. Mas sabem perfeitamente o que buscam. Submissão. Subordinação. Subserviência. Linearidades. Horários. Não há concessão nem para os calendários lunares. No entanto, a lua brilha e cintila diante dos tempos sobrepostos e interpostos a cada movimento de A Actriz.

A linguagem do romance-poema, objetivamente, escamoteia os períodos compostos por subordinação. Na construção dos textos deste livro as orações, frases e períodos são plenamente justapostos. As orações coordenadas assindéticas (sem conjunções) predominam. Reinam nos planos sintáticos e demais planos  quase inexprimíveis em seus abismos  que se estruturam, na verdade, em densidades e espessuras (aqui vai, em parte, a possível balança do qualitativo).

Serguilha grita furiosamente: habitamos, para o bem e para o mal, uma cosmologia em que o todo existe. Mas em que medida? Mesmo se considerarmos as determinações necessárias que colocam algumas invariáveis no caos, existem outros caminhos que recusamos porque nosso corpo, infelizmente, ainda é um corpo, em todos os sentidos, domesticado. Doente. Cada reorganização, e elas são frequentes,  dos poderes estabelecidos busca exaurir nossas forças materiais e imateriais. Busca, intencionalmente, arrancar as possíveis paixões alegres que estão ao nosso redor.

A Actriz é um grito que adverte: saiam do marasmo. Vejam. Ouçam! Podemos e devemos. Seus gritos balançam. Destoam do senso comum. Os gritos do autor são balanços em suspensão: “A actriz sabe que só subsistem leis porque existem irrespiravelmente os tiranos, as leis sobrevivem para mergulharem a vida no terror, no apavoramento, nas almas terrificadas” (p.311). E, ainda: “Não quero a estética do conhecimento, quero os ritmos do impensável que se desdobra em outros acasos, quero as linhas rectas dos despenhadeiros, quero as memórias-mundo” (897). Prossegue o escritor: “Quero arquitectar espaços acentrados, intratemporais porque tudo surge por meio, tudo acontece no entre que ultrapassa o tempo, quero rasgar e redesenhar  geografias, desenhar o sentido do real, revigorar os limiares da duração” (p.933).

Ao finalizarmos a leitura de A Actriz obtemos, seguramente, uma certa lucidez de que o silêncio é uma necessidade vital. Esta obra mostra o quanto deixamos de viver o instante que consagra todos os tempos em uma só dimensão. Esta obra monumental  mostra que muitos sonhos deixam de ser vividos porque, covardemente, nos retiramos dos riscos e dos desafios que, na verdade, são os únicos caminhos que nos levariam a viver de forma menos angustiada e miserável. E, sobretudo, precisamos buscar, continuamente, a reconstrução de nossa pluralidade e autonomia. Eis um desafio sem precedentes e que quando se impõe é irreversível.


Texto publicado originalmente pela Revista Dialogia/ no. 37/2021.

*Mestra e doutora em Comunicação e Semiótica (PUC/SP). Pós doutoramento pela Universidade de Lisboa em História da Ciência e pela PUC/SP onde se aposentou. Trabalha como pesquisadora e professora na Universidade Nove de Julho de São Paulo nos programas de pós-graduação stricto sensu em Educação. Possui dezenas de livros e artigos publicados no Brasil e no exterior.

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