LEITURAS XENÓLOGAS |A LITERATURA, AS DROGAS E O ÁLCOOL, de Marcelo Nunes*

Em 1954, o escritor inglês Aldous Huxley publicou o livro As Portas da Percepção, que logo se tornaria um clássico. Nele, ele descrevia a sua experiência com a mescalina, e como a droga havia expandido a sua consciência, levando-o ao que ele classificou como “os antípodas da mente”. Não foi a primeira vez que um escritor narrava a sua experiência com qualquer tipo de droga: em 1821, o também inglês Thomas De Quincey publicou Confissões de um comedor de ópio, sobre a sua subida ao céu e a subsequente descida ao inferno como viciado em láudano – obra posteriormente comentada por Charles Baudelaire em Paraísos Artificiais, em 1860, em que ele também narra a sua própria experiência como usuário de haxixe e amante do vinho. Porém a história das substâncias que alteram a consciência humana remonta aos primórdios, e tudo começou com o ópio, o pai e a mãe de todas as drogas, aquela que atravessou os séculos influenciando filósofos, poetas e escritores. 

O ópio é extraído da papoula, a Papaver somniferum, que é cultivada desde 3.400 a.C. no Sul da Mesopotâmia (hoje Iraque e Kuwait), na Suméria – uma das primeiras civilizações humanas, e aquela que inventou a escrita – onde se referiam a ela como a “planta da alegria”. Os sumérios divulgaram a planta e seus baratos para os assírios, que passaram para os babilônios, que por sua vez passaram para os egípcios – que, sempre industriosos, começaram a cultivar na capital Tebas o famoso ópio tebaico (se você procurar num dicionário de português que preste, verá que tebaico é um adjetivo relativo a ópio. Esse “fino ópio” foi citado por Chaucer em seus Contos de Canterbury). Há um sem-número de referências ao ópio na Grécia antiga, e uma delas na Odisseia, de Homero: Helena de Troia dá a Telêmaco uma droga chamada nepente, que “afasta a dor”. Para muitos estudiosos, trata-se de uma preparação à base de ópio. Para os gregos, o ópio, além do uso medicinal, também possuía propriedades ocultas e espirituais. Diz a lenda que a deusa Deméter, mãe de Perséfone, tomou ópio para esquecer o seu sofrimento pelo rapto da filha por Hades. Os romanos, que surrupiaram tudo dos gregos, também preconizavam o uso do ópio no combate à dor, como Celso em sua obra De Medicina, além de ser um ótimo digestivo e sonífero. Virgílio o citou em suas obras, e Galeno, grande médico romano do século 2 d.C, foi um entusiasta das virtudes do ópio, cujo uso se tornou muito popular em Roma. Plínio, o Velho, porém, alertou que o suco da planta “não apenas possui determinadas qualidades soporíficas, mas, se tomado em quantidades excessivas produz sono até à morte”. Ele foi também o primeiro a usar a denominação opium, derivada da palavra grega ópion, que significa suco. Gregos e romanos, entretanto, não se lançaram ao comércio do ópio em suas rotas – isso ficou a cargo dos árabes, que conheciam as propriedades analgésicas da papoula desde a época dos egípcios. Durante o longo domínio do Império Islâmico, os árabes levaram a planta milagrosa para a Espanha e grandes regiões da África, Índia e China (mais tarde, no século 19, a China entraria em conflito com a Grã-Bretanha, nas duas Guerras do Ópio, ao proibir o uso da droga, que era vendida pelos britânicos e se tornou uma calamidade pública entre os chineses). No sul da Europa, no entanto, o uso do ópio praticamente desapareceu durante a Idade Média, com o declínio do Império Romano – tendo ressurgido como um elixir mágico com o regresso dos Cruzados, que haviam conhecido o ópio com os árabes, com quem lutaram. Quando os venezianos assumiram o centro do comércio europeu, o ópio estava entre os itens mais valiosos, tendo sido importado do Oriente Médio com especiarias. Embora também se fizesse o uso recreativo, na Europa o ópio era mais valorizado por suas propriedades medicinais, principalmente como um potente analgésico; porém ele sumiu dos registros históricos a partir do século 14, devido à perseguição pela Inquisição, para quem tudo que vinha do Oriente estava ligado ao Demônio. No século 16, Paracelso reintroduziu o uso medicinal do ópio na Europa Ocidental, numa preparação que ele batizou de láudano (aquela que De Quincey ingeriu), e muitos discípulos se sucederam. Através dos séculos, e em diferentes civilizações, o ópio foi ingerido em beberagens, fumado, comido e até injetado. Jean Cocteau assim descreveu a sensação em Ópio: Diário de uma Desintoxicação, publicado em 1930:

“Tudo que uma pessoa faz na vida, inclusive amar, ocorre num trem expresso em direção à morte. Fumar ópio é pular do trem com ele ainda em movimento. É ocupar-se com algo que não a vida ou a morte.”

Tal afirmação logo nos traz à mente as imagens das famosas casas de ópio que se espalharam pelas principais cidades do mundo no final do século 19, que chegaram a nós em inúmeras ilustrações e fotografias: usuários deitados, com seus longos cachimbos, o olhar perdido, entregues a pensamentos que certamente não tinham a ver com a vida ou a morte, mas com algo diverso e insondável. Assim escreveu De Quincey sobre a experiência:

 “O comedor de ópio (…) sente que está sob o domínio da parte mais divina de seu ser; isto é, as afeições estão em completa serenidade e acima de tudo brilha a luz do majestoso intelecto.”

Graham Greene, usuário confesso, abre o romance O Americano Tranquilo com seu personagem fumando ópio no Vietnã com sua amante Phuong, e Samuel Taylor Coleridge afirmou que seu poema visionário Kubla Khan surgiu repentinamente em sua cabeça após três horas de sono induzidas pela droga. Nos séculos 18 e 19, uma época de uso desenfreado do ópio na Europa (além de haxixe, absinto e cocaína), vários escritores, intelectuais e artistas tomaram (casual ou frequentemente) ou escreveram sobre drogas: Charles Dickens, John Keats, Lord Byron, Percy Shelley, Elizabeth Barrett Browning, George Crabbe, George Eliot, Lewis Carroll, Guillaume Apolinnaire, Henry Bataille, Antonin Artaud, Arthur Rimbaud, Paul Verlaine e muitos outros. Robert Louis Stevenson, em 1886, escreveu O Médico e o Monstro em apenas três dias, sob o efeito da cocaína – que ele tomava para tratar uma tuberculose (na verdade ele o reescreveu, pois o primeiro manuscrito havia sido queimado por sua esposa). O poeta irlandês William Butler Yeats (1865-1939), por sua vez, ficou viciado em haxixe – hábito do qual conseguiu se livrar tempos depois. 

Durante o século 20, o uso recreativo da morfina, do LSD e da maconha suplantou o do ópio, e naturalmente também encontrou eco na literatura, principalmente entre os beatniks norte-americanos. Allen Ginsberg era usuário de LSD e também da Cannabis, chegando a se tornar um ativista pela sua legalização. Tristessa, personagem de Jack Kerouac do livro homônimo, é uma prostituta mexicana viciada em morfina. Neste e em vários outros livros de Kerouac, na tradição do roman à clef, há personagens viciados em morfina baseados em seu amigo William Burroughs, que escreveu sobre a própria experiência em seu Junky:

“A morfina atinge primeiro a barriga da perna, depois a nuca. Uma onda de relaxamento se alastra; os músculos parecem descolar dos ossos e você tem a sensação de flutuar sem limites, como se boiasse no Mar Morto.”

O século passado também viu surgir, entre os escritores, o uso cada vez maior do álcool, além, obviamente das demais drogas. Dylan Thomas, Tennessee Williams, James Joyce, William Faulkner, F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Norman Mailer, Truman Capote, John Cheever, Dorothy Parker e Charles Bukowski estão entre os bebuns mais célebres da literatura de língua inglesa. Entre os franceses, talvez Jean-Paul Sartre leve o prêmio de maior junkie, com o seu consumo diário (segundo sua biógrafa Annie Cohen-Solal) de dois maços de cigarro, álcool em abundância (vinho, cerveja, vodca e uísque), dois miligramas de anfetaminas, 15 gramas de aspirina e um monte de barbitúricos, além de café e chá. Outro caso famoso de drogadição pesada é o do jornalista e escritor norte-americano Hunter S. Thompson, que consumia doses cavalares de mescalina, LSD, cocaína, álcool e tudo mais que aparecesse à sua frente. Stephen King, o mestre do terror, durante dez anos foi viciado em cocaína, até que conseguiu se livrar do vício, no final dos anos 80. Mas nada se compara, em quantidade de litros ingeridos e danos causados pelo alcoolismo, a Edgar Allan Poe, que diversas vezes foi encontrado por amigos caído no chão, completamente embriagado, e por fim sucumbiu ao vício.

No Brasil, a lista de escritores chegados numa cachaça é longa, e talvez ela seja encabeçada por Bernardo Guimarães, Graciliano Ramos, Mário Quintana, João Ubaldo Ribeiro, Vinicius de Morais, Hilda Hilst e Lima Barreto – cujos problemas de alcoolismo e depressão o levaram a longos períodos de internação em hospícios. Quanto aos junkies, talvez ninguém supere Paulo Leminski. Boêmio e chegado a extremos, o curitibano era usuário contumaz de maconha, álcool, LSD e anfetamina – falecendo de cirrose hepática em 1989.

Obviamente o que leva um escritor ao vício em drogas e álcool é a mesma inadequação ou insuficiência que acomete os homens comuns. Assim escreveu o filósofo e psicólogo norte-americano William James (1842-1910) sobre o álcool (mas poderia estar falando de qualquer droga) em Variedades da Experiência Religiosa:

“O poder do álcool sobre o gênero humano deve-se, por certo, à sua capacidade de estimular as faculdades místicas da natureza humana, geralmente pregadas ao solo pelos fatos frios e críticas secas da hora sóbria. A sobriedade diminui, discrimina e diz não; a embriaguez expande, une e diz sim. É, com efeito, a grande excitadora da função do Sim no homem. Traz o seu devoto da fria periferia das coisas para o seu centro radiante. Faz dele, no momento, alguém com a verdade.”

Para terminar, duas anedotas envolvendo o romancista William Faulkner, notório alcoólatra. Em sua visita ao Brasil, entre 9 e 14 de agosto de 1954, como convidado do I Congresso Internacional de Escritores, em São Paulo, Faulkner foi ciceroneado por Lygia Fagundes Telles (por quem, dizem, ele ficou encantado). Ela conta que o norte-americano estava constantemente embriagado e, apesar de muito simpático, parecia pouco à vontade com compromissos oficiais. No dia de sua partida, no aeroporto, novamente bêbado, ele perguntou a Lygia: “Como é mesmo o nome da cidade em que eu estive?” Outra passagem se refere a Ernest Hemingway, que entornava todas, porém jamais ao escrever. Perguntado certa vez se ele escrevia intoxicado, Hemingway respondeu: “Jesus Cristo! Não! Você conhece alguém que trabalhe bêbado? Ah, você está pensando em Faulkner. De fato, ele faz isso. Mas eu percebo no meio da página quando ele tomou a primeira dose.”

Imagem: Uma casa de ópio na França. Ilustração do “Le Petit Journal” de 5 de julho de 1903

Aldous Huxley e Charles Baudelaire, os antípodas da mente e os paraísos artificiais
Paulo Leminski: “Tudo em mim/ anda a mil/ tudo assim/ tudo por um fio.”

Marcelo Nunes

O autor*

Marcelo Nunes é tradutor, escritor e artista plástico. Publicou em 2021 o romance Nirvana, pela Kotter Editorial.

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