LEITURAS XENÓLOGAS | Emiliano Perneta: Exumação de um poeta maldito*

I. 

província: (pɾovˈĩsiɐ)  s.f.  1. Divisão territorial, política, administrativa usada em certos países 2. Região afastada da capital, do governo central e, por isso, menos avançada ou sofisticada; interior. 

O que quer que se diga de Emiliano David Perneta (1866-1921), natural de Curitiba, poeta que perpetrou versos tão dinâmicos em sua primeira fase, romântica, em seguida parnasiana e, por fim, simbolista, sempre será um esforço especulativo controverso. Também será controversa se nos atrevermos a cogitar, ainda que hipoteticamente, o Simbolismo brasileiro – embora oficialmente nascido da exímia lavra de Cruz e Sousa (1861-1898) – encontrou solo viçoso e floresceu, a um só tempo, rijo, porém reluzente, na geração paranaense que romperia a fronteira do século 20, quando a Modernidade mostraria sua veia embotada de contradições catastróficas.  

Cruz e Sousa, natural de Nossa Senhora do Desterro, negro, filho de escravos alforriados, teve a raríssima oportunidade de crescer sob a tutela do casal de ex-senhores de seus pais. Aprendeu Francês, Grego e Latim e tornou-se jornalista ativo pela abolição. No ofício da lírica, introjetou a poética e, mais que isso, a estética dos malditos Baudelaire, Verlaine, Mallarmé e Rimbaud. Já aí, temos uma pista da marginalidade intrínseca do braço simbolista em nossas terras. Se na Europa o Simbolismo se insurgia contra a alienação pedante da escola parnasiana e apontava os primeiros traços do esfacelamento psicológico do eu-lírico diante de uma revolução sociológica, no Brasil o movimento não rompeu exatamente o reacionário círculo letrado dos centros nevrálgicos da poesia, leia-se a capital do país, Rio de Janeiro. 

A Modernidade retirou o artista de seu lugar de conforto. Se até o primeiro terço do século 19 a arte espelhava a genialidade do artífice na exclusividade dos traços, quando pintava; da suavidade no golpe do formão, quando esculpia; da ourivesaria semântica e discursiva no texto literário; ou da sacralidade transcendental nos acordes de uma música, a partir das tecnologias de reprodutibilidades técnicas (séries de gravuras, coleções de postais, miniaturas de tridimensionais consagrados etc) e dos dispositivos de captura visual (fotografia e cinema), ou mesmo dos primeiros experimentos com a gravação sonora (fonógrafo) e comunicação a longa distância (telégrafo, telefone e rádio), os artistas tiveram de descer o Monte Parnaso a galope para não se tornarem rapidamente dinossauros congelados de uma era superada. Por isso, a pintura se tornou cada vez mais volitiva (Impressionismo e Expressionismo), o Cinema deu início a um fenômeno que se tornaria a comunicação de massa dominantes pelas décadas seguintes e a literatura passou a dialogar com a vida cotidiana e comum, aproximando o leitor do universo narrado na prosa do fim do século 19. 

Numa pátria em que a abolição dos escravos sempre foi a última pauta na voga das “instâncias superiores”, com uma população predominantemente analfabeta e paupérrima a mercê de uma pequena elite fabricada à custa de grilagens, sonegações e banditismo, o Parnasianismo não teve grandes problemas para se estabelecer como estética de altíssimo bom gosto. Afinal, não havia poesia que fizesse frente àquela professada por classes inferiores. Populares, talvez, eram as obras ultrarromântica e tétricas de um Álvares de Azevedo (1831-1852), ou a épica dolorosa no “Navio Negreiro” de Castro Alves (1847-1871), ou as idealistas e, por que não, alienadas palmeiras nostálgicas de Gonçalves Dias (1823-1864). No entanto, o vernáculo escorreito era preservado até mesmo por aqueles cujas obras versavam sobre temas mundanos e os engessamentos ético e estético eram tônicas dominantes. Em outras palavras, a poesia brasileira, reforçando a sina do nativo, começava a rimar “amor” com “dor” ou, se quisermos, “solstício” com “auspício”, enquanto Mallarmé fragmentava a sintaxe em seu “Un coup de dés” (1897). Em verdade, o Brasil inteiro era uma província. 

Talvez seja o momento de olhar para o Simbolismo como primeiro momento de ruptura interna com um status quo que praticava patrulha estética. Se os versos de Bilac eram a bula do bom poeta, aos vates isolados nas barbas provincianas da nação coube a rebelião. Augusto dos Anjos (1884-1914), desde a Paraíba; Maranhão Sobrinho (1879-1915), nascido na longínqua Barra do Corda (MA); Zeferino Brasil (1870-1942), do extremo Sul; ou Pedro Kilkerry (1885-1917), simbolista baiano, filho de um irlandês e uma mestiça alforriada.  

O Simbolismo brasileiro é um movimento alternativo à predominância do Parnasianismo (do qual, na França, ninguém mais se lembrava). Da seara simbolista, talvez Alphonsus de Guimaraens (1870-1921) tenha sido o mais laureado. Ainda em vida, viu-se reconhecido largamente. Outros não tiveram a mesma sorte. Augusto dos Anjos, hoje uma unanimidade na poesia nacional, faleceu prematuramente e os estudiosos de sua obra parecem não ter decidido se os sofrimentos do tísico Augusto deram à luz poemas expressionistas, parnasianos tardios, cientificistas ou, de fato, simbolistas. Há muito pouco, apenas, começaram a surgir estudos inovadores a respeito, provando que Augusto dos Anjos foi um pré-modernista entre os “ismos”. Quanto a Pedro Kilkerry, sua memória amargou mais de cinquenta anos de esquecimento, até a revisão de sua obra levada a termo pelo poeta concreto Augusto de Campos. Também, por obra de outro poeta contemporâneo, Claudio Willer, hoje podemos explorar mais a faceta mística dos simbolistas brasileiros. Ao menos, não foram precisos os mais de cem anos que alijariam Joaquim de Sousândrade (1833-1902), autor de O Guesa Errante (1858-1888), de uma geração inteira das novas vanguardas. 

II. 

“Uma certa e mal interpretada consciência da inferioridade do meio leva os semicultos da província a se armarem da dúvida e ironia contra individualidades que os frequentadores, convictos, por falso princípio, que notabilidade não se resignariam a residir num pobre centro secundário do país. Sem legítimos órgãos de julgamento cultural, não avaliam suficientemente das forças intelectuais que lhes são próximas, em sua justa medida. Na província, ou o poeta é grande ou é medíocre”. 

A esta altura dos estudos das artes não cabe mais examinar o objeto de estudo somente pela lente das fontes ancestrais, no entanto. Embora a fortuna crítica seja sempre uma das bases do pensamento analítico, há que ter o brio e a ousadia para contrapor-se ao cânon, ou não haveria sentido na redescoberta de mentes ignoradas em seu tempo. Chega a ser irônico que um grande artífice tenha sua obra reconhecida somente depois de sua partida, como manda o clichê. Na poesia, via de regra é o que ocorre. Mas, isso só é possível quando os próprios herdeiros de determinado período não se colocam frontalmente contra o passado, como vimos em Dalton Trevisan. 

Chegamos a 2021, passamos por uma convulsão desgovernada, de ordem global, que não tem prazo para terminar. Enquanto mudam nossos paradigmas das práxis comezinhas, mudam também nossas impressões críticas. Portanto, é hora de nos independermos dos críticos do passado, agradecendo-lhes as aberturas das trilhas do pensamento rigoroso para que tentemos isolar o fato histórico e relê-lo em perspectiva tendo em vista sua gênese e ecossistema, porém seguros de que novas interpretações são boas e bem-vindas enquanto revolvem tantas convicções, enquanto revolvem a própria condição do ser sobre a Terra. 

*** 

O poeta Emiliano Perneta nasceu numa família de comerciantes, formou-se advogado em São Paulo, foi abolicionista e republicano de primeira ordem, dirigiu revistas e jornais literários tanto em sua terra quanto em São Paulo e no Rio de Janeiro. Além de literato, foi um jurista respeitado e também professor. Em 1911, fez parar todo o centro da capital paranaense quando recebeu o título de Príncipe dos Poetas do Paraná, numa cerimônia pública que contava com cenários e adereços especialmente pensados para a ocasião. Um de seus irmãos, Júlio, também enveredou para a poesia, demonstrando igual perícia.  

Para compreender, ainda que de maneira panorâmica as contradições que permeiam a biografia e o ofício de Perneta, é preciso olhar com atenção a alguns aspectos históricos gerais que formavam o estado de coisas no Brasil daqueles tempos. 

Entre meados do século 19 e início do século 20, a província do Paraná se apresentava como exemplo a não ser seguido pela metrópole. Pelo contrário, deveria ser combatido. A Revolução Federalista que se iniciou no Rio Grande do Sul rapidamente se espraiou em desastre para Santa Catarina e chegou ao topo da região Sul, garantindo derrame de sangue, fome e revanchismo da metrópole. Após a proclamação da República, o Paraná nada podia fazer para redimir sua história. Mesmo tão próxima da província de São Paulo, a elite intelectual paranaense ainda era desmerecida na União. São Paulo, até o início dos anos 1920, nada mais era que um entreposto que ligava os negócios do Sul às províncias do Norte e à capital. Antes de se tornar a famigerada “locomotiva do país”, São Paulo podia se gabar somente pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco e pelas vastas plantações de café que se acumulavam no interior do estado. Portanto, os paulistas também não poderiam ajudar muito no sentido de fazerem a ponte entre o arrabalde e o centro. 

Por seu turno, o tal centro, a capital do país, tinha um certo Olavo Bilac (1865-1918) e não se importunava muito com eventuais movimentos literários advindos de outros polos. Esta é, mais ou menos, a ideia defendida pelo crítico Andrade Muricy (1895-1984), conterrâneo de Perneta e profundo estudioso de sua obra desde os anos 1910. Muricy chegou a trabalhar com Perneta e foi o único a apontar seus devidos predicados enquanto o poeta era vivo. 

Profundo desbravador do simbolismo bastardo brasileiro, Muricy empreendeu um trabalho de aguçada observação evolutiva da obra de Perneta. Concluiu que ele, uma figura de aspecto aristocrático e sempre efusivo quando o assunto era a literatura tornou-se logo obsoleto ao leitor provinciano antes mesmo de ser notado e respeitado pela metrópole, graças à penetração de autores mais “dinâmicos”, segundo o julgo dos estetas da época. Mesmo que Perneta tenha perambulado por São Paulo e Rio de Janeiro, tenha liderado publicações seminais ao movimento simbolista, como a revista Victrix (1902) e publicado trabalhos nas revistas de seus pares, como Azul Cenáculo, sua escolha por viver na periferia do país de então custou-lhe uma cadeira no salão nobre dos vates nacionais. É, no mínimo, triste, se considerarmos o apreço que teve pela sua terra natal, cantada num poema de 1904, já em sua maturidade, enquanto olhava para o mundo e titubeava em emoções controversas sobre o seu próprio chão. 

Muitos irão dizer que o Simbolismo brasileiro foi apenas uma sombra no decurso histórico da prosa realista e dos versos parnasianos até que surgisse uma geração disposta a encurtar o atraso modernista do país. Quando a vanguarda chega ao Brasil, em 1922, após a Semana de Arte Moderna, as ideias de iconoclastia são ingênuas. Algumas são fúteis e denotam uma má compreensão do que as rupturas europeias realmente propagavam. Como explicar um movimento modernista aos moldes europeus que, ao menos em São Paulo, foi financiado justamente pela elite? Longe de desmerecer a força da geração de Mário de Andrade, Guilherme de Almeida, Manuel Bandeira ou Oswald de Andrade, mas fato é que, uma vez devidamente consolidado, o Modernismo atropelou o resquício da verve parnasiana, que respirava por aparelhos já havia muito, e nem notou o Simbolismo isolado em seu canto. Aliás, no Paraná sim, o Simbolismo foi notado pela geração modernista, mas… 

III. 

“Emiliano foi vítima da província na vida e na morte. Em vida, a província não permitiu que ele fosse o grande poeta que podia ser, e, na morte, o cultua como sendo o poeta que nunca foi”. 

Como crítico, vejo muito e, sinceramente não compreendo, o que leva um colega a desmerecer de forma tão displicente alguém que lhe abriu caminhos para seu próprio trabalho na arte da escrita criativa. Aliás, entendo sim. Matar o pai – como já mencionei antes – é um recurso psíquico que age em todos nós para que possamos desenvolver nossa individualidade de acordo com nossas próprias articulações. Em qualquer movimento artístico, até recentemente, o modelo operado dizia respeito ao desmerecimento daqueles que antes vieram, para que um “novo” pudesse ser implementado. Por que não assimilar tudo o que veio antes e, somente depois, depurar a massa de informação ao relê-la à luz de novos tempos? 

Dalton Trevisan chamou à obra de Perneta “poemas de casinha de bonecas”, disse que seus versos eram enfadonhos e garantiu que a admiração que conquistou de Andrade Muricy e demais amigos se devia exclusivamente ao seu carisma pessoal, jamais à sua obra. Esta abordagem reativa e protecionista era recorrente, precisamos ter sempre isso à vista. Outros poetas das décadas seguintes se valeram de achaques similares para legitimarem suas “nouvelles vagues”. 

Houve quem discordasse de Trevisan. Para Tasso da Silveira, enquanto examina a exaltação da natureza e a luz imanente ao dom da existência sobre toda a Terra, não importando o local de onde partiram os pés sedentos por explorar cada quinhão do mundo,  vê-se, pois, que a ânsia de fuga dos poetas não exprime nenhuma nota de instabilidade ou fragilidade, como uma análise de superfície faria supor. Pelo contrário, nasce da economia mesma do ser espiritual, representa o jogo do dinamismo da transcendência do homem que nos fundamentos básicos é um simples ser natural, mas cuja destinação é superar essa natureza para fazer-se deus7

Emiliano foi chamado de anacrônico patético até mesmo em seu engajamento político, quando Trevisan faz troça de seu discurso inflamado em favor da República, em São Paulo, na tarde de 15 de novembro de 1889, ainda desconhecendo que, naquela mesma manhã, a República já estava posta. Seu desprezo pelo simbolista e sua leitura azeitada dos versos que considerava simplórios enfeitiçaram os críticos futuros. Embora Andrade Muricy tenha vivido o bastante para adentrar mais profundamente a história do movimento, a memória de Emiliano Perneta foi hibernar no Panorama do movimento simbolista brasileiro8. No entanto, conheci Perneta pela obra Do encantamento à apostasia, antologia crítica da poesia brasileira entre 1880 e 1919, organizada por Fernando Cerisara Gil. Mesmo sendo um profundíssimo admirador da obra pungente de Augusto dos Anjos, creio que o Simbolismo brasileiro não estaria completo sem o poema “Canção do Diabo”, do vate paranaense. 

*** 

Consigo imaginar um atormentado Perneta, recluso em seu estúdio, na virada de um século revolucionário, contraditório e cruel, lembrando-se dos versos iniciais de Poe: “Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary, / Over many a quaint and curious volume of forgotten lore”, enquanto sente dentro de seu mais profundo si o amor, a compaixão e a empatia derreteram e escorrerem por entre os dedos retesados de ira e decepção. Perneta se recorda, também, do velho ancião que deu sua própria alma a um diabo sedutor em troca dos louros tão reluzentes quanto os de Nero. 

Rabiscou os primeiros três quartetos e seguiu assim, metrificando-os em versos de oito sílabas. Que apodreça a velha redondilha maior. Verso a verso, Emiliano Perneta evocou Satã e vendeu sua alma castigada ao verdadeiro senhor da matéria. 

O poema “Canção do Diabo”, o mais esmerado entre todos que compõem Ilusão, por sua vez a melhor e mais madura obra Emiliano Perneta, é um ponto de virada e de reinvenção em sua poética. É seu poema mais simbolista e o mais simbolista entre os poemas escritos dentro do movimento. Nele, Perneta sintetiza melhor que qualquer de seus colegas o voo mágico que o rejuvenescido Fausto testemunharia sobre a longa capa de Mefistófeles na mais bela cena que o cinema alemão já nos legou, em Faust (1926), de Murnau. No poema, está a solidão de um amor traído, os arrependimentos por decisões tomadas e/ou não tomadas. Ali estão a vontade de potência e a pulsão de morte, esgrimindo sobre a paupérrima alma de um visionário louco. Um poeta que está duelando com sua própria imagem diante de um espelho, escondido na penumbra de uma vela luzindo tímida no frio aposento. 

Eis que não o Corvo, mas Satã “em pessoa” invade os umbrais de Emiliano e seduz o poeta desprezado por críticos e rameiras. De sorte que não lhe resta alternativa, mas se tornar irmão do verdadeiro Criador da matéria e da vaidade; da vingança e da ambição; o verdadeiro Pai Eterno dos poetas malditos. Se o satanismo está presente em grande medida nos versos simbolistas de tantos poetas, sabemos, ou imaginamos saber a razão. Das trevas brota a erva daninha da real prosódia da alma. É do lado oculto do espelho que sorri na escuridão o melhor lado do artista. O leitor é quem terá de acertar contas com sua treva a partir de uma treva emulada na poética de outrem. Nem Bilac estava preparado para isso! 

Emiliano Perneta é um poeta que anda na corda bamba sem uma vara para se equilibrar. Sua poesia titubeia entre vontades. Vontade de amar, vontade de sofrer pelo amor, vontade de acreditar na humanidade, vontade de crer em Deus e em toda sua criação. Mas, o eu-lírico de Perneta não se deixa empolgar. É um eu-lírico que está na província, encoleirado e feérico. 

IV. 

A reunião de poemas que ora lhes apresento é fruto de um também poeta que se formou nos versos a partir dos autores simbolistas brasileiros e franceses. Mesmo um tanto subjetiva, não abandona a intenção de ser abrangente, para dar a você que lê uma amostra consistente e diversa da elasticidade estética de Emiliano Perneta e para içar a memória do poeta do foço da História. 

Na treva da província – poemas escolhidos de Emiliano Perneta. Kotter Editorial, 2021.

Antes de apresentar-lhes a lógica desta seleta, preciso reconhecer o hercúleo estudo que empreendeu Ivan Justen Santana em sua tese Emiliano Perneta: vida e poesia de província?. O trabalho, defendido na Universidade Federal do Paraná, em 2015, é composto de uma apuradíssima leitura da vida e da obra do poeta e de uma reunião completa, composta dos livros Músicas (1888), Ilusão (1911), Pena de Talião (1914) e Setembro (1934), publicado postumamente, além de poemas esparsos que figuraram em diversos periódicos. 

Para compor esta antologia, utilizei o estabelecimento de texto e a atualização ortográfica de Justen. Optei por não incluir, aqui, fragmentos de Pena de Talião, já que se trata de uma peça teatral em versos e não agregaria aos neófitos fragmentá-la em favor da amostragem. Pena de Talião deve ser lida em sua totalidade. Não é difícil encontrá-la, já que o trabalho de Justen se encontra disponível no acervo digital de dissertações e teses da UFPR. 

Ao invés de propor uma organização convencional, cronológica, preferi separar os poemas de maneira que um possa dialogar com o outro, independente de quando o poeta os escreveu ou em qual livro os publicou. Mais importante que seguir a evolução natural de seu ofício com as palavras, é compreender a profundidade de suas ideias e reconhecer a espinha dorsal de sua poética, que perpassa três escolas literárias de maneira tão marcada e dinâmica, sendo possível observar traços de cada uma dessas escolas – romantismo, parnasianismo e simbolismo – muitas vezes num só poema ou em grupos específicos de poemas que, escritos em datas distantes umas das outras, ainda assim conservam a mesma gênese estilística. 

Seguindo a lógica fáustica sugerida em “Canção do Diabo”, e atento aos universos mais visitados por Emiliano, propus as seguintes seções: 

Dr. Fausto. Aqui se encontra a vértebra da poesia de Perneta que alude aos desejos não concretizados. Como num filme de Buñuel, o eu-lírico oscila entre o querer e os impedimentos. A vontade do amor e do sexo e a recusa por parte do ser amado. À parte as idealizações características do romantismo, a visceral revolta contra o tempo, a natureza e as desditas do universo telúrico empurram o poeta para o excesso de noites regadas a vinho e depravação. Em seus delírios, o Dr. Fausto de Emiliano Perneta visita impérios, conhece reis e vislumbra cortesãs que se transmutam em seres demoníacos. De volta à sina da consciência, o peso do mundo em sua espalda faz esse eu-lírico repensar valores morais e, sobretudo, religiosos. 

Mefistófeles. Flanando sua mente flagelada entre os domínios das bruxas e dos Templários; de Deus e de Lúcifer; o poeta vê fantasmas terríveis, a blasfêmia beijando-lhe sôfrega. Um Deus jocoso, irascível, injusto; um Diabo generoso, empático e promissor. Enquanto auscultado em rogativas de dor e de redenção, o Dr. Fausto não tem mais dúvida: passará, qual um rolo compressor, por sobre os ossos corroídos por larvas ancestrais, gozando a sina de um anjo revel, ao lado de seu irmão, Satã. 

Ânsias; fluxos; refluxos;. Disse Andrade Muricy (Op. cit, p. 30) de seu mestre e amigo: “Urgia abandonar os temas clássicos, os ‘motivos’ hindus ou helênicos; arrancar do limbo dos fenômenos interiores, os fluxos e refluxos d’alma, as angústias, as paixões desmandadas”. A compleição sólida de um simbolismo fenomenológico se apresenta após o poeta revolver toda a mística espiritual do ser e voltar-se para seu meio, buscando uma ontologia da mazela desde os versos que dedica a uma criança recém-nascida, lamentando o que o pequeno ser de beleza ilibada irá conhecer na inexorabilidade do decurso temporal, até o lamento do filho que chora a ausência eterna da mãe para lhe proteger nesta “comédia burlesca da existência”. No último segmento da seleta de poemas é a filosofia que insurge pelo olhar de um eu-lírico niilista. Um eu-lírico que conhece a incoerência do existir e volta-se convicto à arte, como forma de ascese. 

Emiliano Perneta também construiu reputação na prosa. Publicou o panfleto republicano Carta à Condessa d’Eu (1889), o conto O inimigo (1889), Alegoria (1903) um ensaio simbolista metalinguístico e os libretos das óperas Papilio Innocentia (1913) e A vovozinha (1917). 

Esta seleta que em breve sairá pela Kotter Editorial é um convite a leitores, poetas e estudiosos da poesia para que redescubram uma figura tão marcante do simbolismo brasileiro, de olhar plural e sofisticado. Ainda que ofuscado dentro dos estudos literários, uma vez visto de perto, com a devida lupa, prova-se indispensável ao conhecimento de tudo que a cultura nacional produziu com a pena da invenção. 

Serviço:

Na treva na província – Poemas escolhidos de Emiliano Perneta. Seleção, organização e notas de Donny Correia.

Kotter Editorial, 2021,

*Donny Correia poeta, crítico e ensaísta, graduado em Letras pelo Centro Universitário Ibero-americano, mestre e doutor em Estética e História da Arte e professor de Linguagem, Estética e História da Arte e do Cinema. Por quinze anos, coordenou as atividades culturais dos museus literários Casa das Rosas e Casa Guilherme de Almeida, em São Paulo. Publicou os livros de poesia O eco do espelho (2005), Balletmanco (2009), Corpocárcere (2013) e Zero nas veias (2015), além de organizar, junto com Marcelo Tápia, a antologia de críticas cinematográficas do poeta Guilherme de Almeida, Cinematographos (2016). Seu livro mais recente é Cinefilia crônica, comentários sobre o filme de invenção (2019), composto de ensaios sobre a história do cinema. É membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) e da Associação Brasileira dos Críticos de Arte (ABCA).  

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