LEITURAS XENÓLOGAS | Frankenstein ou O Prometeu Moderno I: Uma Crítica Romântica ao Romantismo

A partir de uma exegese clara e pluralista, Ingrid Jakubiak faz um interessante panorama a respeito da célebre obra de Mary Shelley, Frankenstein. Utilizando de uma bibliografia ampla e ao mesmo tempo precisa, somos convidados a conhecer uma interpretação menos convencional sobre o livro pioneiro da ficção científica.           

      Frankenstein ou O Prometeu Moderno é popularmente conhecido como a obra que fundou o gênero de ficção científica na literatura. Tendo passado por várias releituras ao longo do tempo, qualquer um que consome cultura pop já passou por diversos filmes, personagens ou representações da história. Mas creio que quem conhece Frankenstein por meio das mídias ainda pode se surpreender com a obra original publicada por Mary Shelley e reeditada em 1831, muito mais ampla que o laboratório onde o cientista ultrapassa os limites da vida e da morte.

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Harry Treadaway como Victor Frankenstein no seriado Penny Dreadful

            O estudo a seguir está dividido em duas partes que serão publicadas separadamente. Frankenstein ou o Prometeu moderno foi publicado pela primeira vez em 1818 e revisado em 1831, e a versão que utilizamos aqui é a segunda, na qual encontramos algumas diferenças bastante significativas em relação à primeira e que serão abordadas ao longo da discussão. Analisando estas divergências por meio da bibliografia e da interpretação que foi feita na leitura da obra, entretanto, consideramos que a maior parte da essência do livro está presente em ambas as versões, mas já é interessante dizer de antemão que a edição de 1818 é bem mais incisiva na culpa de Victor enquanto a de 1831 cria uma espécie de redenção no personagem, que reconhece seus erros e tenta repará-los. Isso porque o romance reflete em muito a própria vida de Mary Shelley, que quando da segunda edição havia ficado viúva de seu marido e grande inspiração para Victor Frankenstein.

            Mary Wollstonecraft Godwin nasceu em 1797, filha da filósofa feminista Mary Wollstonecraft e do poeta William Godwin. Grande admiradora do ilustre poeta romântico Percy Shelley, a autora apaixonou-se por ele, que era casado, mas os dois acabaram fugindo para ficarem juntos. Mary (agora não mais Godwin, mas Shelley) vivia cercada de escritores e pessoas de posições significativas da sociedade inglesa do início do século 19, como poetas, escritores, funcionários do Império Inglês para assuntos coloniais. Estes elementos tiveram um impacto bastante claro em Frankenstein, pois percebemos como a sociedade burguesa ocidental do início do século 19, especialmente naquilo que desagradava Mary Shelley, está incorporada no personagem de Victor Frankenstein. Neste primeiro momento, discutiremos dois aspectos deste contexto: a visão de ciência do período e a inserção da obra na visão de mundo do romantismo.

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            Frankenstein não trata somente de ciência. Todavia, o romance é de fato muito baseado nas tendências e descobertas científicas da transição do século 18 para o 19 e é também muito crítico da forma como elas estavam sendo conduzidas. Antes de mais nada, a própria forma como a natureza era vista pelos homens científicos herdeiros do Iluminismo como uma figura feminina passiva a ser penetrada, explorada e controlada por eles era um primeiro fator que tornava o cientificismo do século 19 perigoso. Esta percepção pode nos parecer estranha, porém, ela fica mais clara ao considerarmos que Mary Shelley se baseia em autores principalmente britânicos para formular sua percepção científica e que talvez ela tenha notado a peculiaridade de eles se referirem à natureza como she (ela) e não como it (artigo de gênero neutro), como seria mais comum na língua inglesa. Além disso, estamos falando de uma época em que os homens (representados por Victor Frankenstein) viam a natureza como algo à parte (de certa forma, “o Outro”), separado da humanidade com o intuito de servi-la, e, portanto, a natureza acabava sendo nada mais que uma mulher passiva cuja única função é satisfazer os desejos masculinos. Curiosamente, esta dama supostamente passiva inflige intensa vingança contra Victor por ele tentar ultrapassar os limites entre a vida e a morte, sempre deixando-o muito doente quando trabalha em sua criação.

            A crítica de Mary Shelley é, portanto, a consequência desta visão de mundo: o impacto que isso tem nos métodos científicos, que tentam controlar e até mesmo modificar a natureza, sendo esta última ação precisamente o pecado de Victor – primeiro ao ultrapassar os limites da vida, mas também por se atrever a gerar uma vida de maneira assexuada e sem amor parental. Mary acreditava em uma ciência que compreende a natureza, apreende suas leis e explicações, mas que não se aventura a transformá-la. Logo, a crítica não é à ciência em si; é especificamente ao cientificismo oitocentista que ela via crescendo de maneira perigosa, fomentada inclusive por pessoas próximas, como seu marido Percy e seu amigo Lorde Byron.

            Há também uma crítica à afirmação de objetividade e racionalidade desta ciência. Como pode existir neutralidade se a ciência é vista como Victor Frankenstein a vê, um instrumento de poder e de dominação sobre a natureza? Além disso, a banalidade com que o cientista trata seu experimento e sua falta de ética em sua execução e suas consequências também é um ponto de crítica da autora. É interessante notar que, embora Victor se baseie nas ambições antigas dos alquimistas e de teorias ultrapassadas que procuravam elixires da vida e controle sobre a vida e a morte, a “nova” ciência também detinha valores de poder. Algumas dessas características seriam, não muito tempo depois da publicação de Frankenstein, vistas muito claramente no positivismo de Auguste Comte: racionalidade, objetividade, neutralidade, controle sobre a natureza e eurocentrismo.

            Se Victor é um símbolo do cientificismo de seu tempo (Percy, inclusive, se interessava muito pela ciência, inclusive pela eletricidade), ele é mais ainda um símbolo do romantismo, um romantismo revolucionário[1], porém passivo no que diz respeito às consequências de suas transgressões. Mary Shelley identificava isso em Percy e Byron, os quais se prendiam a escrever de maneira “transgressora”, mas ignoravam como seu isolamento destruía suas relações interpessoais. No caso de Percy, houve negligência com Mary e os bebês que ela perdeu – levando à metáfora de Frankenstein perante a Criatura, o pai/progenitor que põe uma vida no mundo e não sabe como criá-la ou a execra. A característica prometeica que Victor toma de Percy e Byron é, no entanto, ambicionar o controle sobre a natureza e o princípio da vida, incitando a fúria de algo maior – que no caso de Victor é a natureza. Além dele, seu amigo Henry Clerval e o marinheiro Robert Walton também teriam enfrentado uma autoridade – no caso, seus pais – em nome de um sonho, que no caso de ambos tem relação com o Oriente (veremos, na segunda parte, por que isso é importante).

            Para Mary, o sonho idealista de um mundo melhor cultivado pelos poetas românticos não poderia funcionar. Ela negava a fusão dos opostos que eles imaginavam, pois eles ignorariam as consequências, a progênie desta fusão. Isso também tem relação com como ela construiu a principal oposição a Victor, a própria Criatura.

            A Criatura faz oposição ao criador a partir do momento em que lhe é negada a aceitação pela sociedade. Há uma série de interpretações sobre o seu significado, como a metáfora do pai que não cuida do filho que já mencionamos, e elas não necessariamente são excludentes, se não complementares.

            imagem 2 monster-3739319_960_720Uma leitura possível é a da Criatura representar o homem natural de Rousseau. Ao “nascer”, ele é inocente e não conhece os males do mundo. Durante sua jornada para explorar a natureza, conhece a felicidade por meio das pequenas coisas, como a beleza das paisagens, as sensações como o calor, matar a fome e o prazer do canto dos pássaros. Ele vai conhecendo a maldade a partir do momento em que toma contato com os seres humanos, que o consideram um monstro, e a racionalidade. O primeiro embate posto aqui, portanto, seria o de que a Criatura é o romantismo em oposição ao cientificismo. Ainda que Mary Shelley seja crítica do romantismo dos poetas, se partirmos do princípio de que a Criatura é o homem natural de Rousseau, podemos considerar que há uma nostalgia em relação à não intervenção do homem nas leis naturais. Todavia, esta interpretação não satisfaz totalmente autores como Anne Mellor, que buscará em outras fontes o significado da Criatura.

            Partindo de algumas anotações de Mary Shelley, Mellor sugere que a Criatura representa a Revolução Francesa ou ao menos a rebelião na qual ela se pautou. Mary não era ela mesma uma revolucionária; socialmente, era conservadora, favorável à hierarquia social e ao “consenso” e muito apegada à configuração da família burguesa. Se a família ia bem, a nação ia bem. A Criatura nasceu, cresceu, não recebeu os devidos cuidados – carinho e autoridade – e se tornou um assassino. A Revolução nasceu, não teve os devidos diálogos, negociações e concessões e se tornou uma ditadura tirânica. Revolução Francesa seria, então, fruto de uma família onde não havia consenso nem diálogo.

            Um dos argumentos para que o homem natural de Rousseau seja uma base, mas não seja o significado da Criatura, é o fato de a obra deixar sua natureza em aberto. Ao final, não temos nenhuma confirmação de que Victor estivesse contando a verdade sobre o “monstro” que criou ou se a versão real fosse a contada pela própria Criatura, que mesmo sendo um ser artificial, é dotada de natureza humana. Como para Rousseau o homem natural é essencialmente bom, só poderíamos considerar que este é o significado da Criatura se interpretássemos que a Criatura é boa e representasse a boa natureza humana rousseauniana.

            Vale frisar que, embora Mary Shelley fosse conservadora socialmente e não gostasse de radicalismos, ela herdou algumas ideias de sua mãe quanto ao papel da mulher na sociedade. Dentro da família, marido/pai e mulher/mãe possuem a mesma autoridade sobre os filhos e o mesmo poder de decisão. Ela também era a favor da participação feminina na política. Como veremos na segunda parte, na visão da obra sobre o “outro”, Mary Shelley tinha outros posicionamentos complexos e muitas vezes dúbios a respeito dos mais variados temas.

            Embora Frankenstein ou Prometeu Moderno seja uma crítica ao romantismo “revolucionário” dos poetas com quem Mary Shelley convivia, nem por isso a obra deixa de ser romântica. Ela é uma crítica romântica à ideologia romântica dos poetas que Mary Shelley conhecia, incluindo seu próprio marido, transportado para as páginas sob a figura de Victor Frankenstein. Trata-se de uma crítica feminista, burguesa, científica e política, e sua nostalgia se encontra em um tempo remoto não necessariamente histórico. E como consideramos, a partir da leitura da obra e da bibliografia, que a natureza da Criatura é boa, podemos concluir que este passado é o tempo do homem natural de Rousseau. Desta forma, pensamos que o romantismo de Mary Shelley é conservador, na medida em que ela é adepta dos valores burgueses e que ela se identifica com as ideias do conservador Edmund Burke. Ela ainda apresenta alguns elementos progressistas, como sua confiança na igualdade entre os gêneros, e talvez poderíamos incluí-la em parte em um romantismo reformador, pensando, por fim, que ela caminha entre estes dois tipos ideais românticos.

Por ser romântica, não necessariamente consideramos que Mary Shelley seja uma pessimista do progresso. Ela apresenta algumas nostalgias do passado (mesmo que do não-histórico), porém, alguns de seus posicionamentos conservadores dizem respeito a aspectos de seu presente. Pela leitura que fazemos da autora, interpretamos que ela acreditasse que, embora o passado possa ter sido muito melhor, ainda há esperanças no presente que possam levar ao progresso da humanidade, sendo sua crítica às práticas que seus contemporâneos criam ser os meios de atingir o progresso.

Por fim, embasando-se em uma quantidade impressionante de escritores, cientistas, filósofos gregos e romanos, poetas e poemas, livros, mitos, trabalhos científicos, acontecimentos políticos e também de sua própria vida, Mary Shelley fundamentou sua obra de maneira muito rígida, porque sua intenção não era apenas contar uma história de terror, mas sim explicitar suas angústias e suas opiniões sobre o mundo moderno, presenteando-nos com uma riquíssima crítica que permanece atual quase duzentos anos após sua primeira publicação.

REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS

  • COMTE, Auguste. “A filosofia positiva e o estudo da sociedade”; “Política e Sociedade”. In GARDINER, Patrick. Teorias da História. Lisboa: Fund. Calouste Gulbenkian, 1969.
  • LEW, Joseph W. The Deceptive Other: Mary Shelley’s Critique of Orientalism in “Frankenstein” In Studies in Romanticism. Boston: Boston University. Vol. 30, No. 2 (Summer, 1991).
  • LÖWY, Michael; SAYRE, Robert. “Diversidade Política e Social do Romantismo” In Revolta e Melancolia: o romantismo na contracorrente da modernidade. São Paulo: Boitempo, 2015.
  • MELLOR, Anne K. “A feminist critique of science”, In One Culture: Essays in Science and Literature. LEVINE, George; RAUCH, Alan (Orgs). Madison: University of Wisconsin Press, 1987.
  • MELLOR, Anne K. Mary Shelley: Her Life, Her Fiction, Her Monsters. New York: Routledge, 1989.
  • O’ROURKE, James. “The 1831 Introduction and Revisions to “Frankenstein”: Mary Shelley Dictates Her Legacy” In Studies in Romanticism, Vol. 38, No. 3 (Fall, 1999).
  • PINYERD, Terri. “The Other: Orientalism in Frankenstein” In Hohonu. Harvard University, 2016. Vol 14.
  • ROUSSEAU, Jean-Jacques (1754). Discurso sobre as origens e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
  • SAID, Edward. “Territórios Sobrepostos, Histórias Entrelaçadas” In Cultura e Imperialismo. SP: Cia das Letras, 1995.
  • SHELLEY, Mary Wollstonecraft (1831). Frankenstein ou o Prometeu Moderno. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2017.

[1] Este não é o tipo ideal de romantismo revolucionário da referência principal que estamos usando aqui de romantismo, que são Michel Löwy e Robert Sayre, ainda que seja possível aproximar a definição. Neste caso em particular, partimos da descrição do poeta romântico oferecida por Anne Mellor no capítulo “Promethean Politics”.

perfilIngrid Requi Jakubiak é historiadora, formada Bacharela e Licenciada em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Autora do blog Smoka Fábrica, no qual escreve sobre história, literatura, educação, sociedade e diversos assuntos das humanidades. Seus trabalhos acadêmicos mais recentes discutem aspectos da civilização muçulmana medieval e materiais resultantes de suas pesquisas também têm sido divulgados no blog. Possui grande interesse em um conhecimento integrado e interdisciplinar.

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