LEITURAS XENÓLOGAS | Frankenstein ou O Prometeu Moderno II: A Visão do Outro

 

            Frankenstein ou o Prometeu Moderno é essencialmente um livro sobre o outro. A Criatura de Victor Frankenstein é o “Outro” por excelência, pois é diferente de toda e qualquer coisa existente no mundo. Há também outras formas de “Outro” na obra prima de Mary Shelley: a natureza, como vimos na primeira parte desta análise, o estrangeiro e as mulheres, que não foram abordadas nesta discussão. Dando continuidade à nossa reflexão sobre Frankenstein, então, nesta segunda parte examinaremos estas perspectivas do Outro apresentadas no livro.

            É possível enxergar a Criatura como o Outro de várias formas. Podemos pensá-la como o ser romântico que não consegue se integrar na sociedade por ter valores diferentes, o que nos aproxima da interpretação do homem natural de Rousseau; mas também podemos pensar em outras tendências da época de Mary Shelley que aparecem na figura da Criatura. Uma delas é a teoria de John Caspar Lavater de que a alma ou o caráter da pessoa se manifestava em sua aparência. Essa propensão, ainda não que não expressa explicitamente na obra, parece estar presente em todos os personagens, com exceção do Pai DeLacey, que é cego.

            Além disso, há uma questão bastante importante que Anne Mellor chama a atenção e que nos leva de volta ao Romantismo: a tendência humana de pensar o outro, o diferente, o desconhecido, como essencialmente mau. A criatura assusta por sua aparência e por sua imponência, associada ao sublime, algo (geralmente associado à natureza) que é mais poderoso que o homem e tem capacidade de destruí-lo. A percepção que o homem tem do mundo natural é definida por meio de uma linguagem própria do homem – e, portanto, cria ideologias, como a hostilidade ao Outro. Em outras palavras, a criatura se torna má porque o resto das pessoas ao seu redor a criam como má:

“Como o romance de Mary Shelley ilustra, este processo linguístico de dar nomes e criar imagens se torna um discurso de poder que resulta na dominação da ideologia de uma classe dominante e leva diretamente à criação do mal. Por verem a fisionomia da criatura consistentemente como má, os personagens do romance o forçam a se tornar mau. Qualquer que seja sua natureza inata, a criatura se torna um monstro porque ele, como Polifemo antes dele, teve negado o acesso a uma comunidade humana, ao cuidado parental, companhia, amor. Sua fúria violenta e assassinatos malignos – de William, Justine, Clerval, Elizabeth e, finalmente, como consequência, de Alphonse e Victor Frankenstein – são o  resultado de uma construção semiótica humanamente engendrada  da criatura como assustadora e horrível. Mary Shelley admiravelmente nos mostra que quando vemos a natureza como má, nós a tornamos má” [Mellor, 1989, p.134]

            De tanto forçar a natureza maligna na Criatura, o próprio Victor, enfim, acabou se tornando maligno, de modo que os dois personagens acabam se fundindo até tornarem-se um só: ao final, ambos estão ávidos por vingança, consumidos pelo ódio, perseguindo um ao outro em uma caçada interminável. Esta visão dá sentido à noção popular de que Frankenstein é o nome da criatura, e que isso não seria uma mera confusão.

            A percepção que Victor tem da criatura é uma fusão do caráter pela aparência e da hostilidade ao Outro. Desde o primeiro encontro entre Criador e Criatura fica nítido o julgamento de Victor quanto aos caracteres que mais são aludidos quando se define a raça de uma pessoa: “sua pele amarelada”, “seus cabelos eram de um preto lustroso e ondulante”, “olhos úmidos”, “lábios retilíneos, enegrecidos” [p.75]. Ele jamais considera que sua criação é alguém (ou algo) em que se pode confiar; ele lhe nega a voz e quando a Criatura consegue falar, a visão do interlocutor já está contaminada pelos preconceitos de Victor, que acredita que não existe a possibilidade da criatura ser boa. Podemos ver uma clara semelhança com a forma como o Império Britânico tratou os povos sob seu domínio: negando-lhe o direito de fala e desmoralizando sua voz, uma vez que sua natureza seria inerentemente má ou inferior. O monstro, enfim, se arma em resistência, assim como os povos dominados.

            É gritante também como Frankenstein também ignora a humanidade da Criatura, ela mesma questionadora desta atitude do criador: “Acusa-me de assassinato e, todavia, com consciência tranquila, destruiria a própria criação!” [p.114.]. Victor de fato não se preocupa em destruir algo que ele não entende como humano, e isso fica muito mais claro quando ele destrói a criatura feminina que a original requisitou como compensação por sua solidão. Ao imaginar que ela não poderia ter uma natureza benigna e, mais ainda, imaginar que ela poderia tomar decisões próprias, ter subjetividade – ele a vê como uma ameaça e, acreditando estar salvando a humanidade (podemos ler um discurso imperialista de missionarismo e de levar a civilização aos povos bárbaros aqui, ainda que esta não tenha sido, provavelmente, a intenção de Mary Shelley) – ele a destrói, e ainda no ato de destruição ele reforça a não-humanidade que ela representa: “Senti como se tivesse destroçado a carne viva de um ser humano” [p.177]. Podemos perceber, assim, que Victor vê suas criaturas como não-pensantes, não agregadoras e descartáveis. Meras contingências, como no pensamento hegeliano que legitimou o massacre, por exemplo, dos povos indígenas da América.

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Cena do filme A Noiva de Frankenstein (1935). A Noiva nunca chegou a ser efetivamente trazida à vida na obra original

            No que se refere ao estrangeiro, há nuances entre os posicionamentos que são de Victor Frankenstein e os que são de Mary Shelley. Isso será explicado com mais detalhes mais adiante, porém, o que pode ser adiantado é que ao notarmos estas nuances, percebemos que Mary Shelley é bastante dúbia no que quis respeito a suas visões do estrangeiro.

            A figura mais evidente do estrangeiro em Frankenstein é Safie, a “doce árabe” que chega à casa dos DeLacey. Ela é filha de um comerciante turco que estava de negócios em Paris quando foi acusado de um crime, cuja condenação, segundo a crença popular, se dera não por causa deste crime, mas sim por conta de sua religião e fortuna. Félix DeLacey teria sentido pena do homem e prometera ajudá-lo, e em troca o turco deu-lhe a mão de Safie em casamento. Ela, por sua vez, via no casamento uma oportunidade de fugir da rígida cultura turca, em que ela sentia que as mulheres eram oprimidas. Fruto do casamento de seu pai com uma árabe cristã escravizada, Safie tivera uma educação cristã, que considerava mais livre. Todavia, seu pai descumpriu o acordo com Félix, o que leva os DeLacey à ruína financeira e ao exílio. Somente muito tempo depois é que Safie conseguiria, por fim, retornar aos braços de seu noivo, onde a Criatura observaria sua chegada.

            Safie representa o exotismo oriental – ela é o Outro interessante para Félix, fruto da imaginação oitocentista do “Oriente”. Por outro lado, essa figura é parcialmente desconstruída enquanto ser oriental (islâmico), e logo percebemos que ela é uma mulher que conhece os valores cristãos ocidentais. Aqui, podemos notar tanto uma imagem que provavelmente estava na mente de Mary Shelley, de um mundo cristão mais receptor à liberdade feminina (e, lembremos, estamos falando de uma mulher profundamente influenciada pelo pensamento de sua mãe feminista) e de um Oriente opressor – em especial a religião – que não somente oprime as mulheres, mas também cria traidores (o pai de Safie).

            A ideia do Outro que Félix DeLacey carrega também é relevante. Ele é capaz de aceitar o Outro na medida em que se compadece das mazelas do pai de Safie e se apaixona pela moça (uma figura Outra, porém, não totalmente, por ser cristã); porém, ao se deparar com a Criatura aos pés de seu pai, reage como os outros – enxota-a com violência. Ao ensinar a Safie a língua francesa, Félix faz uso de Ruins of Empires, de Constantin-François Volney, que em trechos fala dos “asiáticos indolentes”. Nesse ponto, Félix ignora, ou corrobora, com a imagem de Safie como uma asiática indolente. É importante notar, também, que a Criatura, que acompanha cada passo dos DeLacey, também é educada indiretamente por meio deste livro e diretamente por meio de outros que também fazem parte de uma visão cultural ocidental de mundo: Paraíso Perdido, de John Milton, Vidas Paralelas, de Plutarco, e Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe. Nelas, ele aprende sobre sentimento, moralidade e a civilização. Portanto, sua educação e sua visão de Safie também é formada a partir da mentalidade orientalista.

            Um ponto curioso do livro de Mary Shelley é sua relação com a colonização, que parece ser bastante seletiva. Na primeira versão de Frankenstein, de 1818, Henry Clerval, o melhor amigo de Frankenstein, é interessado no Oriente e em sua linguagem, mas pretende ser comerciante com seu pai, e é uma face mais humana de seu amigo. Na versão de 1831, que é a que estudamos neste trabalho, os dois já se assemelham em suas ambições de conquista e poder, pois agora Henry ambiciona trabalhar na empresa colonial imperialista britânica na Índia. A maneira como Mary Shelley mostra sutilmente que Henry é uma criatura corrompida tal como Victor deixa clara sua aversão à colonização na Índia. Por outro lado, a autora expressa, por meio de Victor, que se os colonizadores europeus tivessem sido mais moderados e racionais, poderiam ter colonizado a América mais gradualmente e sem destruir as civilizações do continente. Isso é um reflexo da visão de política moderada da autora, comentada na primeira parte da análise, mas também da visão imperialista que ela tinha inconscientemente. Logo, assim como Edward Said aponta sobre Joseph Conrad, Mary Shelley é mais uma autora oitocentista crítica do imperialismo, mas que tem dificuldade de enxergar fora da mentalidade imperialista.

            Há outra adição à versão de 1831 que nos chama atenção para a questão do estrangeiro na obra, que é o trecho mais longo acrescentado. Em 1818, Elizabeth Lavenza era prima de Victor, e em 1831 ela é prima apenas nominalmente, porque ela agora ela é filha de um nobre milanês órfã de mãe e que estava sob os cuidados de uma família pobre na Itália. O que se destaca é que Elizabeth chama a atenção da mãe de Victor justamente por ser distinta de seus irmãos: seus cabelos são do “dourado mais brilhante”, é clara e germânica, enquanto as outras crianças tinham “olhos escuros, verdadeiramente pequenos vagabundos” [p.51]. Segundo O’Rourke, após a morte de Percy, Mary Shelley havia se tornado endurecida, inclusive em seus preconceitos racistas e classistas. E também dificilmente podemos pensar que ela estaria fazendo mero alerta a seus leitores, pois pouco depois da morte do marido, em seu History of a Six Weeks Tour ela teria descrito os genoveses como selvagens (“wild savages”). A conclusão que O’Rourke chega é a de que, sem intenção, ao revelar estes preconceitos, Mary teria reafirmado o lugar de privilégio de Elizabeth e de si mesma, de forma que a mulher branca, loura e de olhos azuis seria tirada da pobreza para retornar ao seu devido lugar na sociedade, a família burguesa. Isso nos leva a outro apontamento do autor:

“As simpatias que induzem o leitor a uma identificação com o destino de Elizabeth Lavenza são as mesmas preferências afetivas que levam à rejeição universal da criatura, pois ele exibe a maior diferença das convenções de aparência que demarcam alguém como um herói ou heroína apropriados, como príncipe ou princesa, em um conto de fadas.” [O’Rourke, 1999, p. 380]

            Em outras palavras, Mary Shelley insere uma contradição em sua segunda versão do romance, pois ela julga o Outro em uma obra em que tenta desmistificar a ideia do diferente como inerentemente mau. Além de fazer uma comparação racista entre Elizabeth e seus meios-irmãos de “olhos escuros”, ela mostra sua compreensão classista do lugar que determinadas pessoas devem ocupar na sociedade (mesmo que reconheça seu lugar de privilégio). Mais uma vez, é possível enxergar a maneira dúbia como Mary Shelley escreve sua obra, ainda que isso aconteça de maneira inconsciente, uma vez que ela está inserida em um contexto histórico e cultural em que as formas de pensar são muito afetadas pelas ideologias de inferiorização do Outro.

            Finalmente, Frankenstein ou o Prometeu Moderno é uma obra profundamente recheada de contradições. Sua autora critica diversos aspectos da sociedade de sua época, como o cientificismo, a utopia dos poetas românticos e a relegação da mulher e da família ao âmbito secundário. Mas ao mesmo tempo ela demonstra muito claramente diversos dos seus preconceitos, derivados de sua época e de sua posição social. Frankenstein é, portanto, uma obra que não nos serve apenas para criar um novo tipo de “monstro”. Ela serve como um instrumento de crítica a uma sociedade e também como documento histórico que nos fornece uma série de possibilidades de compreender o controverso e imperial século 19 europeu.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • COMTE, Auguste. “A filosofia positiva e o estudo da sociedade”; “Política e Sociedade”. In GARDINER, Patrick. Teorias da História. Lisboa: Fund. Calouste Gulbenkian, 1969.
  • LEW, Joseph W. The Deceptive Other: Mary Shelley’s Critique of Orientalism in “Frankenstein” In Studies in Romanticism. Boston: Boston University. Vol. 30, No. 2 (Summer, 1991).
  • LÖWY, Michael; SAYRE, Robert. “Diversidade Política e Social do Romantismo” In Revolta e Melancolia: o romantismo na contracorrente da modernidade. São Paulo: Boitempo, 2015.
  • MELLOR, Anne K. “A feminist critique of science”, In One Culture: Essays in Science and Literature. LEVINE, George; RAUCH, Alan (Orgs). Madison: University of Wisconsin Press, 1987.
  • MELLOR, Anne K. Mary Shelley: Her Life, Her Fiction, Her Monsters. New York: Routledge, 1989.
  • O’ROURKE, James. “The 1831 Introduction and Revisions to “Frankenstein”: Mary Shelley Dictates Her Legacy” In Studies in Romanticism, Vol. 38, No. 3 (Fall, 1999).
  • PINYERD, Terri. “The Other: Orientalism in Frankenstein” In Hohonu. Harvard University, 2016. Vol 14.
  • ROUSSEAU, Jean-Jacques (1754). Discurso sobre as origens e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
  • SAID, Edward. “Territórios Sobrepostos, Histórias Entrelaçadas” In Cultura e Imperialismo. SP: Cia das Letras, 1995.
  • SHELLEY, Mary Wollstonecraft (1831). Frankenstein ou o Prometeu Moderno. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2017.

perfilIngrid Requi Jakubiak é historiadora, formada Bacharela e Licenciada em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Autora do blog Smoka Fábrica, no qual escreve sobre história, literatura, educação, sociedade e diversos assuntos das humanidades. Seus trabalhos acadêmicos mais recentes discutem aspectos da civilização muçulmana medieval e materiais resultantes de suas pesquisas também têm sido divulgados no blog. Possui grande interesse em um conhecimento integrado e interdisciplinar.

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