LEITURAS XENÓLOGAS | Histórias salvam vidas, de Marcella Lopes Guimarães¹

Se tem razão o professor Mamede Mustafá Jarouche, a versão do Livro das mil e uma noites que conhecemos é do fim do século XIII/início do século XIV, época do estado mameluco. Período em que o mundo árabe muçulmano enfrentou desafios inauditos: invasões mongólicas, a destruição de Bagdá e a extinção do califado abássida². Em um mundo que se transformava drasticamente, a contadora Šahrāzād encontra nas histórias a via da sua sobrevivência pessoal, de apaziguamento do gênio de vinganças do sultão – marido e governante de um reino –, e de conquista da paz, paz que era um anseio no reino da ficção e no mundo empírico e histórico de compilação da obra.

Em contexto aproximado, tanto do ponto de vista do tempo, da geografia e do abalo das formas de viver, Giovanni Boccaccio propôs no Decamerão que a fuga da morte (ou de enganar a morte) estaria no compartilhamento de histórias que, como nas Mil e uma noites, estavam longe de serem histórias felizes. Sabemos bem do que fugiam os jovens que se entregaram na ficção à atividade que manteve a vida de Šahrāzād. Os personagens buscaram isolar-se, fugiam da peste, fugiam de uma pandemia…

Da cultura latina à cultura árabe-muçulmana, para ficar com dois exemplos, homens e mulheres da ficção mantiveram suas vidas com histórias. Sim, porque também em Boccaccio, elas contam, elas narram. Eles e elas moram na ficção decerto, mas quem atribuiu importância ao compartilhamento de histórias para esses personagens não morava na ficção e considerou aceitável em cada universo cultural que integrava atribuir às histórias essa relevância toda.

Entre 2020 e 2021, as histórias, espetáculos, filmes – narrativas – nos mantiveram/nos mantêm saudáveis, ou se não nos mantiveram, nós as procuramos para esse fim na nossa tentativa de sobreviver. Participo de um clube do livro. E falamos em crise?! E falamos que não somos um país de leitores! Eu não vim aqui desdizer o que todas as pesquisas bem fundamentadas revelam, nem fortalecer um discurso de que não há o que fazer…, mas lembrar de um hiato e compartilhar experiência.

Vamos ao hiato: geralmente, as crianças se empenham em aprender a ler e, quando aprendem, têm orgulho. São também festejadas! Mesmo em famílias desprovidas de livros, a conquista da leitura é celebrada. Uma criança aprendeu a ler! Geralmente elas demonstram curiosidade em relação aos livros – quer vejam poucos livros e apenas os vejam na escola, quer vejam muitos, pela casa inteira. E antes desse “milagre” já conhecem histórias, mesmo que ninguém as conte na hora de dormir. Escutam pais, tios, irmãos que narram acontecimentos do dia antes do jantar, enquanto lavam louça e varrem casas. Na escola, elas conquistam outras histórias; lendo, realizam uma conquista pessoal, corajosa, imensa!

O que acontece com todo esse entusiasmo que professores e professoras percebem nos primeiros anos da vida escolar? Como nos tornamos – como Estado – o país que celebra a ignorância, o raciocínio estreito, o desrespeito ao saber e à leitura, que se revela nas urnas? Como a gente mata o entusiasmo da criança para plantar a desesperança de uma vida estreita no jovem e no adulto?… O hiato é caso de divã ou de UTI?

A gente mata o entusiasmo de muitas formas, mas creio que com um bocado de preconceito (e é quando mais queremos acertar!) e com uma ruptura. Escolho esses 2 elementos. Na escola, seguimos programas que indicam mesmos materiais para sujeitos (em formação) muito diferentes. Professores e professoras sabem que seus alunos são diferentes e que precisam e desejam coisas diferentes. Até quando vamos precisar repetir o óbvio: que se deve abrir espaço para que as crianças leiam o que gostam, para que possamos conhecê-las bem e oferecer a elas os próximos desafios que integrarão o seu repertório, dentro desse gosto que elas trazem com elas, ao lado do lanche na mochila? Até quando pais (que são professores!..) vão ouvir: deixa eu ler rápido o livro da escola para que eu tenha tempo de ler o que quero?… Eu não sou contra os programas, eu os sigo, mas eles podem ser mais plurais do que têm sido. Ex.: levei 46 anos para conhecer a obra de uma autora que viveu na mesma época de Machado de Assis e João do Rio porque os programas que me educaram não foram capazes de me mostrar uma mulher que conviveu com esses homens e que escreveu mais 30 livros: entre contos, romances, peças de teatro e literatura para crianças? Eu só posso sonhar com os benefícios que a menina que eu fui teria tido ao conhecer Júlia Lopes de Almeida com 15, 16 anos, quando lia os primeiros romances de Machado e sonhava em ser escritora, atriz…

Agora, a ruptura. Em algum momento, deixamos de partilhar com nossos alunos o prazer que as narrativas despertam em nós, nos afastamos talvez, sufocados com as sérias unidades curriculares, com as competências… que constrangem o corpo de professores em uma escola. Sim, porque falar em formação do leitor – da sua construção – é falar de trabalho da escola como um todo. O professor de Matemática precisa estar engajado e isso é só um exemplo. Em algum momento, nós nos retiramos da roda de conversa sobre uma história que nós lemos com paixão, porque alguém disse que a diferença entre o adjunto adnominal e o complemento nominal tem prioridade. Ou em algum momento, nós achamos que não temos a história emocionante para compartilhar… Por que não lemos? Não, o mundo está cheio de textualidades com bases narrativas para a gente compartilhar. Não precisamos voltar o preconceito a nós, porque o livro é apenas 1 dessas textualidades. A gente lê mais do que pensa… e isso não nos escusa de ler mais e, de forma mais diversa, gêneros diferentes. Talvez nosso desafio seja romper esse preconceito que se espraia pela prática pedagógica e encarar que tudo o que nossas crianças e jovens gostam de ler deve ser usado para aproximá-las de um universo de leitura mais rico. Tudo o que gostamos de ler também pode nos aproximar da riqueza que desejamos para os nossos alunos. Formar leitores é construir a nós mesmos como leitores. A Leitura é aproximação.

O Brasil é um país que se acostumou a uma aporia: enquanto sabemos que não somos um país de leitores, colecionamos iniciativas exitosas de pesquisa sobre a leitura e de fomento. O Instituto Interdisciplinar de Leitura da PUC-Rio e a Cátedra UNESCO de Leitura PUC-Rio tocam um projeto chamado “O Brasil que Lê”: pesquisa que intenta realizar “uma ação de mapeamento e análise de projetos de formação de leitores e mediadores em todos os estados brasileiros. O objetivo é dar visibilidade a ações que estão (re)construindo o tecido social brasileiro através da leitura e da cultura, resgatando histórias e vidas, compartilhando conhecimento e apoiando decisivamente o estabelecimento de novos patamares para a formação continuada de leitores no país.”³. Estou particularmente ávida para conhecer essas iniciativas que têm, acredito, um grande potencial de promoção de diálogo, ou seja, no momento em que tivermos as coordenadas desse mapa, talvez possamos nos encontrar e partilhar mais, romper o isolamento que apequena as iniciativas que existem por todo o lado.

Romper o isolamento é uma solução possível. Nenhum professor precisa arcar sozinho com a responsabilidade em que ele tem parte, é claro, mas que ele divide com a sociedade em geral. Muito se fala que, quando uma tarefa pode ser desempenhada por muita gente, ninguém a desempenha de verdade. A leitura talvez tenha se ressentido do adágio… Buscar iniciativas bem sucedidas, projetos, conhecer seus elementos é se dar a oportunidade de ir além. Além de si mesmo. Expandir-se.

Um terceiro e último exemplo entre os séculos XIII e XIV: Dante Alighieri (1265-1321). Descobri há muito pouco tempo o quanto esse autor que conhecemos pela obra máxima, sua antonomásia(!), a Comédia, foi talvez o primeiro grande leitor dos poetas que eu estudo na minha pesquisa acadêmica. Eu estudo trovadores e trovadoras do domínio linguístico occitano e descobri que na obra de Dante eles prosseguem vivos, quando seu modo de viver foi dilacerado pela cruzada albigense… Ou seja, os cancioneiros compilados na Itália, espécies de monumentos funerários de um modo de viver e da poesia do fin’amor, foram conhecidos por Dante que os revitalizou em diversas de suas obras. Na verdade, Dante insuflou de vida uma poesia concebida em outro vulgar e a integrou no tecido da sua obra. Na Vida Nova, onde para mim essa evidência é especialmente marcante, sobressai todo o esquema de apresentação e explicação da poesia trovadoresca compilada nos cancioneiros que, na obra de Dante, se revela, por sua vez, no prosímetro.

A que serve falar em Dante quando o hiato que desvelei nos acabrunha em 2021?… A leitura reconecta a gente aos homens e mulheres do passado. Em Dante, os trovadores e trovadoras voltaram a viver. A leitura não permitiu que eles fossem esquecidos apesar da cruzada que levou pessoas à morte e à dispersão. Quando um leitor nasce de verdade, para a variedade dos textos a que ele e ela têm direito, mortos saem de suas sepulturas não para assustar…, mas para nunca mais serem esquecidos. A leitura celebra um dever de memória. A leitura salva do esquecimento todas as gerações de Šahrāzāds.  

Se nossas crianças e jovens tiverem o direito de explorar seus gostos, podem, chegar – se todos os agentes da promoção da leitura agirem de forma concertada – a explorarem novos gostos, podem chegar a Dante, a Boccaccio e às Mil e uma noites… e qual é a vantagem disso? Os textos que eles, outros e outras escreveram, que redimensionam o nosso ser e estar no mundo, reconfiguram temporalidade. Conhecê-los e conhecê-las nos tornam partícipes de uma história maior que nós. Oportunidade de expansão.

Tenho claro que essa expansão pode não interessar aos princípios da formação utilitária que constrange os jovens à estreiteza, que amputa seus sonhos e suas expectativas. A estreiteza que os empurra a soluções equivocadas pelo arremedo de simplicidade, que nada tem a ver com o simples, mas com o precário e mal intencionado nas urnas…

Eu costumo dizer que a História é uma coleção de soluções de problemas no tempo, efetivadas em maior ou menor medida pelas sociedades. A Literatura alimenta a História com as soluções que a vida talvez não tenha tentado, mas que constituem nosso repertório, o repertório (de alternativas) a que temos direito. Compartilhar narrativas, lê-las em textualidades tão diversas é ampliar a nossa possibilidade de encontrar respostas…

Vou ousar uma interpretação do célebre versículo de Mateus: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, eu estarei ali no meio deles”4. Acredito que Jesus tenha dito uma coisa dessas porque onde estão dois ou três estiverem, há papo e há partilha! Imagino que os primeiros discípulos, na sua tentativa de apreender as novidades apresentadas pelo filho de Maria e José, tenham recorrido às histórias compartilhadas por dois ou três, daí Jesus ter provocado: “estiverem dois ou três reunidos”, ele que também gostava de uma história, afinal parábolas…

Histórias salvam vidas do esquecimento. Guardam tempo em nós: pessoas, modos de viver, de construir, sonhar, resolver problemas. Quer as histórias sejam de ficção, quer sejam histórias que deliberadamente firmam um pacto com o sucedido, se conhecidas e compartilhadas pela leitura, elas deixam a vida mais rica, até quando ela parece constrangida por agente patológico invisível a olho nu, ou visível sem máscara e indecente no desrespeito ao tempo futuro. A leitura apazigua o leitor com o tempo que nos constitui, muito além, muito além de mil e uma noites.

  1. Professora Associada II de História Medieval na UFPR, membro permanente do PPGHIS/UFPR, Bolsista de Produtividade em Pesquisa 2 do CNPq. Escritora e criadora do blog http://www.literistorias.org/
  2. Livro das mil e uma noites, vol. I: ramo sírio. Anônimo. Introdução, notas, apêndice e tradução do árabe: Mamede Mustafa Jarouche. 3ª ed. São Paulo: Globo, 2006. p. 25.
  3. [1] < https://obrasilquele.catedra.puc-rio.br/index.php/sobre-a-pesquisa/> acesso em 15 de julho de 2021.
  4. Mateus 18:20.   
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