LEITURAS XENÓLOGAS | O 25 de abril e a configuração da memória coletiva*, de Daniel Osiecki

A guerra colonial deixou marcas indeléveis tanto nos portugueses (contra ou a favor do conflito) quanto nos ex-colonizados africanos. É a partir da primeira acepção de pós-colonialismo defendida por Boaventura de Souza Santos que a configuração ou reestruturação de uma identidade (ou memória) nacional coletiva passa a se evidenciar, pois a memória coletiva é fator identitário. Naturalmente a (re) configuração da identidade também se forma como identidade cultural e literária.

Lembranças permanecem coletivas e nos são lembradas por outros, ainda que trate de eventos em que somente nós estivemos envolvidos e objetos que somente nós vimos. Isso acontece porque jamais estamos sós” (HALBWACHS, 2013, p. 30).

O indivíduo que lembra, para Halbwachs, está inserido em um meio, em uma sociedade, e o lembrar só é possível se assim o for, por isso é considerado o criador da teoria da “memória coletiva”. Ele ainda defende a tese de que “cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva”, ou seja, a memória individual só existe porque há a memória coletiva.

Uma ou mais pessoas juntando suas lembranças conseguem descrever com muita exatidão fatos ou objetos que vimos ao mesmo tempo em que elas, e conseguem até reconstituir toda a sequência de nossos atos e nossas palavras em circunstâncias definidas, sem que nos lembremos de nada de tudo isso” (HALBWACHS, 2013, p. 31).  

Fato muito comum em situações limite, como guerras, conflitos, e outros acontecimentos de intensa dramaticidade. A partir do período histórico que se seguiu após o conflito colonial na África, ou seja, o fim do Estado Novo, a independência das ex-colônias africanas, Revolução dos Cravos, ascensão dos governos de esquerda em Portugal e uma forte e prolífica geração de escritores, a questão da memória coletiva torna-se mais relevante e ativa em ambos os lados: ex-colonizador e ex-colonizado.

António Lobo Antunes, Lídia Jorge (ambos nascidos nos anos 40), Manuel Alegre, Teolinda Gersão, Rui Zink, Miguel Souza Tavares são escritores que passaram a publicar após o 25 de abril e muitos deles, principalmente Lobo Antunes e Lídia Jorge, eram bastante engajados politicamente neste período de reconstrução ideológica no Portugal dos anos 70.

Em Os cus de Judas, o médico que narra a história não poupa críticas ao semi-imperialismo português na África. Não é por acaso que Lobo Antunes decide não nomear essa personagem, pois o narrador é o alterego do novo português, ou seja, sem rumo e ainda buscando um resquício de sanidade nos estilhaços deixados pela guerra. Os resultados da guerra em Portugal foram muito diferentes do que nas ex-colônias, mas igualmente dramáticos. Portugal vai à bancarrota por decorrência da guerra. A classe média, que entra com todo o suporte financeiro, passa a se posicionar contra. O anônimo simboliza a falta de perspectiva sob a atmosfera hipnotizante do álcool, que serve para o narrador, paradoxalmente, como elemento organizador de suas angústias.

Levando em consideração esse aspecto de desamparo, pode-se perguntar se é possível construir a memória. Se for possível, ainda pode-se chamar de memória? Adriana Bebiano, no ensaio A invenção da raiz. Representações da nação na ficção portuguesa e irlandesa contemporâneas, ressalta a importância das várias tendências de pensar a configuração da identidade nacional, ou seja, o heterodiscurso da memória.

Em outubro de 1987, realizou-se em Lisboa um Colóquio com o título “A memória da nação”. Tivesse acontecido antes de 1974, seria apenas mais uma cerimônia de celebração da “alma da Nação Portuguesa”. É o contexto dos anos 80, a integração europeia e as ansiedades que daí advêm, que o tornam interessante: na alocução inaugural, Vitorino Magalhães Godinho dá justamente voz a essas ansiedades, ao prever o “naufrágio da memória”. O marketing, ou o capital internacional, segundo Godinho, estariam na origem desta catástrofe iminente: [N]esta desagregação em que persistem estruturas e mentalidades arcaizantes, ao mesmo tempo que penetram em enxurrada a “modernização” e os interesses transnacionais, ainda é possível construir uma memória para Portugal e para os Portugueses?” (BEBIANO, 2001, p.518-519).

Por isso que a não ação do narrador de Os cus de Judas é simbólica, pois flerta com o real, portanto, ele não se move por consequência de diversos traumas, e sua movimentação se constitui através da memória, é o cerne da matriz simbólica da nação. Volta-se aqui à noção de “Portugalidade”, ou seja, a imagem de uma falsa identidade moldada durante o Estado Novo.

O discurso da Portugalidade institucionalizado pelo fascismo sofre uma reformulação nos anos que se seguem à queda do regime. Subitamente, entre 1974 e 1976, todo o país é de esquerda, e o discurso da nação, tal como fado, Fátima, e o próprio futebol – de resto, três pedras angulares desta identidade portuguesa -, passam a estar conotados com o “antigamente”, tornam-se uso quase exclusivo dos partidos de direita e de um número reduzido de salazaristas confessos, cujas ideias continuaram a ser publicadas, ainda que de forma um tanto envergonhada, em edições limitadas (BEBIANO, 2001, p.523).

O discurso “antigo”, reacionário e conservador que constituía a noção da Portugalidade como o símbolo maior de patriotismo durante a ditadura fascista de Salazar, é substituído por uma “Portugalidade” às avessas, ou seja, o progresso, a união e a noção de identidades híbridas. Mas até neste período de efusão libertária e a tentativa desenfreada de luminosidade depois de tantos anos nas sombras, Portugal e a noção de identidade nacional ainda está, por mais que agora politicamente livre, em estilhaços não só pelas marcas da guerra, mas também por quarenta anos de obscurantismo político, econômico, ideológico e de fascismo que perseguiu, matou, sequestrou, exilou.

No romance de Lobo Antunes a noção de Portugalidade é demonstrada muito bem, à luz de um humor mordaz, em alguns episódios que o narrador lembra antes de embarcar para Angola, nos quais vê os espectros de parentes idosos defendendo o militarismo e a manutenção das colônias africanas e da guerra contra os “terroristas”. Esses espectros já sem rosto nem feições em suas lembranças também são assolados por um espectro maior, o de Salazar.

As tias avançavam aos arrancos como dançarinas de caixinha de música nos derradeiros impulsos da corda, apontavam-me às costelas a ameaça pouco segura das bengalas, observavam-me com desprezo os enchumaços do casaco e proclamavam azedamente:

– Estás magro como se as minhas clavículas salientes fossem mais vergonhosas que um rastro de batom no colarinho (…) serviam o chá em bules trabalhados como custódias manuelinas, e completavam a jaculatória designando com a colher do açúcar fotografias de generais furibundos” (…) (ANTUNES, 2003, p. 14).

Em várias outras passagens de Os cus de Judas o espectro onipresente de Salazar paira sobre um Portugal amedrontado e acovardado, como o meio do qual o protagonista é proveniente. E ele sabia disso. Por isso o narrador em momento algum poupa críticas em seu relato, ou seja, ele desfere seu fel praticamente a todo momento.

O cardeal Cerejeira, emoldurado, garantia, de um canto, a perpetuidade da Conferência de São Vicente de Paula, e, por inerência, dos pobres domesticados. O desenho que representava o povo em uivos de júbilo ateu em torno de uma guilhotina libertária fora definitivamente exilado para o sótão, entre bidês velhos e cadeiras coxas, que uma fresta poeirenta de sol aureolava do mistério que acentua as inutilidades abandonadas. De modo que quando embarquei para Angola, a bordo de um navio cheio de tropas, para me tornar finalmente homem, a tribo, agradecida ao Governo que me possibilitava, grátis, uma tal metamorfose, compareceu em peso no cais, consentindo, num arroubo de fervor patriótico, ser acotovelada por uma multidão agitada e anónima semelhante à do quadro da guilhotina, que ali vinha assistir, impotente, à sua própria morte” (ANTUNES, 2003, p. 15-16).

Podemos pensar aqui na questão dos calibans domesticados (caliban, metáfora utilizada por Boaventura de Sousa Santos para se referir ao colonizado, ao oprimido; e próspero para se referir ao colonizador, ao opressor. Nomes retirados da peça A tempestade, de Shakespeare) por prósperos calibanizados, ou seja, a colonização externa já estava ruindo, e a derrocada acaba se refletindo nos costumes da classe dominante, como a falsa confiança nas forças armadas, a pompa pequeno-burguesa muito evidente no modo de agir e a noção da transformação do indivíduo jovem (na visão reacionária, para melhor) em homem. O narrador critica os elementos que moldaram a si próprio e à sua família, mas sem perder o tom irônico, o que faz com que seu relato não seja amargo o tempo todo.

António Lobo Antunes é um dos autores portugueses mais relevantes de sua geração ainda em atividade. A questão da memória como fator gerador de conflitos existenciais é um elemento fundamental para analisar sua narrativa, seja nos romances iniciais ou nos mais recentes, em que a estrutura romanesca foi adquirindo, livro após livro, uma questão estética de desconstrução da forma narrativa tradicional, linear e monológica.

*Artigo adaptado da dissertação de mestrado O pesadelo pós-colonial: identidade e memória na narrativa de António Lobo Antunes, de Daniel Osiecki, defendida em março de 2018.

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Sobre o autor

danielosiecki
Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

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Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

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