LEITURAS XENÓLOGAS | Resenha sobre o livro Põe-me: poemas de amor, poemas de quando

Acompanhar a profícua produção literária contemporânea exige muita leitura e cuidado, porém, nem buscando conhecer os novos nomes que vêm a público diariamente, é possível ter uma noção da quantidade real de publicações. Muito difícil o trabalho de escrever sobre literatura, ainda mais fazendo uma espécie de seleção do que leremos para diante disso buscar separar, se é que cabe aqui a expressão, o joio do trigo.

Em conversa recente com o grande poeta e crítico Ademir Demarchi, falamos sobre a quantidade de poetas publicando, mas nota-se um número parcimonioso de poetas que se propõem à leitura de outros poetas. Não nos referimos apenas à leitura mecanizada, mas à leitura atenta e desbravadora, à leitura crítica que não visa o famoso “tapinha nas costas” e elogios vazios. Naturalmente que a boa crítica e a leitura atenta e cuidadosa, assim como não admitem o “tapinha nas costas”, também não aceitam os apontamentos vazios, o simples falar mal de forma gratuita e pessoal, que muitas vezes beira o discurso ad hominen.

É muito bom quando bons livros vêm parar em nossas mãos. Livros de poesia, então, melhor ainda, pois há uma espécie de restrição mercadológica aos livros de poesia, que muitas vezes ficam restritos às pequenas editoras. Nesse ano de 2021 a ótima editora Laboralivros, de Curitiba, me enviou o livro Põe-me – poemas de amor, poemas de quando, trabalho de estreia de João Guilherme de Souza Corrêa.

O autor reúne no livro uma diversidade bastante interessante de estilos, formas e temáticas. Ao todo são quase 70 poemas reunidos em duas seções: poemas de amor e poemas de quando. Como o próprio título sugere, a primeira seção explora, mesmo que muitas vezes de forma irônica, uma verve mais lírica. Na segunda seção João Guilherme explora questões relacionadas ao nosso tempo (vale atentar para o detalhe temporal de “quando”) que dá o tom temático dessa segunda parte que também explora questões políticas.

Destaque para o texto Carta aberta a um presidente da república, que é um ótimo exemplo de texto com forte teor engajado, mas sem cair no puro e simples panfleto. Carta aberta a um presidente da república é um dentre vários exemplos do que apontei acima, ou seja, do variado repertório estilístico do poeta.

Ao folhear o livro há poemas que quase nos “saltam aos olhos”, como os poemas da primeira seção que têm um claro apego estético visual, muito próximo de experimentos concretos. Porém, em momento algum João Guilherme torna-se caricato (e muito menos passadista) ao emular elementos visuais já consagrados. Em Põe-me sua assinatura própria se evidencia muito bem. Aqui está seu acerto.

Se o leitor e a leitora buscam poesia nova de qualidade, Põe-me: poemas de amor, poemas de quando, é uma ótima oportunidade.

Daniel Osiecki, editor-chefe

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Sobre o autor

danielosiecki
Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

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Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

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