LEITURAS XENÓLOGAS | Sou poeta, foge! A antipoética de Jorge Barbosa Filho*, por William Teca**

perguntei pro cantar

por que canto?

enquanto encanto a dor

num espanto

Falar da poesia contemporânea e ainda mais situar um autor dentro desse quadro é uma tarefa árdua e praticamente impossível. Simplesmente porque a poesia contemporânea não existe. Há, evidentemente, uma gigantesca massa discursiva, mas essa massa discursiva não atinge praticamente ninguém, quando muito uma meia dúzia de gatos pingados de acadêmicos e poetas, que quase sempre são a mesma pessoa.

Colocando os pingos nos is, o que estou dizendo é que toda essa produção poética é estéril, porque não possui alcance, simplesmente porque não há consumidores de poesia. É ingenuidade pensar que no mundo consumista, ainda que dotado de uma hiperestesia, a poesia signifique algo mais do que um mero exercício hedonista de auto satisfação, afinal, é bacaninha publicar um livro e gozar dos afagos de parentes e amigos e dizer: sou poeta! Não há, infelizmente, nos dias de hoje, poesia além desse mero exercício de escrita, praticado pelas mais variadas estirpes: do advogado ao oftalmologista, sem esquecer é claro dos adolescentes que naturalmente se fascinam com Álvares de Azevedo e propagam sua adolescência em versos adolescentes, pois, embora atinjam a maturidade econômica antes da meia idade, sua maturidade poética não consegue sair da vala comum do amor/dor, lua/rua e afins.

eu queria compreender

essa voz

(e hoje a vejo)

o eco

chove

no molhado

Formar leitores — e leitores de poesia — nunca foi uma preocupação social de fato, no máximo uma preocupação familiar como um verniz perfumado de “bom gosto”, mesmo na escola, onde se comete a violência estapafúrdia de juntar o ensino da língua portuguesa com a literatura (e a poesia), já que a literatura (e a poesia) não têm que cumprir necessariamente o papel pragmático que lhes é impingido, a literatura (e a poesia) deveriam sim ser autônomas e consideradas muito mais próximas da arte (talvez os professores de educação artística sofram ainda mais e sejam tratados como meros recortadores de EVA para o dia das mães), para que lhes fosse reconhecida sua dimensão vital e ontológica. A razão disso é muito simples, de fato, em termos positivos, arte, literatura e poesia não servem para nada, ao menos dentro da limitação temporal de uma vida cada vez mais finita, onde Cronos manda mais que Kairós.

não temo o medo

mas o tempo da covardia

e a insânia destes

mesmos dançantes

Na outra ponta do arsenal possível da formação de leitores está a crítica, que é outra coisa que inexiste, por mais que tenhamos uma enxurrada de crítica acadêmica e resenhistas saindo dos cursos de ciências humanas, raramente alguém possui a sensibilidade e a experiência necessária para dizer algo de relevante ou cativante (somente cultura e informação não garante a ninguém capacidade crítica, é preciso formação, e isso só vem com vivência da realidade humana que tem cheiro e gosto, não com a assepsia das telas dos computadores), muito menos possui leitores, é uma crítica muda porque ninguém lhe dá ouvidos.

Jorge Barbosa Filho

É dentro desse cenário desesperador do não existir da poesia que tem gente fazendo poesia. Mas, por mais contraditório que possa parecer, tem gente que gosta de “amolar e esmurrar a faca cega” e bater contra o muro para ver se o muro desiste ou algum deus (que também não existe) benevolente opere um milagre.

sem fim e sem começo

tudo aquilo que tento

é beco.

Jorge Barbosa Filho não é um poeta, é um goliardo que ao invés de vestir a túnica da poesia se despiu dela e não teme ser apontado nu, porque o que o diferencia não são os versos singulares de temáticas existenciais, é a sua própria existência que o qualifica e o permite ser a consciência transcendental em meio a um mar de falares.

este mar em que me encontro,

espontaneamente avesso,

onde as ondas se equilibram

espumam-se por escrito

quase o que não sei falar

e flutua-me os sentidos

exilado num vasto risco

com o destino nu em pelo

Ser “poeta”, se isso ainda é possível, é ser antipoeta, é um ato de resistência e uma disposição afetiva do ser que foi esquecida e a muito custo consegue ser lembrada, não sem sacrifício, mas um sacrifício distante do incenso e do silêncio das bibliotecas.

“O tempo presente, a vida presente”, não “o mundo caduco”.

Não se trata, evidentemente, de uma visão romântica que ainda rotula o bom poeta como poeta maldito, mas se trata de ser capaz de extrair o originário da existência em cada ato, por mais cotidiano que seja, e vivificá-lo, tirando o leite das pedras da banalidade.

ato o animal além de mim

e estico um sorriso

em cima dos abismos

de onde faço falar as coisas

Esse sim, o sentido daquilo que o esperto estagirita apontou com o dedo quando falou da tão mal compreendida mimese (traduzida pessimamente como i-mitatio), poesia não é nada além disso: “a feitura da mimese”, o recontar da experiência originária, o desvelar do mito.

sou meu mito

meus eus meus zeus

dos nuncas cheios de agoras

e eternos jamais

mas

basto-me bastando-nos

E o mito do antipoeta atinge seu télos justamente na entropia da poesia, o que nos aponta, talvez, uma saída ao ladrar desesperado diante desse nada saturado de tudo que é a “poesia contemporânea”, a única maneira de ser poeta é ser antipoeta e enxergar a poesia de sua perspectiva mais original que é ser antipoesia.

contudo, procuro

na arte da fuga

algo que vá distrair

meus melhores poemas

da pretensão de sê-los.

E, claro, para a antipoesia, a anticrítica.

quem acha que se achou

já está perdido

*Jorge Barbosa Filho (Jorge do Irajá) nascido no Rio de Janeiro em 23 de maio de 1960 no bairro do Rio  Comprido. Viveu no subúrbio, bairro do Irajá até 1984, onde com 9  anos já rabiscava os primeiros poemas. Com 18 anos o primeiro livro de poemas Poesia ou Crime Quase  Perfeito, Ed. do Autor. no Rio. Em São Paulo, lançou Mais, Ed.do  Autor, em 1985. Depois em Florianópolis, Mequetrefes, Ed. do Autor,1990. Todos encontram-se em lugares incertos e não sabidos, pois foram  perdidos e/ou roubados. 

Já em Curitiba, trabalhou como Produtor e Angariador de Apoios  Culturais para a Rádio Educativa do Paraná, 1997/1999 e escreveu  na Revista Ideias com a coluna literária Diversos nos anos de  2007/08. Formou-se em Licenciatura/Português em 2003. Lecionou  em diversos colégios de Curitiba e Região Metropolitana, além de  ministrar palestras e Oficinas de Criação e Sensibilização Poética  para as Secretarias de Educação e Cultura, Biblioteca Pública do  Paraná, Colégios Particulares e no SESC-PR, na capital e no interior.  Contribuiu na implantação do circuito de recitais em Curitiba. Nesta  cidade, lançou Buquês de Alfafas pela Editora Kafka Edições  Baratas em 2005 e Ópera 44, Ed. Do Autor, com o artista plástico  Paulo Pisano em 2006. Relançamento do livro Buquês de Alfafa,  Ed. Do Autor, Rio de Janeiro – 2012 a 2016; e Transcendência Zero  pela Kotter Editorial – Curitiba, já na Parnaíba, Piauí.  

Mora atualmente na Parnaíba cantando blues e sambas na varanda  em finais de semana. Trabalha como Captador de Eventos e realiza  Oficinas de Criação e Sensibilização Poética, Oficinais para  Professores de Educação e outros, além de recitais performáticos. Venceu recentemente (março de 2021) o Concurso de Poemas da  Editora Tremembé, um dos maiores e melhores concurso de  literatura do Nordeste.  

** William Teca nasceu em Curitiba, em 1975. Poeta, tradutor e músico, publicou Sinistros Insones (2017), Meia com Amargo (2019), Dois contos (2020) e Caderno felino do suicida (2021). Mestre em Estudos Literários pela UFPR, em breve publicará sua dissertação, Descartatau, em que analisa a obra de Paulo Leminski. Descartatau está no prelo, e sai pelas editoras Kotter, Zouk e Urso.

Foto: Carlos Codespoti

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