LEITURAS XENÓLOGAS | Transplantar, por Hugo Simões

 

Em um fascinante ensaio, Hugo Simões desenvolve a compreensão a respeito da poética em conformidade com a concepção de transplante. A partir de uma aproximação entre poética e vida, Simões se vale das concepções de alteridade e ciborguismo para atingir o patamar da criação poética como uma projeção da alteridade enquanto metamorfose, como propriamente um transplante de elementos da vida.

Transplantar

So:
civilization has no poetry,
I’ve slipped
away from nature.

The body of poetry has withered,
like dead grass,

      even though I still try to
stick,
like a leech, with
a suction
-tight grip
on words

till even these
slip away in
time’s
stream.

Jonas Mekas

Há sempre algo que falta quando não é possível se perceber como um todo. Dessa percepção de falta, que podemos aqui chamar de origem, formam-se rios, trilhas, linhas enlaçadas em letras: tudo o que flui e perpassa pelo devir que para nós foi nomeado corpo. Sei que em filosofia uma variedade de nomes orbita e renova a ideia básica da falta que nos move, e, por consequência, permanentemente origina. Em τέχνη e ποιεῖν, criação e fazer, arte e poiésis, da musa ao rastro derridiano (dentro das fronteiras do Ocidente, mas poderíamos buscar casos análogos em diferentes cantos), é comum que a inesgotável questão da origem se manifeste carregando sua pesada dívida a nos cobrar uma resposta definitiva sobre o que, afinal, falta. A relação que instaura o artístico e o poético pode ser compreendida como uma tentativa de responder ao estímulo dessa dívida simultaneamente transcendente e imanente. Por certo isso é uma redução, mas como dizer sem reduzir?

§

No ano passado, a minha colega Clarissa Comin me contou, por conta de uma pesquisa que ela desenvolve sobre transplante e literatura no contexto do maio de 68 (e que em breve será publicada em artigo), que comemorávamos os 50 anos do primeiro transplante de coração no Brasil. Em maio de 1968, enquanto sublevações estudantis e de trabalhadores tomavam as ruas na França, um boiadeiro brasileiro sobreviveu 28 dias com um coração alheio, que acabou rejeitado, levando o corpo à falência. Penso sobre sucesso e fracasso e o quanto essas categorias são insuficientes a esse caso de nossa pátria. A falha da técnica sobre um corpo que se tornava inoperante, com um duplo indesejado, incomunicante, carregado de uma violenta in-junção externa: fazer-se um. O primeiro transplante de coração no Brasil não é um evento trágico (não estava predestinado), mas intimamente poético. A feitura de uma nova origem, de um corpo bifurcado, quase-ciborgue, é também uma reordenação discursiva sobre o eu e o outro. Assim como a Jean-Luc Nancy, ao escrever e se identificar como “O Intruso”, é impactante a ideia de rejeição que ordena a operação que o transforma em eu-intruso, à poética o transplante é uma condição perene da constituição e da rejeição dos devires que chamamos corpo.

§

Escrever poesia e, antes disso num pseudo-clichê intencional, vivê-la; fazer arte e, pela técnica, modificar a si e ao outro, por meio do que chamamos (ainda que em equívoco) “contato”, é sempre uma espécie de transplante – ainda que nem sempre de órgãos compatíveis ou, para “nós”, existentes. A “origem” que se dissolve entre pós-modernos talvez nunca tenha causado as mesmas dores de cabeça a seus contemporâneos extra-modernos. Se a autoria é uma manifestação da falta originária, do corpo completo, o corpo enquanto devir dos pensamentos extra-modernos é, por excelência, desautorizado. Um corpo desmagnetizado da ideia de poder ocidental; um corpo aberto a outros mundos e a seus desafios; um corpo múltiplo e, portanto, perigoso a tudo que provém da ordem. Isso é mais próximo de poiésis do que talvez imaginemos. A expulsão dos poetas da pólis por sua subversiva ação de modificar o corpo (e a sua programação específica, ordeira) liga-se à ideia da perfeição corporal, a qual, lentamente, se tornaria dogma cristão e, posteriormente, ordem global. A poesia, diriam amantes enfurecidos de bacanais modernos, é filha da desordem.

§

Talvez soe antiquado, mas ao pensar poesia (arte) e tradução (relação) através do corpo e
desde o corpo, passo a pensar o fazer e a técnica como partes de nossa herança biológica e da nossa capacidade de contato com o mundo que nos cerca. A biofonia na “criação poética” das diferentes etnias indígenas exerce um papel muito maior que simples ambiência: é, antes, algo a que se deve prestar atenção, doar-se em escuta. Assim como a poesia resultante das catástrofes do final da primeira metade do último século (pense-se em Paul Celan, em Primo Lévi ou mesmo em Jonas Mekas) nos ensinou a reaprender a dar atenção, a nos relacionarmos com quem advinha do terreno das ruínas, penso que a recente atenção às artes verbais ameríndias (com traduções, diálogos, coproduções etc.) nos oferece novas (e complementares) ideias de atenção. A poética e a técnica como partes de nossa existência e da mutável engrenagem do corpo-gente me parece uma possibilidade plausível. Poesia, assim, liga-se a nossa capacidade de metamorfose, pensando aqui nas consequências da bela teoria cocciana. “Devemos tomar o casulo como um paradigma não apenas da técnica, mas de um estar no mundo tout court”. Dentro dos casulos que somos, há sempre um canto, seja de nossos batimentos, de nossa respiração, de nossa voz, proveniente de um sopro que atravessou a história do mundo.

§

Iniciei esse pequeno ensaio com um poema de Jonas Mekas, que faleceu nessa semana. A
poesia, como escreve Mekas, não provém da civilização, mas da natureza. O desejo de controle platônico e as sucessivas formas de poder que temeram, desprezaram e combateram o poético, no fundo, rejeitaram e rejeitam a evidência de que a poiésis e a arte são partes de nossa “natureza selvagem”.O que resta de selvagem para “nós” está na arte, como diria Alexandre Nodari, amigo e orientador de muita consideração (a quem devo muitos dos insights deste texto). Essa arcaica técnica de modificação corporal – de transubstanciação (como diria outro amigo, Tarik Alexandre, a quem agradeço pelos debates que fundaram esse texto) e de metamorfose induzidas –, que nos permite diálogo e quase-contato com a “natureza”, com o mundo, com o outro (independente de que tipo seja), é nossa herança. As mãos desenhadas nas cavernas de Chauvet, arte que nos identificou, segundo Mondzain, e todas as demais “artes rupestres”, hoje são entendidas fora da ideia isolada de representação. Eram antes, como especulo em outro texto, arqueoteatro — as cavernas eram escolhidas por seus aspectos acústicos, pela possibilidade de “imitar” os animais, de dizer suas tantas linguagens, de se transformar.

§

Desde o início, portanto, desde a “origem”, a poesia é transplante, ou melhor, transplantar. Se, num exercício de especulação etimológica, ouvimos a planta existente nessa palavra, podemos entender melhor a poética da vida. O corpo da poesia que seca como grama, aduba como folha seca em Mekas, recai sobre si num movimento de auto-percepção cummingsiano, se deixando levar pelo “fluxo do tempo”. Nessa noção tão humana – tempo –, tão parelha à ideia de origem, não há espaço que encerre o rastro infinito da multiplicação, da vida. Frente à incompreensível potência do viver, dissemos todas as palavras possíveis para clamarmos por nossa percepção de falta; e enquanto as dissemos, sofremos e incitamos inúmeros processos de transplante. Como a muda que se duplica em diferente terra, plantamo-nos e transplantamo-nos; a poesia, afinal, não é manifestação do reinado do homem sobre a natureza, mas a ausência de hierarquia, a possibilidade do casulo e do devir. Talvez te seja estranho, mas o “fazer”, o poético (e também, por óbvio, a “arte”), é uma miríade de técnicas de modificação corporal, que nos torna mais capazes de escutar (ou seja, em contextos e sentextos dos mais variados). Foi o que aprendi em tradução e ao estudar outros mundos possíveis (em especial os ameríndios, a quem devo realmente muito). Dessas técnicas derivam funções, mas também restos insubmissos. Antes de tudo, porém, o que é realmente essencial: muda-se.

§

Há pouco menos de três anos, faleceu um dos homens que me criou. “Meu filho”, era assim que meu padrasto me chamava. Demorei para entender o porquê daquilo. Na verdade, insisti em entender esse nome como um simples agrado a minha mãe. O nome, porém, não era vazio. “Meu filho” se manifestava em diferentes momentos de nossas vidas compartilhadas, sem necessariamente haver palavras. “Meu filho” foram os dias tristes e os lampejos de alegria que me conectaram àquele homem estranho a mim, o qual passou a me estranhar a mim mesmo. “Meu filho” passou a ser um gesto de atenção. De palavras genéricas, tornou-se uma potência de afetos e desafetos que passaram a rondar a minha lembrança do que querem dizer essas palavras juntas. Independente da performance de meu padrasto, e mesmo hoje sem ele por perto, essas palavras agem em meu corpo e fazem parte dele. De todas as vezes que cortaram a minha memória, das tantas que percorreram meu rosto em fios de lágrimas, das que ficaram em minha garganta e porventura ali formaram um calo. “Meu filho”, um transplante impossível, de um homem que não me gerou, mas que me deu parte de meu corpo: gestos, modo de andar e falar (treino do corpo para imitar), risada larga. “Meu filho” é poesia, pois tornou-se chamamento de atenção, deslocou-se da insignificância a que sempre se tenta reduzir as palavras para torna-se parte de mim. Como um transplante de coração, houve batalha de anticorpos, perigo de rejeição. Sofri tudo isso. Mas, acima de tudo, sofro e me alegro com a lembrança do que me habita. “Meu filho”, como talvez faziam aqueles arqueohumanos em Chauvet que pintavam mãos e outras formas de vida nas cavernas enquanto falavam e cantavam, é algo que digo porque a poesia é meu corpo. Esse verso me fez outro e me fará sempre outro.

image2Hugo Simões, pesquisa, faz e traduz poesias e artes verbais aparentadas. Tem um livro de poesia publicado (“Pêsames”, ed. dybbuk, 2016), um no prelo (“Perdão”, ed. contravento, 2019), escrito alguns anos atrás, & um recentemente finalizado (Guará, ainda sem editora). Atualmente traduz principalmente Paul Celan, Tamara Kamenszain e Thomas Bernhard. Na poética de Celan estuda a sua possível reverberação em práticas de memória do genocídio ameríndio (uma parte dessa pesquisa em andamento será publicada em livro em breve – “A tradução do que se cala”, ed. Máquina do Mundo, 2019). Vez ou outra se aventura por outras artes e fazeres & tem textos, poemas e traduções dos mais diversos publicados em revistas, blogs, zines e outros delírios.

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