MATÉRIA | A Literatura como modo de vida

Meses atrás andei pensando numa questão que sempre retorna: pra que escrever, pra que literatura, etc. Voltei a ler um ensaio do Reuben da Rocha que coloca bem esse problema, “Poesia inútil, poesia irrelevante?”.

Outro texto que me deixou bastante inquieto foi o ensaio “Literatura de esquerda” do argentino Damián Tabarovsky, que interroga um conflito da criação literária entre duas dimensões: as demandas de popularidade, acessibilidade e circulação via mercado versus o trabalho de invenção conceitual, tensionamentos de estilo etc via academia — não que essas dimensões não se atravessem.

Ambos ensaios percorrem caminhos diferentes para chegar numa conclusão similar, que é bem próxima de uma posição que vem desde Blanchot, perpassando autores como Foucault e Deleuze, que seria: a literatura fende a linguagem e quebra a circulação saturada dos signos; leva a linguagem ao seu mutismo; faz dizer o que a linguagem tem de mais interior: sua exterioridade; diz mais quando consegue dar à intuição o que lhe escapa e que não pode ser dito. Toda essa perspectiva é muito bem abordada pelo livro da Tatiana Salem Levy, A Experiência do Fora [1].

Não me afastei dessa perspectiva, mas tenho pensado muito na leitura, no livro como dispositivo de uma experiência, de uma certa gestão da atenção, de um certo processo de subjetivação. Isso num contexto em que nossa atenção é estilhaçada numa enxurrada de informações e interações que nos faz perder horas numa função de automata, produzindo dados e valor para essas redes sociais em que interagimos [2].

O livro é uma mídia óptica. É possível ter uma conexão cibernética com ele tanto quanto com o celular. A literatura como um modo de vida. Essa seria minha resposta hoje à questão da utilidade e efetividade da literatura.

Prefiro pensar tudo isso com uma quebra na função populista do livro: pode ser que não convença ninguém, que ninguém leia, que seja esquecido e dez anos depois encontrado. Não, seu livro não vai ser premiado. Se conseguir denunciar todo o mal do mundo, talvez não vá além de alimentar o sentimento de culpa e impotência diante dessas estruturas perversas — receita de um policial. Que ele ganhe o Nobel, há menos mistérios nessa contingência do que nomes na lista de grandes autorxs que passaram sem ele.

Gosto muito desse poema de Ernst Jandl traduzido pela Myriam Ávila. Foi um achado pra mim:

ESTE POEMA

ainda não está bom
e tens de trabalhá-lo mais
mas o mundo não virá abaixo
se o deixares como está
nem mesmo a casa virá abaixo

Enfim…

Estou fazendo essas provocações para confrontar suas falsas pretensões ao pensar em escrever ou publicar algo. Cultivar a solitude e se bastar com a alegria de estar vivo e passando bem diminui muito a probabilidade de frustração.

Umas leituras que me levaram a pensar sobre esses problemas aqui colocados foram o livro Os Detetives Selvagens do Roberto Bolaño e textos do Ricardo Piglia. Dois autores que interrogam a experiência literária de forma muito interessante.

Indico muito um ensaio do Piglia chamado “O escritor como leitor”. É genial!

Os Detetives Selvagens conta histórias de um monte de gente tendo experiências diversas, relacionamentos, conflitos, viagens, desaparecimentos, numa vida imersa em livros. Personagens que são poetas, artistas, bandidos, prostitutas, estudantes, livreiros, etc. Haverá um livro pra todos eles.

Este ensaio do Piglia no link acima comenta a experiência de Witold Gombrowicz. Um escritor polonês que foi para Buenos Aires e lá ficou sabendo da eclosão da Segunda Guerra Mundial. O que impossibilitou seu retorno. Viveu num estado de pobreza em Buenos Aires. Tem duas dimensões que Piglia aborda que acho bem interessantes. Uma é a relação da literatura com os guetos e vielas frequentados por Gombrowicz e toda a língua menor que se constitui por aí. Outra, bem mais contra-intuitiva, é quando Gombrowicz consegue um emprego num banco e o Piglia deixa algumas intuições sobre a relação da literatura com a moeda e com as finanças.

O ponto que quero chegar é: pensar a literatura como experiência — e via de troca de experiência — que permeia tudo. E é bom que haja mesmo uma enxurrada de escritos. Pelo menos 10 livros pra cada situação possível. 10 perspectivas diferentes, 10 especulações possíveis sobre aquela situação, 10 panoramas, 10 visões distanciadas de um grande bloco de tempo e um conjunto de eventos ou mesmo uma incursão nas infinidades de um dia, como no Ulysses de Joyce. Ler um livro de literatura é ter um tipo de experiência e através da leitura poder interrogar sua própria experiência. Isso que é foda de ser um leitor de literatura.

E às vezes apenas um livro basta. Um livro esquecido, mas o livro que te acompanha. Você nem sabe direito quem é a pessoa que escreveu, mas se apropria dele. O Vinicius Ferreira Barth tem um conto que apresenta isso muito bem. O conto se chama “A epifania do mundo em torno de um sussurro” e está em seu livro Razões do agir de um bicho humano, publicado pela Confraria do Vento. É a história de um cara que só tinha um livro, era o único que ele havia lido. Ele teve a oportunidade de conhecer a autora e foi frustrante. Era um livro renegado pra ela e ela ficou enraivecida quando o personagem pediu um autógrafo. Mas era o livro da vida dele e ele se apropriou daquilo como seu.

Não te basta ter escrito o livro da vida de alguém? Nem que seja o livro da sua própria vida. Se isso não é suficiente, não escreva nada. Há outras formas mais dignas de ter seu minuto de fama. Não se preocupe que você será esquecido do mesmo jeito.

Algo que acho muito bonito é pensar nos leitores encarcerados e a companhia que os livros lhe trazem. Ou nos dias em que desmorona sobre nós o sentimento de abandono e não conseguimos sustentar nenhuma certeza ou uma mísera expectativa positiva… E daí pegamos um livro, chorando, e lemos.

Outro poema… Ana Martins Marques…

Mesa

Mais importante que ter uma memória é ter uma mesa
mais importante que já ter amado um dia é ter uma mesa sólida
uma mesa que é como uma cama diurna
com seu coração de árvore, de floresta
é importante em matéria de amor não meter os pés pelas mãos
mas mais importante é ter uma mesa
porque uma mesa é uma espécie de chão que apoia
os que ainda não caíram de vez.

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1 — Essa perspectiva tem implicações epistemológicas interessantes, que eu tentei explorar num ensaio intitulado “O jagunço sintético e o pensamento nos limites da experiência” e no primeiro capítulo da minha dissertação.

2 — Explorei isso num ensaio escrito em 2017, mas só veio ficar mais evidente muito depois: “Círculos que não se fecham, corpos que não se seguram”.

Renan_portoRenan Porto é ensaísta e poeta baiano vivendo no Rio de Janeiro. É mestre em filosofia do direito na UERJ. Desenvolve pesquisa interdisciplinar entre filosofia política, direito e literatura. Durante a graduação, pesquisou a relação entre poder instituinte e poder instituído a partir da relação que a personagem Dona Flor tem com as personagens Vadinho e Teodoro na obra de Jorge Amado, Dona Flor e seus Dois Maridos. No mestrado, pesquisa sobre as implicações éticas da ambiguidade da escrita de Guimarães Rosa para o pensamento sobre a experiência da justiça. Publicou poemas nas revistas Escamandro, R. Nott Magazine, Babel e Libertinagem. Seu livro de estreia será publicado ainda em 2018 pela editora Urutau, com o título O Cólera A Febre. Renan possui um blog pessoal https://medium.com/@renanporto do qual esse texto foi extraído.

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