MATÉRIA | Ailton Krenak

Vivemos um momento de desconsideração com o meio ambiente, queimadas e retrocessos em leis ambientais marcam os últimos anos. Em consonância a isso, também vivemos uma pandemia que obrigou toda a humanidade a se recolher em casa e desacelerar o ritmo. Enquanto todas essas mudanças acontecem, diversos pensadores tentam ajudar a sociedade a entender o momento que passamos.

Ailton Krenak é um deles.

Integrante da tribo indígena Crenaque, de Minas Gerais, faz importantes reflexões sobre a sociedade de consumo, o meio ambiente e diversas questões sociais. Ademais, no mês de setembro, a união brasileira de escritores concedeu o prêmio de intelectual do ano ao ambientalista e escritor. Com 66 anos, ele também é doutor honoris causa pela UFF e professor da UFJF. Além disso, Ailton teve um papel importante na Assembleia Constituinte de 1986, fazendo um discurso importante para a definição dos direitos indígenas. A participação dele pode ser vista no youtube clicando aqui.

Com todos esses feitos é impossível, em apenas um texto, falar sobre toda sua produção.

Dessa forma, vou apresentar suas considerações que foram feitas no Documentário “Vozes da Floresta — A aliança dos povos da floresta, de Chico Mendes aos nossos dias”. Ele pode ser assistido no canal Le Monde Diplomatique Brasil, no Youtube. Já o livro O Amanhã não está à venda, escrito por ele e publicado pela Companhia das Letras, está disponível gratuitamente na Amazon.

Krenak inicia fazendo uma análise sobre como a história da colonização brasileira é também a história do genocídio indígena. Toda a estrutura social foi construída em cima de um cemitério de outra cultura. A partir disso, ele analisa como toda a relação da nossa comunidade com a comunidade nativa atualmente é feita por altos e baixos. Houve momentos de aumento dos direitos e outros em que foram forçados conceitos ocidentais aos costumes deles.

Ele também entra nas diferenças de conceitos que a comunidade tem com a sociedade que conhecemos. O conceito de propriedade, por exemplo, para as comunidades indígenas é diferente. Por isso também existem diversos conflitos quando o governo tenta demarcar ou obrigar os povos autóctones a uma área estrita. Várias vezes, mesmo a tentativa de ceder direitos a esses povos são formas de recolonizá-los, em uma tentativa de introduzi-lo ao conceito de progresso ocidental.

O ambientalista também entra no mérito do que realmente é o progresso, pois a sociedade capitalista acaba por fabricar pobreza e produzir carência. Atos que na sociedade indígena, tida como atrasada, não são reproduzidos. E ao contrário do que imaginam, eles ainda estão presentes no Brasil até hoje.

Outro ponto muito importante é a crítica que Ailton faz a como os movimentos sociais acabaram sendo incorporados ao Estado. Esse movimento foi feito, segundo ele, por conta da crença que a nossa jovem democracia seria plena o suficiente para não precisar que esses movimentos fossem dissociados. Devem portanto, ser oposição crítica ao Estado, pois nunca se sabe quando essa situação pode mudar.

Essa análise social prossegue no livro O Amanhã não está à venda, mas desta vez especificamente sobre a pandemia e o isolamento social. A primeira consideração que ele faz é sobre como o isolamento, que é novidade para nós, para os indígenas é realidade há muito tempo.

“Não sou um pregador do apocalipse, o que tento é compartilhar a mensagem de um outro
mundo possível.”

De outra parte, há anos a sociedade nativa fala sobre como a sociedade precisa desacelerar. Sob essa perspectiva, o ritmo de vida não é sustentável e como precisamos parar, com a pandemia surgiu a obrigação de parar. A economia que pareceu tão essencial, mais que o respeito às pessoas e à natureza. Com o isolamento social ficou claro que quando a humanidade é ameaçada, qualquer outra atividade é secundária.

“Governos burros acham que a economia não pode parar. Mas a economia é uma atividade que os humanos inventaram e que depende de nós. Se os humanos estão em risco, qualquer atividade humana deixa de ter importância”

Assim, a pandemia nos mostrou, segundo Krenak, como não se deve vender o amanhã, uma vez que somos extremamente frágeis e podemos não estar presentes nele.

A análise total do ambientalista, incluindo o documentário, é sobre isso. O quão insustentável é o ritmo de vida, como todo o modelo suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos. Ele procura nos fazer refletir sobre o quão humanos ainda somos.

No caso da pandemia, a torcida de Krenak é que não voltemos ao que éramos antes, a normalidade insustentável. Pois, depois da morte dessas milhares de pessoas, voltar ao que éramos antes, seria banalizar a vida e por consequência a nossa humanidade.

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