MATÉRIA | Animais Fantásticos e Onde Habitam: Newt Scamander e a Representação da Masculinidade

Newt Scamander, logo no início do filme, chegando aos EUA. Já é possível perceber que não estamos diante de um herói convencional.

Newt Scamander, protagonista do filme Animais Fantásticos e Onde Habituam, é, a meu ver, muito mais que uma simples personagem dotada de uma personalidade exótica. A produção fílmica hollywoodiana, ainda hoje, vê-se presa a um certo estereótipo de masculinidade que é, pela sua natureza normativa (positivação de certas condutas ditas corretas e verdadeiras em detrimento de outras, formando, dessa forma, o caráter do indivíduo, isto é, sua subjetividade), replicado ad infinitum. Não é difícil enxergar um padrão – na história do cinema de Hollywood – no qual destaca-se a imagem do homem viril; dos clássicos de Clint Eastwood, até os mais recentes filmes de super-heróis da Marvel ou da DC, assistimos à repetição insípida da mesma fórmula de masculinidade. Contudo, há raros casos em que uma outra masculinidade é representada, escapando ao estereótipo que via de regra a acompanha – esse é o caso de Newt.

A teoria feminista mostrou a importância de repensar a categoria do feminino, evidenciando sua natureza de constructo histórico-social, para além das naturalizações que faziam dela um conjunto fixo de elementos pré-determinados ora por supostas regras da biologia, ora por uma metafísica essencialista. Mas junto dessa leitura crítica do feminino, emerge a necessidade de repensar, também, a categoria do masculino. Afinal, o que significa ser homem? Num primeiro momento, pode-se dizer que o masculino define-se menos por um conjunto de caracteres positivos que pela negação radical do Outro, isto é, do feminino. Portanto, o princípio a partir do qual se estabelece a fronteira entre o masculino e o feminino, é que o homem não é uma mulher.

De 007 a Tony Stark, o herói na cultura pop encarna um modelo de masculinidade ideal composto por elementos de esparsa variação. Ele é viril, silencioso ou canastrão e dotado de grande força física – além, é claro, de ser bonito e irresistível. O herói nunca, ou quase nunca, demonstrar emoções ou sentimentos, pois o mundo é um lugar horrível e as pessoas a sua volta não são confiáveis. Demonstrar sentimentos significa fragilizar-se, apequenar-se, em suma, agir como uma “mulherzinha”. Sua coragem é medida pela quantidade de balas que é capaz de disparar. Ao herói não é dado o direito de sentir ou de compreender, mas apenas o de cerrar seus punhos e bater o mais forte que puder. A única forma pela qual ele pode exteriorizar suas emoções é pela agressividade. O homem profundamente atormentado pela morte dos pais, que sai pelas ruas de uma cidade vestido de morcego e batendo em criminosos; ou o homem que põe tudo a perder por não ser capaz de lidar com a morte da mulher que amava. Ódio, raiva e vingança, quando manifestados por um homem, não recebem nenhum questionamento, pois é considerado natural um homem manifestá-los. Já amor, compaixão e ternura são sentimentos que, quando manifestados por um homem, põem em xeque a sua masculinidade.

Cena do anime SukaSuka. Essa cena trata-se de uma exceção à maioria dos heróis de animes, pois nela o protagonista não teme mostrar sua vulnerabilidade, permitindo-se sentir. Recomendo que assistam, mas não me responsabilizo pelas lágrimas no  teclado.

Mesmo quando o herói é uma mulher, a mulher só se torna heroína à medida que se “masculiniza”. Ela deve performar uma certa imagem de masculinidade. Disso decorre o frequente fracasso em dar representatividade às mulheres, colocando-as em papéis de destaque. O herói, homem ou mulher, não deve apresentar traços que remetam ao feminino. A heroína, em termos performáticos, ainda é um homem. E o verdadeiro homem, isto é, o homem com “h” maiúsculo, deve ser durão e inabalável. Um homem que não reproduza tal modelo não pode ser considerado homem, ele é fraco, incapaz de assumir a posição de herói, no máximo de coadjuvante ou alívio cômico. Quantas vezes nós mesmos não dissemos de uma personagem que ela foi covarde ou frouxa, apenas porque decidiu não fazer o que todo herói/homem faria? A expressão “Seja um herói!” pode facilmente ser substituída pela expressão “Seja um homem!” sem perda semântica significativa. Não é por uma infeliz coincidência que os grandes heróis da antiguidade foram todos homens: Teseu, Ulisses, Hércules, Aquiles etc. Quem nunca exaltou um Jack Bauer ou um Kratos? Dizemos dessas personagens que elas são badass, uma vez que são o espelho do que, consciente ou inconscientemente, erigimos como ideal de masculinidade.

Imagem relacionada
A protagonista Ellen Rypley, em Alien 2. Apesar de um marco na representação feminina no cinema, há um intenso debate sobre o quão subversivos teriam sido os primeiros filmes da franquia Alien.

Mas é aqui, exatamente aqui, que Animais Fantásticos e Onde Habitam surge como uma ruptura. Newt Scamander é o inverso de tudo isso. Não recai sobre ele o peso de ser o escolhido e ele definitivamente não é o mago mais notório ou poderoso do universo bruxo. A bem da verdade, ele é um homem simples e de ambições simples: dedicar-se ao estudo e preservação de criaturas mágicas e escrever livros acadêmicos, livros esses cujo propósito é o de levar as pessoas a compreenderem melhor essas criaturas e a serem mais empáticos quanto a elas. Desajeitado, franzino e frágil; desprovido de expertise social e, ainda por cima, desastrosamente tímido, Newt dificilmente seria visto como o protagonista de um filme ou de uma saga, mas ele o é, pois aquilo que faz dele um herói, no sentido mais forte dessa palavra, vem de outro lugar; não da força bruta, de uma habilidade extraordinária com magia ou de virtudes viris e galantes. É preciso dizê-lo: Newt não é Harry Potter. Lembremos que a casa a qual Harry pertence, em Hogwarts, é a Grifinória. Suas principais características são a coragem, a ousadia, o cavalheirismo, uma certa verve belicista e, convenhamos, um certo exibicionismo prepotente. À casa Grifinória estão ligados valores como o heroísmo; grandes personalidades do mundo bruxo pertenceram a ela. Newt, por outro lado, pertence à casa Lufa-lufa, a menos expressiva das quatro existentes em Hogwarts. As principais características dos lufanos são serenidade, modéstia e cooperação. Isso, sem dúvida, diz muito sobre a personalidade de Newt e o porquê de ele não ser comparável, em termos de protagonismo e heroísmo, a Harry.

 Em um vídeo intitulado The Fantastic Masculinity of Newt Scamander, do canal americano Pop Culture Detective – vídeo que, aliás, serviu de inspiração para esta matéria -, Jonathan Macintosh traça com mestria a diferença entre os dois protagonistas do universo criado por J.K. Rowling. Segundo ele, a saga de Harry Potter segue à risca o roteiro da clássica jornada do herói. Harry tem de constantemente provar seu valor e lutar para conquistar seu lugar na sociedade bruxa. Além disso, ele deve lidar com a pressão social, pois devido a sua origem e história, a sociedade bruxa em geral criou uma enorme expectativa sobre o seu futuro. Ele não é, a priori, o herói, mas tornar-se-á um, pois esse é o seu destino. Sua jornada é a de um garoto mundano deixando de sê-lo para tornar-se outra coisa, uma coisa maior, mais grandiosa. Harry não é celebrado pelo que ele é, mas pelo que ele pode vir a tornar-se ao aceitar seu destino.

O mesmo não ocorre com Newt. Suas habilidades mágicas, embora nada extraordinárias, em momento algum são postas em xeque; não há a necessidade de provar-se um grande bruxo. A bem da verdade, Newt é deveras seguro de si e de suas capacidades, bem como sua personalidade não é balizada pelos dilemas existenciais de alguém que precisa encontrar o seu lugar no mundo.  Ele não duvida, em momento algum, de sua excelência como magizoologita (especialista em criaturas mágicas). Ao contrário, ele apresenta uma desenvoltura ímpar no seu trabalho. No decorrer do filme, vemos não apenas que Newt é apaixonado por sua profissão, como possui uma grande sensibilidade para compreender as necessidades dos seus animais, tratando-os com respeito, amor e segurança. Ademais, a jornada pessoal de Newt não consiste em deixar de ser o que ele é para tornar-se verdadeiramente o herói, tampouco ele se torna o herói a despeito de sua excentricidade e inaptidão social. Não estamos diante do velho clichê do garoto nerd e deslocado que supera a si mesmo e, com isso, torna-se popular e desejado. Seu modo de ser não é encarado, no filme, como um obstáculo a ser superado, mas a condição sine qua non de seu status de protagonista e herói.

Dando aquela alfinetada, mas com elegância e classe.

É justamente a vulnerabilidade e a suposta “feminilidade” – evoco esse termo como uma provocação aos que realmente acreditam que a sensibilidade é uma prerrogativa feminina e, portanto, inferior do ponto de vista dos estereótipos de gênero – de Newt que faz dele um herói, suas supostas fraquezas é que são, na realidade, a fonte de toda a sua força. Ele pode não ser forte fisicamente ou poderoso com feitiços, mas ele é profundamente empático. Sendo que tal empatia não tem como foco apenas as criaturas mágicas das quais ele cuida, mas também os humanos. Newt considera as leis bruxas americanas retrógradas, isso é significativo, uma vez que elas nada mais são que um artifício alegórico para as leis segregacionistas com relação a brancos e negros, tão em voga nos EUA na década de 20, período no qual se passa o filme. Sua inépcia social não o impede de genuinamente se importar com todos a sua volta. Sua evolução como herói não consiste em tornar-se mais forte para enfim derrotar o grande mal, mas em criar laços com aqueles que o acompanham eu sua jornada. E o afeto que ele recebe daqueles que o acompanham, como a Tina e o próprio Jacob, nasce da admiração pelo que ele é. É por essa razão que o considero um protagonista tão ímpar e que deveríamos toma-lo como exemplo de que é possível representar positivamente a masculinidade dentro da cultura pop.

Leis que segregam grupos de pessoas por suas diferenças? Já vi isso em algum lugar.

As características masculinas que são exaltadas pela cultura pop em geral podem ser agrupadas numa categoria chamada de masculinidade tóxica. Ao contrário do que muitos imaginam, a masculinidade tóxica não visa reprimir ou inferiorizar a masculinidade em si, mas destacar aqueles comportamentos que, apesar de serem tidos como normais – “Ah, são apenas garotos!” -, carregam consigo, em maior ou menor grau, traços de misoginia e violência.  Em um outro vídeo, intitulado What is Toxic Masculinity?, Jonathan Macintosh apresenta as principais características que delineiam a masculinidade tóxica; são elas:

– Distanciamento afetivo.

– Hipercompetitividade.

– Agressividade.

– Intimidação.

– Violência.

– Objetificação sexual.

– Sexualidade predatória.

Caro leitor, se ainda não ficou claro, peço gentilmente que faça o seguinte exercício mental:  pense em seus heróis masculinos e procure identificar neles as características acima elencadas. Estou certo de que você identificará ao menos uma delas. De fato, não é difícil notar a frequência de tais comportamentos. E não seria um problema se eles fossem apresentados de forma crítica ao espectador, matérias como esta são necessárias à medida que a cultura pop não só é permissiva quanto a masculinidade tóxica, como também a eleva ao patamar de um ideal a ser almejado para que meninos se tornem homens; homens, como eu havia dito anteriormente, com “h” maiúsculo.

Goldfinger (1964) – Bond, o protagonista e por isso bom moço, força seu par romântico a beijá-lo.

Antes de encerrar, gostaria de enfatizar outro aspecto desse filme que o torna tão especial: seu desfecho (preciso dizer que haverá spoiler?). Em uma história de aventura tradicional, o clímax é esperado como sendo o derradeiro e épico embate entre o herói e o vilão, embate esse que, via de regra, termina com a morte do vilão sobrepujado pela força ou astúcia do herói. Mas em Animais Fantásticos temo nossa expectativa brilhantemente subvertida pelo roteiro. Jonathan Macintosh é deveras feliz ao ressaltar que a derrota do monstro é construída de modo a ser recebida pelo espectador com pesar, e não como um momento apoteótico em que o Bem vence o Mal. Esperamos, condicionados pela estrutura tradicional das histórias fantásticas, que ao final de uma aventura experimentemos, ao lado do herói, o êxtase da celebração de uma vitória incontestável. Entretanto, como diz Jonathan Macintosh: “Neste filme, derrotar o monstro é mostrado como uma tragédia porque eles não puderam salvá-lo.” Newt é guiado por sua natureza empática, ao invés de acentuar o conflito, ele procura dissipá-lo, ao mostrar que ele não só compreende o monstro como acredita poder recuperá-lo. E embora o monstro seja não derrotado, não é Newt quem o derrota, mas curiosamente aqueles que representam o que ele contesta: os agentes da lei de um governo segregacionista e intolerante. Poderíamos resumir esse filme não a uma clássica luta do Bem contra o Mal, mas como a história de uma injustiça e de como o monstro é fruto dessa injustiça, e não de uma suposta maldade natural.

Como espero ter mostrado, por trás de tais subversões formais de roteiro e narrativa, há uma subversão ainda mais profunda, que é a das expectativas estereotipadas que a sociedade constrói acerca da masculinidade.  Recordo-me de ter saído do cinema extremamente feliz e satisfeito com Animais Fantásticos, pois pude ver a mim mesmo refletido em Newt. Os heróis em geral são para mim algo distante, pois não comunicam nada realmente significativo para a minha formação tanto de apreciador de arte quanto como sujeito. Raramente me vi num personagem a ponto de não só entende-lo como também senti-lo. Eu não sou, nem nunca quis ser, Harry Potter, mas certamente sou Newt Scamander. Meu desejo é de que com essa nova safra de diretores e roteiristas, Hollywood se abra para a possibilidade de contar novas histórias, enaltecendo novas formas de ser e de estar no mundo. Que essa coragem e ousadia se espalhe para outras mídias, como os videogames, e que possamos ter representações mais positivas e, por que não, humanas, da masculinidade.

 

Imagem de destaque:

Foto de divulgação do filme.
Facebook Comments

Sobre o autor

Raony Moraes
Resenhista da Tudo éX Texto, estudante de filosofia em hiato acadêmico, desenvolvedor independente de jogos eletrônicos e escritor amador. Catarinense de nascença, vive atualmente no interior de SP, mas pretende retornar à Curitiba, cidade que considera a sua verdadeira casa. 🙂

Raony Moraes

Resenhista da Tudo éX Texto, estudante de filosofia em hiato acadêmico, desenvolvedor independente de jogos eletrônicos e escritor amador. Catarinense de nascença, vive atualmente no interior de SP, mas pretende retornar à Curitiba, cidade que considera a sua verdadeira casa. :)

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: