MATÉRIA | Diálogos entre o Sensacionismo de Alberto Caeiro e a Filosofia da Imanência de Nietzsche

Através de um paralelo entre o pensamento da sensação dado na obra de Alberto Caeiro e a concepção de Amor Fati de Friedrich Nietzsche, Cleverson Honório nos propõe com este artigo em estilo ensaístico a aceitar o sentir pelo sentir.

Introdução:

Confesso que sempre tive um certo receio de me colocar a estudar autores já consagrados, cânones dentro da língua portuguesa como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Guimarães Rosa e Drummond. Esses nomes sempre passaram longe na minha imaginação quando o assunto é escrever um artigo, por exemplo. Sempre me senti mais à vontade falando sobre figuras como Waly Salomão, Jorge Mautner, Arrigo Barnabé e Sérgio Sampaio, que são figuras marginais dentro da nossa gama de artistas que produzem em língua portuguesa, seja na música ou literatura. No entanto, Fernando Pessoa, um desses autores cânones, me chamou a atenção pelo contato que tive com obras póstumas de seus heterônimos como o “Livro do Desassossego” (1982), de Bernardo Soares, e “O Guardador de Rebanhos” (1925) de Álvaro de Campos, além de todo o incômodo e teorias que giram em torno da questão da heteronomia mesmo. Ao contrário da distância da obra dos outros autores, Pessoa goza de uma popularidade e facilidade de circulação, sendo o tipo de autor que, possivelmente, num dia ao acaso no bar ou na rua, se você esbarrar por aí com algum amigo acadêmico, intelectual ou até mesmo um amante de literatura não tão viciado, ele vai citar ou conhecer algum trecho de “Tabacaria”.  Sempre achei que pairava em torno dele uma aura que o colocava numa posição paradigmática em relação, por exemplo, a ideia de gênio da geração (com toda razão, Álvaro de Campos, um de seus heterônimos mais conhecidos, iria discordar veementemente da ideia de individualidade por trás do conceito de “gênio”).

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Todas essas questões me levaram a fazer um breve estudo sobre a gênese de seus heterônimos, em especial, sobre Alberto Caeiro e “O Guardador de Rebanhos” – um conjunto de 49 poemas escritos pelo heterônimo Alberto Caeiro, produzidos inicialmente em 1914 e publicado em 1925 na revista Athenas. Para esse estudo selecionei dois poemas presentes no Guardador: V – “Há Metafísica Bastante em Não pensar em Nada” e II – “O Meu Olhar”. Meu objetivo aqui é colocar em movimento a teoria do Sensacionismo discutida por Zeneth (2015), especialmente no que se refere ao sentido da visão, e sobretudo, dialogar com o conceito de Amor Fati em Nietzsche, que em nossa interpretação reverberam nas discussões sobre os limites do pensamento e da linguagem na modernidade. O texto, para fins mais didáticos, será dividido em três momentos, onde abordarei 1) a gênese de Alberto Caeiro e a filosofia do Sensacionismo, 2) a relação do poema V de O Guardador de Rebanhos com a filosofia de Nietzsche, em especial o conceito de Amor Fati 3) A crítica aos limites da linguagem em Nietzsche e Caeiro por meio do II poema de O Guardador de Rebanhos. Nossa hipótese aqui é a de que o pastor-poeta Caeiro nos convida a desaprender a se relacionar com o mundo pelo pensamento, e reaprender a vê-lo como ele é: com o nosso corpo e nossos sentidos, em especial, a visão.

Gênese do Heterônimo e O Sensacionismo:

Para iniciarmos a discussão, é necessário retomar a gênese do heterônimo de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro. Segundo Pessoa, em carta destinada a Adolfo Casais Monteiro, em 1935, o autor passava a alguns dias tentando elaborar um poeta “de espécie bucólica, complicada”, sem êxito. Foi então que numa noite de insônia, segundo suas palavras:

            “Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre” (1935, p.4)

A história acima diz que por um rompante fora de seu controle, possuído como se fosse por uma força superior, surge Caeiro. Esse episódio nos ajuda a situar sua estética e escrita. Não é através da reflexão, do pensamento, da razão cartesiana que sua estética é produzida. Aparentemente, podemos até argumentar que por exemplo, todo ato de escrita demanda reflexão anterior, mas isso não seria do feitio desse heterônimo, pois como F. Pessoa diz na mesma carta, “pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática” (1935, p.2). Em outras palavras, o “eu” não determina nada, sua poesia é efeito sensorial do mundo e das coisas sobre ele.  A razão é submissa a visão e as sensações do mundo. E também, pouco importa como o mundo é, mas como sentimos ele.

E quem era esse homem, como vivia, qual era sua educação, como escrevia? “Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma.” (1935). De instrução primária, era um homem caseiro, bucólico, isolado, vivendo de pequenos rendimentos. Nosso homem escrevia por “pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever”. Seus versos são livres, lembrando a naturalidade de um discurso oral de um homem da antiguidade mirando uma paisagem e tecendo suas impressões sensoriais sobre ela. Embora de sabedoria de ordem mais empírica do que teórica, Caeiro era mestre de Alvaro de Campos, Ricardo Reis e do próprio F.Pessoa. Foi ele quem teorizou o Sensacionismo, como explica Richard Zenith:

“o sentir do mestre, Alberto Caeiro, é supostamente sensorial, como se a visão fosse uma máquina fotográfica e a audição um simples gravador de sons [“as coisas devem ser sentidas tal como são”; “Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…” (O Guardador, II)]. Na verdade, os seus poemas explicam continuamente que ele privilegia os cinco sentidos, sobretudo o da visão. Afigurar-se-ia que o poeta-pastor prefere o verso livre para poder moldar, com toda a naturalidade, as suas palavras à realidade que descrevem, mas não é isso que acontece. O versilibrismo de Caeiro é um simulacro da Natureza; imita a sua forma livre, espontânea, irregular. Em vez de escrever com base na observação, a sua poesia apresenta uma ideia da Natureza” (2015, p10)

            Dito isto, podemos olhar para o Sensacionismo de Caeiro como uma provocação a mimesis da natureza pelos cinco sentidos, em especial, a visão. Não há segredo, não há nada a ser decifrado no mundo, mas simplesmente o mundo, como ele se apresenta. Ou seja, sua poesia nos chama a atenção para a necessidade de querer-se tudo exatamente como se é. O versilibrismo dele nos aponta para a imanência da natureza nas suas palavras.

            Nietzsche, Amor Fati em “Há Metafisica Bastante em não pensar em Nada”:

Aceitar o mundo, dizer sim a ele, foi também uma tarefa com a qual outro pensador, do final do século XIX (e que teve muito impacto no século XX) se debruçou. Estamos falando de Nietzsche e seu conceito de Amor Fati. Amor Fati (do latim, amor ao destino) é aceitar a imanência do mundo, aceitar o devir das coisas em sua feiura e beleza, reconciliar-se com o real, abdicar do cogito (dúvida) como princípio delimitador do “eu” no mundo. Nietzsche tinha como alvo o pensamento cristão, que tentava retirar o homem do mundo, com uma moral fraca onde o corpo e as sensações deveriam se submeter de forma passiva ao espírito e ao “além-mundo”, seja lá qual for este. Vejamos este aforismo em Gaia Ciência:

“Amor fati: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz sim! (2001, 276.)

            Negar o mundo é um sintoma do mal-estar no espírito do homem,  se expressando também na “acusação contra os acusadores”, acusação de que o mundo deveria ser diferente, que deveria ser aquele que nós desejamos. A razão, então, o ato de pensar, “penso, logo existo”, de Descartes, é um sintoma de uma moral fraca, um sintoma de um homem doente. Podemos ver esse sentimento comum em Caeiro, nas primeiras estrofes do V poema de O Guardador de Rebanhos:

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

 

 Que idéia tenho eu das cousas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

Há metafísica bastante em não pensar em nada” é uma provocação de Caeiro no sentido de que a maioria das filosofias ocidentais se preocuparam a procurar um princípio, uma razão primordial no mundo, uma categoria essencial que justifique a razão e o homem. Mas que importa isso? Que importa a verdade? O homem não precisa da verdade, o homem precisa apenas dizer “sim” as coisas tais quais elas são. Pensar não é o caminho escolhido pelo poeta. Pensar é fechar os olhos. Seu discurso, de teor imperativo, se aproxima ao de um profeta visionário que afirma aquilo que vê, que tem certeza do que sente, e diante disso, não precisa da dúvida. Não há como deixar de sentir o mundo, porque não existem cortinas. A ideia de que podemos nos retirar do aqui e agora pra pensar um outro além-mundo é absurda.

Problemas tão caros à tradição do pensamento ocidental  como “é possível conhecer a essência das coisas?” “Como podemos provar a existência de Deus e a Alma” “Como se deu a origem do universo” não importam para Caeiro. Engana-se também quem acha que não há profundidade em aceitar o mundo. Pelo contrário, quando aceitamos ele, temos de lidar com sua multiplicidade, com a dor e alegria de estarmos vivos. Há muita metafísica por trás disso.

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas cousas cheias de calor.

 

Mas abre os olhos e vê o sol,

E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.

 

            Mistério é haver quem pense no mistério das coisas. As coisas não fazem sentido? Não existe uma lógica capaz de dobrar o mundo em nossas mãos? Que seja, o sol continuará a nos aquecer. Pensar no sol é fechar os olhos. A luz do sol vale mais que toda tradição de pensamento ocidental, e ela é amoral, está acima do bem e do mal, por isso não erra e é comum e boa. O niilismo ativo de Nietzsche pode ser visto na poesia de Caeiro. A linguagem não deve explicar o mundo, representar ele, mas afirmar ele, criar uma moral. Se não há sentido, usemos do amor fati, aceitemos nosso destino manifesto, aceitemos o sol e vamos nós, então, dar sentido ao mundo. O “sol”, figura de claridade, muito usada como símbolo de sabedoria, não está no pensamento, mas na aceitação das sensações que ele nos proporciona. Não precisamos da razão para entender o sol, precisamos apenas do olhar para ver e do corpo para sentir, e entrarmos em comunhão com ele.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?

A de serem verdes e copadas e de terem ramos

E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,

A nós, que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas,

Que é a de não saber para que vivem

Nem saber que o não sabem?

 

“Constituição íntima das cousas”…

“Sentido íntimo do Universo”…

Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.

É incrível que se possa pensar em cousas dessas.

É como pensar em razões e fins

Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores

Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

A metafísica clássica, como a Platônica, divide o mundo em dois: o mundo das ideias, ou o mundo verdadeiro, que seria um mundo belo onde as coisas estariam acabadas, em suas formas puras, e o nosso mundo, o mundo sensível, seria uma versão degenerada, impura, imperfeita e impermanente deste. Essas formas puras teriam origem na ideia de bem – Ou Deus – que a causa produtora de todas as outras ideias. Essas ideias perfeitas seriam inacessíveis aos nossos sentidos.

O que Caeiro propõe, nos trechos acima, é a inversão da metafísica platônica, tal qual o projeto de Nietzsche. A metafísica não estaria num plano inalcançável, intangível, mas exatamente em nossa frente, na metafísica da árvore dando fruto, no devir de ter a qualidade de ser verde. Não há mais oposição entre aparência e essência. Ela não sabe que dá frutos, não têm consciência de sua cor, mas a cor está a nos afetar, e por isso, produz melhor metafísica do que a nossa. Decorre disso que, se existe um Deus, ele seria imanente, o que adiciona um componente pagão ao pensamento de Caeiro. Pouco importa a causa e o efeito das coisas aqui. Não há nada que liga um fato ao outro, a não ser o pensamento e abstração em torno de dois fenômenos ocorridos no espaço e tempo.

 

Pensar no sentido íntimo das cousas

É acrescentado, como pensar na saúde

Ou levar um copo à água das fontes.

 

O único sentido íntimo das cousas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.

Se ele quisesse que eu acreditasse nele,

Sem dúvida que viria falar comigo

E entraria pela minha porta dentro

Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos

De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,

Não compreende quem fala delas

Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

            Pensar na saúde ou levar um copo à água das fontes é um ato ridículo porque isso não fará com que ficamos mais saudáveis ou menos, e o copo é um recipiente muito pequeno para abarcar uma fonte. Pensar é apequenar o mundo, e não faz sentido pensar nele. Novamente, como Zeneth nos apontara, Caeiro não tem nenhuma filosofia, mas apenas seus sentidos. Se Deus não fala com ele, ou seja, se não o alcança por meio de um dos sentidos de seu corpo, ele não pode existir.

Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda a hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

 

Mas se Deus é as árvores e as flores

E os montes e o luar e o sol,

Para que lhe chamo eu Deus?

Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;

Porque, se ele se fez, para eu o ver,

Sol e luar e flores e árvores e montes,

Se ele me aparece como sendo árvores e montes

E luar e sol e flores,

 É que ele quer que eu o conheça Como árvores e montes e flores e luar e sol.

            Se Deus são as coisas, as flores, árvores, montes, sol e o luar, o poeta pode acreditar nele, pois a poesia de Caeiro só crê naquilo que pode ser sentido, aquilo que pode ser visto. Mas se a todas essas coisas foram feitas para serem diferentes umas das outras, causarem sensações diferentes, por Deus, porque devo chama-las por apenas uma palavra? O paradoxo do uno e do múltiplo também é um dos problemas enfrentados por filósofos na tentativa de explicar a essência das coisas. Como tudo é diferente, devemos dizer “sim” a diferença e não a reduzir a uma única deidade. O amor fati implica também em aceitar a multiplicidade das coisas, dos prazeres e dores.

E por isso eu obedeço-lhe,

(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).

Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,

Como quem abre os olhos e vê,

E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,

E amo-o sem pensar nele,

E penso-o vendo e ouvindo,

E ando com ele a toda a hora.

            Não é preciso que haja uma explicação de Deus, nem que ele já uma coisa só, para que se conheça Deus. Ao abrir os olhos e ver o luar, o sol, flores, arvores e montes, ao ato de dizer sim a imanência do mundo, das sensações e das coisas, amamos a Deus, porque Deus é todas as coisas e todas as coisas são Deus. Caeiro redefine e ressignifica o ato de pensar, que agora se faz com os olhos e os corpos quando ele anda. Nossos pensamentos são fruto dos afetos que ver, ouvir e andar nos produzem, amando a existência em sua plenitude e superando o niilismo passivo, ao dizer sim a tudo pelo amor fati. Como reitera Nietzsche:

“Minha fórmula para a grandeza no homem é amor-fati: não querer nada de outro modo, nem para diante nem para trás, nem em toda eternidade. Não meramente suportar o necessário, e menos ainda dissimulá-lo – todo idealismo é mendacidade diante do necessário -, mas amá-lo“ – (1998, §10)

Os limites da linguagem em Nietzsche e a potência do olhar em Alberto Caeiro:

Diante disso, chegamos ao nosso terceiro ponto: como se constrói o pensamento e a ideia de um “eu” racional, consciente, capaz de determinar o sentido do mundo a lógica? Por meio da linguagem. É ela quem estrutura o pensamento, da signo e significante para as coisas. Subjaz então, a partir das observações acima, que o convite ao imanente, o convite ao Sensacionismo, ao Amor Fati, é um convite ao abismo: a linguagem é o limite que nos separa de sentir as coisas, e, mais do que isso, as palavras não são as coisas. Como afirma Nietzsche em “Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral”:

O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas.” (2000, pg. 34)

                Caeiro quer nos ensinar a desaprender o mundo como nos ensinaram, ou seja, filtrado pela linguagem e a razão. O Sensacionismo não é uma forma de pensar o mundo, mas uma forma de estar no mundo, um devir do homem. Os poemas de O Guardador de Rebanhos são ensinamentos para o homem moderno, um ensinamento vindo de um mestre bucólico, solitário, que afirma a necessidade do sentir.

A linguagem limita nosso olhar, pois nivela e iguala todas as coisas como se fossem as mesmas, como se houvesse uma verdade e semelhança que a linguagem é capaz de resguardar. Caeiro confronta isso no poema II d’O Guardador de Rebanhos, que reproduzo abaixo na integra:

II –             O Meu Olhar/ O meu olhar é nítido como um girassol / Tenho o costume de andar pelas estradas/ Olhando para a direita e para a esquerda/ E de, vez em quando olhando para trás…/ E o que vejo a cada momento/ É aquilo que nunca antes eu tinha visto / E eu sei dar por isso muito bem… / Sei ter o pasmo essencial/ Que tem uma criança se, ao nascer/ Reparasse que nascera deveras…/ Sinto-me nascido a cada momento/ Para a eterna novidade do Mundo…/Creio no mundo como num malmequer/ Porque o vejo/ Mas não penso nele/ Porque pensar é não compreender …/O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos)/ Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…/Eu não tenho filosofia: tenho sentidos… / Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é/ Mas porque a amo, e amo-a por isso /Porque quem ama nunca sabe o que ama/ Nem sabe por que ama, nem o que é amar …/ Amar é a eterna inocência/ E a única inocência não pensar…

Podemos encontrar nesse poema II a síntese dos ensinamentos do pastor-poeta em O Guardador de Rebanhos: 1) O elogio ao olhar 2) o elogio a diferença pois nunca se olha para a mesma coisa 3) a crítica ao pensamento, que cega nossos olhos em sua plena potência 4) a negação da filosofia e o convite aos sentidos 5) a natureza como mediação dos sentidos, não como verdade a ser dominada e descoberta 6) O amor como práxis para manter-se inocente perante o mundo e as coisas.

Aquilo que não aparece n’O Guardador de Rebanhos também nos ajuda a entender a ética de Alberto Caeiro: não há interlocutores ou quaisquer outros homens com os quais o eu-lírico tem contato. A sociedade está ausente nessa obra. A relação que observamos e é motivo de depuração é aquela entre homem e natureza. Ou mais exatamente, os sentidos do homem afetado pela natureza. Minha hipótese é a de que a sociedade, por ser essencialmente mediada pela linguagem, seja verbal ou visual, é em si mesma doente para Caeiro. A única maneira de sentir as coisas a rigor, seria pelo isolamento. Podemos encontrar o mesmo paralelo nisto no Zaratrusta de Nietzsche.

Conclusão:

Sem mais delongas, nossa exposição dos poemas V e II da obra O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro teve como intenção aproximar o leitor do texto original a luz da filosofia da imanência do Nietzsche, com o conceito de Amor Fati – o amor ao destino e o dizer “sim” as coisas – e o convite ao Sensacionismo pelo afastamento do pensar, convite que enxergamos ser feito pelo pastor-poeta criado por F. Pessoa. Alberto Caeiro representa a tentativa de trazer uma episteme de outros tempos a modernidade, mostrando que não é somente pela ruptura que o modernismo português se constrói, mas também pela continuidade.

clevãoCleverson Willian Honório é estudante de graduação do curso de Letras-Português da UTFPR. Seus interesses giram em torno do estudo da obra poética de Fernando Pessoa, Manuel Bandeira e Wally Salomão, bem como sua relação com o pensamento moderno e pós-moderno. Teve passagem entre 2012 a 2015 no curso Ciências Sociais na UFPR, com ênfase em Sociologia e Antropologia, o que o influenciou a ter um olhar contextual sobre a literatura. Também é músico, especialmente apaixonado pelos compositores brasileiros setentistas conhecidos como ‘malditos’, como Jards Macalé, Sérgio Sampaio e Luiz Melodia.

 

Referências Bibliográficas 

ZENITH, Richard. Campos Triunfal. Revista Estranhar Pessoa / N.º 2, out. 2015

PESSOA, Fernando. Carta a Adolfo Caisais Monteiro. 1935.

__________________ O Guardador de Rebanhos de Alberto Caeiro. Revista Athenas. 1924.

NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência (tradução de Paulo César de Souza). São Paulo: Companhia das Letras, 1ª ed. 2001.

___________________Ecce Homo. São Paulo: Ediouro, 1998.

_______________________ Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral (1873) in Obras Incompletas, São Paulo: Editora Nova Cultura, 2000.

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