MATÉRIA |O que Saga nos ensina sobre as possibilidades dos quadrinhos, por Isabella Fernandes

Robôs. Chifres. Asas. Gigantes. Drogas. Sexo. Família. Lealdade. Magia. Crescimento. Parecem palavras não relacionadas, impossíveis de conciliação. Mas todas elas encontram seu sentido em Saga, a série de quadrinhos criada pelo casal Brian K. Vaughan e Fiona Staples, tendo sua primeira edição publicada em março de 2012.

Nas palavras de seu próprio criador, ninguém acreditava muito na ideia: “Esse é um livro de fantasia original sem super heróis, dois protagonistas não brancos e um capítulo de abertura apresentando sexo gráfico com robôs. Achei que seríamos cancelados na nossa terceira edição”. E isso tudo sem contar a tradição em que – até então – quadrinhos originais não costumavam ir longe na indústria.

Mas, contrário às expectativas, Saga foi um grande sucesso desde o início.

Até agosto de 2012, seu primeiro volume já tinha vendido 70 mil cópias e foram solicitadas 5 reimpressões. A série recebeu 12 prêmios Eisner, 17 prêmios Harvey e 1 prêmio Hugo, além de ser tornar um dos livros mais vendidos do New York Times na sua categoria.

Saga apresenta um universo em guerra desde tempos imemoriais. Os originários do conflito são as Asas e os Chifres, duas raças que habitavam o mesmo sistema solar e, cansados de se destruírem, expandem a guerra para o resto do universo.

Conhecemos Alana e Marko, um casal formado por, respectivamente, uma mulher de asas e um homem de chifres. Unidos pelo amor pela literatura, a guarda da prisão e seu prisioneiro se encontram com um grande problemas em mãos quando Alana engravida. Durante as próximas edições, o casal vai enfrentar todas as dificuldades para fugir de seus destinos e proteger sua filha Hazel. A menina, que possui ambos asas e chifres, é a narradora do quadrinho. A narração é feita a partir de um ponto no futuro em que Hazel já é adulta e está recontando a história dos pais. Os leitores sempre podem confiar nela para apresentar uma conclusão sobre a vida em um rabisco no canto da página ou uma
resposta sarcástica em momentos inoportunos. Constantemente, as duas coisas ao mesmo tempo.

A grande força de Saga é a sua consistência. Em 7 anos de publicação, a história permanece intrigante, a qualidade da arte se mantém e o universo se expande cada vez mais. Em uma época de multimedia storytelling em que séries de televisão se estendem por temporadas sem fio por algumas pratas a mais, franquias multimilionárias de filmes se estendem além do que pode ser acompanhado pelo cidadão comum, e séries de livros lançam novas sequências quase injustificáveis, Saga se apresenta como uma resistência, uma prova de que é possível produzir com qualidade por longos períodos de tempo.

Há diversos elementos que fazem de Saga o sucesso que é: seu universo intrincado composto por toda sorte de alienígenas desde príncipes robôs com cabeças de televisão até planetas bebê gigantes flutuando pelo cosmos; sua arte de tirar o fôlego, evidenciando as dimensões imensas dos mundos explorados; sua diversidade de personagens, tanto racial, quanto de gênero e sexualidade; seu diálogo natural e ao mesmo tempo contundente. Mas talvez o mais importante de todos seja seu meio: Saga não poderia ser qualquer coisa senão um quadrinho.

Tendo dois criadores com grande experiência na produção de quadrinhos, ambos sabem tomar proveito do seu meio até a última gota. O meio permite a exploração do universo em toda a sua glória – e que glória! O senso de grandiosidade e de escala a partir da manipulação dos quadros e de páginas inteiras é um grande exemplo de como os atributos dos quadrinhos podem ser manipulados para atingir emoções.

Saga: Issue 37. Bryan K. Vaughn e Fiona Staples. 2016.

A passagem de tempo na história também é um elemento interessante e que possui mais ramificações do que se imagina. Conforme explica Scott McCloud em seu Desvendando os Quadrinhos (1995), a passagem de tempo entre um quadro e outro é grande parte do que constitui a história em quadrinhos. É o que há no espaço entre dois quadros, nosso processo de conclusão, que nos entrega a chave para que possamos compreender as histórias. E Saga faz um uso exemplar dessa capacidade de conclusão. Os saltos no tempo, entre um volume e outro permitem que uma história mais longa seja contada, sem prejudicar a progressão, e aumentando não só fisicamente o espaço da história, mas também temporalmente.

Outra técnica importante utilizada é o uso da caligrafia, do chamado lettering, sublinhado por Will Eisner (2000) como uma possibilidade flexível que tem a função de adicionar alguns “pensamentos não ilustrados” ao conteúdo. No quadrinho em questão, as diferentes fontes tem a função de significar o uso de diferentes línguas, sem que o sentido seja perdido para o leitor. Isso ajuda a complementar a construção de mundos e evidenciar os níveis de realismo na história.

E realismo é um pecado do qual Saga é completamente culpado, embora a palavra realismo veja recheada de significados que não se encaixam no quadrinho. Mais do que real, o quadrinho é honesto. E isso vem das próprias experiências do casal Vaughn e Staples. Em entrevista concedida em ainda em 2012 Bryan K. Vaughn disse que pensou em retornar aos quadrinhos originais na mesma época em que ele e Fiona Staples decidiram ter um filho. E para ambas as coisas foi dita a mesma coisa: como você espera criar um filho/quadrinho nesse mundo/economia?

E o quadrinho carrega todas as dúvidas sobre a vida, as vulnerabilidades da paternidade e do casamento, as dores do crescimento e os arrependimentos do passado, tudo embrulhado em um pacote cheio de aranhas alienígenas caçadores de recompensa e peixes gays jornalistas. Sua crítica, assim como é de praxe na ficção científica, provém da expansão do que já existe, da deturpação do normal e sua transformação no que nos desafia – exemplo disso são as séries famosas Black Mirror e o Conto da Aia.

E o aspecto final do seu realismo – e outra razão pelo qual Saga só poderia ser um quadrinho – está na forma do conteúdo maduro. Em ambas questões de violência e sexo, o quadrinho é absolutamente sem censuras. Planetas de escravos sexuais e cidades de aborto no velho Oeste são apenas alguns dos lugares menos orgulhosos da galáxia, mas que são mostrados de qualquer maneira.

Mas é justamente o uso da brutalidade destas cenas que se encontra a pérola mais preciosa de Saga: a sua humanidade sem par. Embora nenhum dos personagens seja humano, quando expostos à estas situações, munidos de todos os seus defeitos e qualidades, a história de Vaughn e a arte de Staples nos puxam para dentro destes dilemas, destes vícios, desafiando-nos a procurar saídas para problemas insolúveis. É o meio da falta de significados, da fluidade da morte dos personagens que, como na vida, encontramos significados.

E esta é a grande lição de Saga para os quadrinhos – entre todas as outras descritas neste artigo. É o que Scott McCloud já discutia na sua teorização sobre o cartoon em 1995: diante do humano estilizado, da transformação das características que nos faz identificar personagens com pessoas reais, reside a resposta para o nosso engajamento com tais personagens, para a nossa identificação com eles: projetamos nossa própria identidade, sentimos sua dor, caminhamos na sua pele.

E caminhar em um universo tão vivo, com personagens tão intensos, por meio de uma mídia tão bem utilizada, de forma tão realista é um respiro bem vindo em um meio que muitos juraram estar caminhando para sua cova.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

How Is Saga Still So Good? Johnaton O. Rose-Lyon. 2018. video.
Scott McCLoud. Desvendando os Quadrinhos. 1995.
Will Eisner. Comics and Sequencial Art. 2000.
Brian K Vaughn launches Saga at Meltdown Comics. 2012. Video.

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