MATÉRIA | Pelo caminho da criatividade

texto por Ana Luiza

Gabriela Lopes, autora do blog Desimportaciass, escreve desde muito pequena, incentivada pela mãe que a enchia de cadernos e livros. “Quando eu tinha mais ou menos nove anos eu comecei uma historinha para escola em um caderno e gostei muito dela. Gostei tanto que arranquei todas as outras páginas preenchidas de outros textos e continuei escrevendo essa história. Depois disso, tudo que eu lia, tudo que eu assistia, tudo me dava vontade de fazer algo parecido. Mas parecido no sentido de ser criativo o suficiente, como eu pensava que aquelas coisas eram”, conta. Para alcançar o que queria, ela sempre tentava reproduzir ou mudar aquilo com que tinha entrado em contato. “Se eu lia um livro e não gostava do final, então eu mudava a história do livro. Falava: não, a minha versão vai ser diferente.”

Criativa, original. Ao escrever, qual escritor nunca desejou produzir uma obra assim? No entanto, nem sempre se consideram criativos ou confiam na própria capacidade de criar, deixando o desejo murchar ou ficando à espera da criação bater à porta. Mas para passar pelo caminho da criatividade, ninguém deveria ter medo de começar a andar.

Definindo a criatividade

Trabalhar com definições quase sempre dá a sensação de que se come um pedacinho daquilo que se fala. As definições de criatividade são tantas que é possível perder-se só na tentativa de encontrar uma única explicação. Mas de uma forma simples, podemos pensar a criatividade como uma força, um processo gerador de algo novo ou não esperado para determinada situação. Isso significa dizer que, de certa forma, o processo criativo envolve originalidade ou a capacidade de tentar respostas diferentes a um mesmo problema.

Resultado de imagem para muses pozzoserrato
The Nine Muses, do artista Pozzoserrato. Na antiguidade, a inspiração dos artistas para criar na poesia era atribuída às musas ou a outras divindades como a do deus Apolo. No processo de criação, o artista podia ser entendido como aquele que expressava pela divindade, conforme os desejos e interesses dos seres superiores, por vezes perdendo até o controle de si mesmo. Mas essa não fica sendo para sempre a causa única do ser criativo: com o passar dos anos a humanidade parece desconstruir a necessidade de uma ligação ou motivação de uma divindade para que o ser humano seja criativo, deixando, por exemplo, de ser obrigatoriamente uma ferramenta divina e fazendo parte do que caracteriza a natureza humana. Crédito da foto: Artnet Worldwide Corporation.

Além disso, acredita-se que a criatividade não depende apenas do indivíduo criativo, mas também do produto que ele acaba por criar e das influências ambientais sobre o criador – ou até mesmo sobre a obra criativa. Isso significa pensar que não basta olhar para si mesmo no momento de buscar a criatividade; esse momento é importante, mas não único nessa caminhada.

O que envolve a criatividade

Para falar desses fatores que podem influenciar na criatividade, vale abordar aqui brevemente algumas das contribuições teóricas psicológicas mais recentes sobre o tema. Uma delas, a Teoria do Investimento, afirma que uma pessoa irá ter um comportamento criativo quando seis fatores distintos convergirem: a inteligência, o estilo intelectual, o conhecimento, a personalidade, a motivação e o contexto ambiental. Você pode dar uma olhada nesses fatores e observá-los na sua produção no momento em que escreve.

Inteligência e estilo intelectual

A inteligência estaria ligada a habilidade da pessoa de ver temas ou problemas sob um novo ângulo, saber reconhecer dentre as próprias ideias em quais vale a pena investir e também a habilidade de convencer as pessoas a respeito do valor das próprias ideias. Quanto ao estilo intelectual, ou a forma de cada pessoa de explorar a própria inteligência, três são; divididos entre estilo ‘’legislativo’’, ‘’executivo’’ e ‘’judiciário’’. Na maioria das vezes, a pessoa tem preferência por determinado estilo. Os criativos costumam preferir o estilo do tipo “legislativo”, por que esse implica na formulação de problemas e na criação de novas regras e maneiras de ver as coisas.

Foto 2
Os outros estilos intelectuais, o “judiciário” e o “executivo” são: preferência por julgar, avaliar pessoas, tarefas e regras, emitir opiniões e avaliar as dos demais (judiciário) e gostar de implementar
idéias em problemas cuja estrutura já seja bem clara e bem definida. Créditos da foto: Banco de Imagens gratuito pixabay.

Conhecimento

Já o fator conhecimento terá mais a ver com o quanto a pessoa conhece daquela área com a qual deseja contribuir. Desejar criar em uma área de que nada conhece pode facilmente cair no trazer soluções que já existiam, e na incapacidade de identificar os problemas que realmente existem a respeito do que você está desejando tratar. Para a criatividade, tanto o conhecimento formal (o que se adquire com os livros, palestras e outros meios de instrução) quanto o informal são importantes (o que se adquire com a prática e dedicação a uma determinada área, quase nunca explicitado).

Personalidade

Em relação à personalidade, para esta teoria é mais certo que o comportamento criativo acontece entre aqueles que se predispõem mais ao risco, que tem tolerância à ambiguidade, coragem para expressar as novas ideias, perseverança ao topar com obstáculos e um grau suficiente de autoestima (embora não necessariamente todos esses aspectos da personalidade precisam estar presentes juntos na mesma pessoa). Dentre estas características, duas são as que se destacam: a tolerância à ambiguidade e a perseverança diante dos obstáculos.

Foto 3
Ter tolerância à ambiguidade é importante por que as ideias “necessitam de tempo para amadurecer”. Se a pessoa não desenvolve essa habilidade de apresentar soluções distintas aos problemas que aparecem por meio de aproximações sucessivas, é mais difícil chegar a uma solução adequada ou então mais fácil fechar uma ideia ainda “imatura” ou de forma impulsiva. Esse traço se liga ao da perseverança diante dos obstáculos por que a pessoa criativa precisa enfrentar constantemente os desafios do trabalho a que se propõe, principalmente quando quer apresentar uma ideia nova nessa área que atua. No caso do escritor, a obra literária. Créditos da foto: Banco de imagens gratuito Pixabay.

Motivação

Entender a motivação é simples: o criativo depende dos impulsos e das motivações que o levam a criar. E tanto é mais fácil ser criativo quanto mais se gosta daquilo que faz, ou seja, normalmente quando a motivação é intrínseca. Mas a motivação extrínseca, aquela que pode estar mais ligada a reconhecimento e premiações, por exemplo, também pode interagir e contribuir para movimentar a criatividade.

Contexto ambiental

Por fim, já o contexto ambiental pode agir sobre a pessoa criativa de três maneiras: na medida em que favorece as novas ideias; na extensão em que encoraja e dá suporte necessário ao desenvolvimento das ideias criativas e na avaliação feita do produto criativo.

Criatividade: um resultado do julgamento social?

Uma das outras contribuições teóricas da psicologia mais recentes sobre a criatividade, a teoria da Perspectiva de Sistemas, defende que é mais importante focar em entender a criatividade na forma em que ela pode ser encontrada na sociedade. Mais importante até do que tentar defini-la; até por que, nessa perspectiva teórica, a criatividade só acontece numa construção entre quem cria e a audiência dessa criação, fazendo com que só investigada onde o ambiente cultural, histórico e social a reconhece como criativa.

Se vale a pena ou não realmente pensar sobre isso, o fato é que o julgamento social pode impactar o público principalmente quanto às vendas do livro e à recepção das pessoas a obra. Para escritora Ana Luiza Oliveira[1], 22, que é também gerente de avaliações numa pequena empresa no Watt de concursos literários, nem sempre as obras criativas são bem recebidas. “É complicado, porque nessa questão da criatividade entram os livros experimentais (como o meu), que nem sempre são tão bem recebidos justamente por fugirem do modelo tradicional (histórias de base início-meio-fim ou de base na teoria “jornada do herói”, com a apresentação do problema, o seu desenvolvimento e depois a sua resolução)”, afirma. Para avaliar as obras, Ana diz que prefere sempre priorizar a verossimilhança e como o autor consegue lidar com o jogo de cintura da progressão de ações dentro da história. “É claro que conseguir dar alternativas impensáveis para um problema é ótimo. Mas o foco é sempre o equilíbrio e a estética. Agora, a capacidade de desenvolver a história (criatividade) é o que faz, na minha opinião, um livro bom, muito bom”, conta.

Pensar na criatividade do ponto de vista da Perspectiva de Sistemas se assemelha, de alguma maneira, ao disposto na Teoria do Investimento, mas alinhado a essa compreensão de que toda obra criativa é um fenômeno de sistemas sociais que julgam esse produto. A criatividade vai depender do indivíduo (bagagem genética e experiências pessoais), do domínio (cultura) e do campo (sistema social). Quanto ao campo, vale destacar também que é papel do autor/criador convencer esse campo do valor da ideia que possui. E para isso, para ser considera criativa, normalmente é necessária a avaliação de um grupo de “experts”.

O papel do parecerista nesta trajetória

Na txtmagazine já falamos a respeito do papel do crítico literário (parecerista). Esse profissional normalmente é aquele que pode ser visto como a ponte entre o autor e público, e também entre o autor e a própria obra, ajudando a avaliar a estrutura, a pertinência das informações, a qualidade do texto, o interesse do mercado, entre outras questões. O Laboralivros conta com dois serviços especiais voltados para quem procura esse tipo de profissional: a consultoria literária e a leitura crítica.

O “aconselhamento literário” funciona num esquema de reunião virtual em tempo real de até 40 minutos com um profissional da área literária que irá junto ao autor ler e avaliar o texto, ou mesmo discutir as ideias apresentadas pelo escritor. São especialistas nas áreas de textos de ficção, literatura e demais gêneros, além de textos poéticos e prosa com foco em temas contemporâneos.

Já a leitura crítica é um trabalho de compreensão e correção do texto a fim de esclarecer tópicos sobre clareza, coesão, construção argumentativa e desenvoltura do trabalho. Os profissionais do Laboralivros vão observar a estrutura do texto a fim de reforçá-la e ajudar a obter um trabalho escrito mais robusto.

Ficou interessado? Então acessa a página do Laboralivros e conheça os outros serviços, inclusive os cursos de escrita criativa! Confere lá. 😉

Referências

Pra fechar, esse texto não teria sido possível sem a leitura dos seguintes trabalhos (que aliás, recomendo a todos os interessados em se aprofundar no tema):

A Criatividade – uma Abordagem Transversal à Origem, aos Processos, Técnicas, Efeitos e Experiências, de José Miguel da Silva Oliveira.

Contribuições Teóricas Recentes ao Estudo da Criatividade, de Eunice M. L. Soriano de Alencar e Denise de Sousa Fleith.

Criatividade e Escrita, de Vânia Aquino e Juarez Moreira da Silva Júnior.

[1] Entre outras atividades, a Ana Oliveira é autora de dois livros infantis, tem cinco publicações em revistas literárias e coletâneas, já foi finalista do prêmio Sesc de Contos e conta também com dois livros na plataforma Wattpad, sendo eles uma autobiografia e um livro de poesias.

Facebook Comments

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: