MATÉRIA | Trinta Almodóvar, Dor e Glória

A partir de um texto que mescla o ensaio e a literatura, Bruno Nogueira realiza uma reflexão a partir do longa-metragem de Pedro Almodóvar Dor e Glória e, ao mesmo tempo, se vê em confabulações sobre o próprio avançar de sua idade e a chegada dos trinta anos.

Por um bom tempo achei ser coisa minha aquela sensação aérea ao sair do cinema. Aqueles poucos minutos em que os olhos ainda estão acostumados com o movimento da câmera, e tentam imitar.

Tudo parece cinematográfico. O homem de barba grisalha e casaco marrom que acende um cigarro na porta do cinema, a mulher olhos âmbar, cabelo afro e cachecol verde escuro que espera alguém, olhando pro longe da rua em que os postes antigos brilham amarelos e uns poucos carros atravessam a garoa. Os prédios antigos do centro da cidade recortados contra as rosa-cinzenta nuvens noturnas de sempre.

A sensação passa rápido, mas marca. Talvez esse filme do Almodóvar, tão chão, reforce ainda mais a impressão.

Salvador, personagem de Antônio Banderas e potencial representação do próprio Almodóvar, começa Dor e Glória com um panorama rápido da infância, que pra ele parece terminar aos trinta anos, mesma idade em que suas Dores começam — os primeiros problemas de saúde dos tantos que viriam. Eu, que aos trinta (ou seja, esse ano) conheci meu primeiro problema crônico de saúde, que me senti um turista hospitalar de tantos exames, que pela frequência já quase espero que recepcionista ou outro em alguma clínica me chame de meu anjo, vi o sexagenário Salvador, suas dificuldades em engolir comidas simples, os remédios que esmagava e misturava feitos pó num copo d’água, as Dores que dificultavam seu entrar e sair de um táxi, e me senti intimado.

Não pensei na morte. Mas percebi que, na típica fascinação humana, tinha pensado muito mais na morte que no seu antes, que na velhice que não é golpe nem sexy como a violência arrebatadora da morte; tinha ignorado o tempo de decadência e doença e Dor, de lentidão e restrições. Não sou do tipo que pensa a terceira idade como início do fim. A decadência de cada um me parece vir diferente. Dependendo, a morte vem aos 60, 80, 100 anos. Mas o lento desligar começa antes. Aos poucos, feito uma casa abandonada, o tempo, e a água e o vento que são seus símbolos, vão desativar minhas funções e eventualmente derrubar as estruturas; restarão alguns elementos físicos mais resistentes que com aos poucos desaparecerão também. O que começou com pequenas infiltrações aos poucos derruba paredes, e um dia vai corroer alicerces. Não sei se o chegar à lenta decadência é ou não privilégio. Acredito que sim.

Estranho ver esses 30 pelos olhos de alguém que passou por eles mais de duas vezes. Um ano que pra mim foi tão cheio de mudanças, de acontecimentos, de repente transformado em início graças à distância.

Se te subiu a suspeita e o medo de esse texto se transformar num papinho mamão-com-açúcar do tipo “nunca é tarde pra começar”, pode ficar tranquilo. Também não quero dizer que o Almodóvar trata os trinta como início da vida. Os trinta anos de Salvador são ponto de transição — mas são também parte do início, assim como o fim de uma história é parte dela. Eles são o fim da infância, e o início da idade adulta — ambas as coisas lembranças na mente de um homem da idade de Salvador. A idade se destaca porque, se me lembro, é a única mencionada numericamente, e também porque me identifico e crio eu mesmo o destaque. O que não muda nada.

E apesar da menção a Dores e doenças, é bom lembrar da outra palavra no título do filme. É tentador. Os trinta marcam no filme o início das Dores, mas também de uma carreira gloriosa. Salvador olha pra trás. Reflete. É melancólico, mas no sentido mais leve do termo. Deixou um legado cinematográfico que sem dúvida a seus olhos de artista é limitado e falho, mas que à altura do filme é clássico. Vive esses acontecimentos de um apartamento em Madrid repleto de enormes obras de arte (sinto a tentação de mentir, de dizer sem certeza que aqueles quadros regularmente habitam a casa do próprio Almodóvar, ou até que aquela é a casa onde o diretor vive. você provavelmente acreditaria nisso, porque faz sentido, e porque raramente verifica alguma coisa. mas esse não é um texto de ficção e não quero que se torne um. não quero minar sua confiança só pra fazer essa gracinha). O que ele criou chega o mais perto da Glória que se pode chegar enquanto artista. É algo que sobreviverá sua morte.

Saí do cinema às 23, desintoxicando a cada passo os olhos viciados no movimento da câmera. Segui pelas ruas do centro — a essa hora de uma quarta-feira, pouco movimentadas —, mãos no bolso do casaco marrom, a barba ajudando a proteger o rosto do vento de chuva. Pensava no filme, se ele tinha me envelhecido de alguma forma, nem que fosse a meus próprios olhos. Lembro que achei a cena final apressada, conciliadora. Preferiria que o filme acabasse na cena anterior, tão adequada, conforme o médico anestesia Salvador antes da cirurgia. A contagem regressiva do paciente sedado referindo as antigas reproduções cinematográficas, a escuridão da tela indicando renovação e transformação, além da ideia e possibilidade da morte, embora os outros fatores e características do filme fizessem dela improvável. Talvez um som de palmas acrescentado — uma ideia idiota, mau gosto que me passou pela cabeça no momento.

E de repente quase me matam do coração. Do meu lado, do nada, se materializa um cara de camiseta e calça jeans, me chamando, uma carteira de identidade na mão. Não sei dizer se era ou não morador de rua. As roupas eram inteiras, sujas, mas não mais que as roupas de um trabalhador braçal ficariam sujas. Ele falava claro, direto, mas isso não diz nada num tempo em que se vê deitados pelas calçadas casais acompanhados de cachorro em cama própria e uns poucos bens num carrinho de supermercado.

Não lembro das palavras exatas. Tentar reproduzi-las seria outra vez correr o risco de cair no boato, de transformar esse texto em ficção. E por isso descrevo em paráfrase:

Era aniversário dele. Trinta anos. Me pedia a moeda qualquer que eu pudesse dar como presente pra comprar um corote, que era, e dessas palavras me lembro, “meu melhor companheiro”.

Procurei nos bolsos pelas moedas que já tinha usado, procurei alguma coisa na carteira que só tinha um cartão de débito.

Apertei a mão de pele grossa, curtida pelo áspero. Disse parabéns e desejei boa sorte.

Pensei em fazer disso um conto, mas depois de tentar um pouco percebi que não daria certo. Coincidência demais. Achariam inverossímil, exagero do contista. A coincidência não-ficcional tem mais peso, ou atribuímos mais peso a ela. Dela os pensamentos nascem mais inevitáveis, e as ideias, e as crônicas.

Queria ter perguntado o nome dele, mas no rápido de tudo acabei esquecendo. Ele seguiu pelo centro, em pouco tempo uma quadra à minha frente, procurando qualquer na garoa da noite vazia de quarta-feira. Uma mulher mais velha, chapada, sentada na calçada, tinha ouvido a conversa e cantava um parabéns torto, as costas apoiadas nas paredes de um hotel que num dia como esses estaria vazio.

E parte do encanto do filme se quebrou. Aos poucos a cabeça saía do caso de Glória do cineasta, um caso que merece celebração e lembrança, a reflexão de um diretor que conseguiu o direito de por um momento faltar com o que chamam de humildade, sem punição, com graça.

Mas conforme via o homem se afastar, a proporção entre Dor e Glória nos meus pensamentos se invertia. Se aproximava mais e mais daquela que a maioria de nós tem que enfrentar. E de repente a possibilidade de pensar nos trinta anos como início parecia um grande privilégio.

 

brunonogueiraBruno Nogueira é mineiro, mas está atravessando um mestrado em estudos literários pela UFPR. É tradutor, autor do livro de contos A Síndrome do Impostor (https://kotter.com.br/loja/a-sindrome-do-impostor/) e da coluna Carnívoros (https://kotter.com.br/coluna-carnivoros-comeco-a-meditar-fechando-os-olhos/), em que mensalmente publica pequenos contos no site da Editora Kotter. Também tem alguns outros textos espalhados por aí, mas não se lembra bem onde e se arrepende sinceramente.

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