MATÉRIA | Um Lampejo de Segundo do Quarto Camarim, por Renan Porto

Em um trabalho de crítica, Renan Porto nos apresenta uma exegese acerca do filme Quarto Camarim. Através de uma linguagem acessível e profunda, somos convidados a observar o cinema em uma vinculação com a filosofia.

 

Quarto Camarim é o estuário onde se estreita subindo contra a corrente a busca lenta de um sonho. O esforço teimoso de uma autoilusão que é uma forma de fazer a si mesmo vivo no meio dos vivos. Vem antes do primeiro e do segundo no corredor que se entra pelos fundos. Se eu fosse um lógico diria que a terceira porta é justamente onde dorme a contradição. Mas o Quarto Camarim já se desprendeu dessa dialética perversa de uma identidade que carrega sempre nas costas a dor do seu negativo e finge um sorriso puro.

O filme é outra coisa. Não é exatamente amor nem sou eu, mas bonita a palavra perseguir. E de repente São Paulo entra na história. De repente Camele Queiroz (Mel) e Fabrício Ramos estão na estrada e vão a São Paulo ao encontro de Luma. Em São Paulo se chega? Assim como Fabrício e Mel, realizadores desse filme, eu também cresci no interior da Bahia e na verdade penso que é São Paulo que nunca deixou de chegar aqui. Desde criança sempre vi pessoas indo e vindo de São Paulo. Sempre voltavam diferentes. Embora nem sempre voltassem. Luma nunca voltou.

Luma, um tio que Mel não via há 27 anos. Se sendo travesti conseguiu construir uma vida em São Paulo talvez tenha sido por ter encontrado em si o que havia de mais feminino e mais forte. O que talvez não fosse bem uma grande verdade sobre si ou qualquer encontro consigo, mas justamente seu poder de se autoficcionar e se produzir, conseguindo esquecer o que lhe exigiam acreditar que era sua verdadeira imagem nalgum espelho. Derrida diz que o que há de feminino em Nietzsche é seu estilo, a performatização de sua escrita, que se desvencilha do falogocentrismo da metafísica por não ter a paranoia de a todo momento ter que erigir em mais alto e grosso tom sua verdade, mas mantê-la sempre um pouco mais a frente, tendo sempre que se estender um pouco mais para tocá-la, inebriado por ela que se desloca continuamente. Mas falar da mulher em Nietzsche é realmente algo muito controverso.

Em algum lugar que não lembro onde, a poeta portuguesa Maria Gabriela Llansol escreveu que o sexo de alguém é sua narrativa e que o sexo será o lugar do texto. Llansol também disse que onde há desejo, o conhecimento não está longe. É como se da verdade tivéssemos apenas o aroma que distende a carne do texto quando ela se faz próxima. E por estar tão perto não ousamos tocá-la. Escrever é sempre esse movimento às vezes lento às vezes rápido com uma trepidação ou um susto de alguma coisa que passa e não deixa de passar e a gente sempre tenta estender um pouco mais a linguagem para alcançar. E uma câmera é uma caneta muito muito complexa. Quantas imagens te fiz ver aqui sem que eu tenha uma câmera ou uma caneta?

No Quarto Camarim eu nunca estou muito longe do meu show. É muito difícil discernir o lugar em que durmo — e no meu sono esqueço de ser eu mesmo e a performance que faço de mim e que chamo de eu mesmo — e o lugar em que eu deliberadamente me esforço para ser totalmente outro. Mas quando escrevo uma ficção, coloco a verdade em algum lugar. E meu sexo, onde fica? Além de cabeleireira, Luma é performer e encena algumas cantoras. Numa das cenas do filme ela faz do seu quarto o lugar em que escreve seu desejo de ser ainda outra. Em Luma nunca se chega.

Daí que faz todo sentido fazer um filme sobre Luma, essa imagem que se desloca e se encadeia na imagem próxima e mais uma e de repente outra e logo outra e uma estória e nasce um filme. A busca de Mel e Fabrício por um encontro com Luma se confunde com a busca por um filme. Como conquistar a confiança de alguém e convencê-la de que mesmo depois de aparecer num filme ela não se tornará uma personagem? Mas o que surpreende no Quarto Camarim é como os realizadores conseguem quase convencer quem assiste de que as pessoas filmadas não são personagens quando estas parecem insistir em sê-las.

slife fino holmes

O filme faz uso de métodos de documentário, mas produz efeitos de ficção. No entanto, não é uma narrativa no sentido imediato do termo. Não há nenhuma voz que apresenta os fatos, os contextos e os personagens, mas um encadeamento de cenas e cortes que vão compondo a textura de uma história, de um caso, um encontro e uma existência que nos encanta sem ser apresentada por um terceiro. Luma nos mostra a beleza de uma recusa: não ser narrada, não ser organizada na história que alguém conta, pelo menos não de um jeito só. Ela nos faz pensar que cada um de nós pode confeccionar para si uma ficção que não nos afasta da dureza da realidade, mas nos amolece para nos fazer escorrer entre um fato e outro acreditando que é sempre possível ainda recriar nossa própria história.

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