ARTIGO | Orpheu e Távola Redonda: a vanguarda na literatura portuguesa no século XX

Por Daniel Osiecki *

Se levarmos em consideração a tese de Walter Benjamin, de que um dos principais objetivos dos artistas de vanguarda é o choque causado em seu receptor, ou o estranhamento, como preferiam os formalistas russos, vários poetas portugueses da primeira metade do século XX podem ser considerados de vanguarda. Lembremos do prosador Raul Brandão e sua incursão pelo decadentismo, com seus romances sem enredo e altamente sensoriais; ou Mário de Sá-Carneiro e sua poesia febril; ou Fernando Pessoa e Almada Negreiros, com todo o aparato estético-ideológico da geração da Revista Orpheu. Se nos aprofundarmos na história literária dessa geração, veremos que havia como um dos leitmotiv dos poetas de Orpheu uma clara combatividade dentro do stablishment português reacionário e pequeno burguês advindo do século XIX, com forte e acentuada produção que visava a ruptura com modelos preestabelecidos, defendendo formas antitradicionais de arte e o novo na fronteira do experimentalismo.  

O período em que surge a revista Orpheu é um momento histórico conturbado, em plena primeira guerra mundial e em plena ascensão dos movimentos de vanguarda na Europa, como Futurismo, Dadaísmo, Surrealismo. Eram movimentos distintos entre si, porém com o mesmo objetivo comum: causar impacto. Nota-se nas vanguardas europeias uma clara tendência pela forma ao invés do conteúdo; portanto, o objeto é o elemento formal pretendido.

Pode-se dizer que o orfismo (MOISÉS, 1968, 445) foi o primeiro movimento moderno português. Os jovens poetas que participaram desse movimento se opunham, primordialmente, à estagnação cultural e econômica portuguesa nesse período de guerra e de pouca visibilidade nacional. Há de se levar em consideração a neutralidade geopolítica de Portugal e o fato de ser um país periférico. Com claras tendências futuristas (alguns dos poetas orfistas tinham contato com Marinetti) a revista Orpheu defendia, em tom de manifesto, a inclusão de Portugal no mainstream europeu. Como relata MOISÉS, “Para tanto, pregavam o inconformismo e punham a atividade poética acima de tudo”(p. 445).

Ainda é possível notar na fase inicial de Pessoa, Almada Negreiros e Mário de Sá-Carneiro, certo apego ao Saudosismo de Pascoaes; porém, como a história mostra e comprova, gerações novas sempre buscam superar as anteriores, e Pessoa passou a chamar as experiências líricas que estava testando de Sensacionismo, Paulismo (de “paul”) e Interseccionismo. Segundo o próprio Pessoa, “Todo o objeto é uma sensação nossa. Toda a arte é a conversão duma sensação em objeto. Portanto, toda arte é a conversão duma sensação numa outra sensação”. 

“O poeta é um fingidor./ Finge tão completamente./ Que chega a fingir que é dor./A dor que deveras sente”… Este poema faz parte de um livro chamado O Cancioneiro, composto por poemas líricos, rimados e metrificados, de forte influência simbolista. Autopsicografia reflete sobre o fazer poético. Porém há de se perceber que o poeta parte de uma dor sua, real, integral. Só quem sente uma dor pode fingir que não a sente. Podemos entender que todo poema é uma viagem interior, é a busca do poeta por si próprio. Segundo Carlos Felipe Moisés: “o poeta é livre para escrever sobre o que quiser, mas quase sempre escreve sobre si mesmo” (MOISÉS, 1996, p. 21). Essa busca nunca, ou quase nunca, chega a seu fim. Carlos Felipe afirma que a poesia de autoconhecimento tem a força da tradição, que é a chamada tradição lírica. Essa tradição se caracteriza por uma ideia de confessionalismo, ou seja, o poeta faz ao leitor confissões íntimas, e também pelo sentimentalismo, pois o poeta lida principalmente com suas experiências afetivas.

Para David Mourão-Ferreira (1949) o fenômeno lírico não é caracterizado pela natureza da emoção ou do motivo. O que caracteriza o lirismo é o aspecto involuntário, ou seja, as emoções que se apresentam ao poeta e se desenvolvem no decorrer da criação poética. David afirma que toda poesia é lírica e o lirismo é um ideal de equilíbrio, ou seja, ele que dá às grandes épocas da poesia a razão de ser.

De acordo com as ideias estetizantes e confessadamente esotéricas, os orfistas põem-se a criar uma poesia alucinada, chocante, irritante, irreverente, com o intuito de provocar a burguesia, símbolo acabado da estagnação em que se encontra a cultura portuguesa. A poesia entroniza-se como a forma ideal de expressar o espanto de existir, sintetizando toda uma filosofia de vida estética, sem compromisso com qualquer ideologia de caráter histórico, político, científico ou equivalente. A aderência ao modernismo significa, pois, o rompimento com o passado, inclusive com o Simbolismo.

A revista corresponde a um momento em que as consciências se elevam para planos de indagação universal, para a constatação de uma angústia geral, fruto do contexto conturbado pelo qual passavam a Europa e o mundo no início do século XX. A Primeira Guerra Mundial é a manifestação nítida dessa crise provocada pela necessidade de abandonar as velhas e tradicionais formas de civilização e cultura (de tipo burguês) e de buscar novas fórmulas substitutivas. O homem perante sua própria imagem se angustia também pela ausência de Deus ou de qualquer verdade absoluta capaz de explicar a falta de sentido da existência.

Um segundo número de Orpheu é publicado em 1915 sob direção de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Um terceiro número, embora no prelo, não chega a sair, pois Mário de Sá-Carneiro, que vem sustentado financeiramente a revista, comete suicídio. Dos participantes de Orpheu, merecem destaque Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros.
            

A problemática da descontinuidade interior, da perda de uma identidade primeira que o leva a sentir-se “estrangeiro aqui como em toda parte” (Lisbon Revisited), que é responsável pela fragmentação do eu, como alegoria ao indivíduo moderno, o que podemos relacionar ao conceito benjaminiano de “obra de arte não orgânica” (1984).  “Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir” (Apontamento), constitui uma das obsessões do universo de  Álvaro de Campos, aparecendo em numerosos outros poemas. Ainda levando em consideração a afirmação de Burger:

Se tentarmos destrinchar o conceito de alegoria em suas partes constitutivas, obteremos o seguinte esquema: 1. O alegorista arranca um elemento à totalidade do contexto da vida. Ele o isola, priva-o de sua função. Daí ser a alegoria essencialmente fragmento e se situar em oposição ao símbolo orgânico (…) 2. O alegorista junta os fragmentos da realidade assim isolados e, através desse processo, cria sentido. Este é, pois, um sentido atribuído; não resulta do contexto original dos fragmentos. 3. Benjamin interpreta a atividade do alegorista como expressão da melancolia (BURGER, 1974, p. 127)

Se ainda levarmos em consideração a vanguarda como elemento causador de choque, de ruptura, de superação de gerações anteriores e de embates geracionais, podemos pensar em outro grande movimento literário do século XX, trata-se da revista Távola Redonda. A revista, que veio a público nos primeiros dias de fevereiro de 1950, com a data de 15 de janeiro, trazia o subtítulo “folhas de poesia”. Seus diretores e editores eram António Manuel Couto Viana, David Mourão-Ferreira e Luiz de Macedo. A nova revista literária que surgia, reinaugurava um estilo de publicações ausentes há oito anos, já que a última deste tipo, os Cadernos de Poesia, não vinha sendo editada desde 1942. Os fascículos traziam as páginas que serviriam de capa já com poemas impressos. Todas as suas folhas eram constituídas com o mesmo papel e com a mesma cor para cada fascículo. Em relação à disposição da matéria publicada, a organização era da seguinte forma: nas primeiras páginas, publicava-se poesia; no meio ou final, estudos teóricos ou críticos.

Fica claro, segundo pensamento dos poetas da revista, que em primeiro lugar deve-se dar atenção à poesia, mais especificamente, a um tipo de poesia em que a imaginação deve ter papel preponderante. Poesia que deve impor-se ao poeta como uma necessidade vital, a práxis vital sobre a qual Burger tanto se refere em seu estudo sobre as vanguardas, poesia que deve ser feita principalmente pelos jovens. Uma poesia lírica e que, por ser pessoal, deve opor-se à tendência social de expressão do coletivo. Portanto, a revista teve uma missão básica: acolher poetas novos dando-lhes uma oportunidade e um lugar para publicarem suas produções. Uma das metas principais da revista é a revalorização do lirismo. Decorrente de uma tradição lírica, inclusive encampada em termos teóricos pela revista, Távola Redonda apresenta, no conjunto de sua produção poética, uma poesia voltada para o próprio “eu” do poeta. Portanto, uma poesia pessoal, característica fundamental do lirismo. Considerada alienada por muitos autores, principalmente por entusiastas do Neorrealismo, Távola Redonda, para estes, não significou mais do que mero apego à tradição, ao cânone e ao espírito pequeno-burguês.

A revista durou quatro anos, de janeiro de 1950 a julho de 1954. Távola Redonda teve sempre uma preocupação básica: “ser um órgão vivo de Poesia, um testemunho da Poesia de seu tempo”. Para isso, buscou nos jovens poetas a sua principal fonte de colaboração. Tendência essa que se repetiu em praticamente todos os movimentos de vanguarda do início do século XX. Távola Redonda, assim como Orpheu, Presença, Árvore e outras revistas literárias da primeira metade do século XX, tinha bem claro uma consistente proposta crítico-literária. Havia uma urgência de renovação, mas uma renovação com embasamento teórico, e no caso de vários poetas e editores de Távola Redonda, como David Mourão-Ferreira, António Manuel Couto Viana e Luiz de Macedo, o embasamento teórico veio da academia. Uma das diferenças principais entre os poetas de Orpheu e de Távola Redonda, é sua proposta e seu repertório intelectual. Naturalmente deve-se levar em consideração o hiato que existe entre os dois periódicos. Em ambos os movimentos há a presença maciça de jovens poetas, revolucionários, inconformados com o status quo, porém, o que se viu no movimento orfista era uma poesia muito mais visceral, mais anárquica, menos lírica, extremamente pensada, mas não acadêmica; na Távola Redonda, por mais que houvesse a necessidade de romper com resquícios de um presencismo tardio, há uma espécie de retorno às formas mais tradicionais de poesia, como versos metrificados, alexandrinos, sonetos etc.

Como vimos, há de se levar em consideração as diferentes propostas das duas revistas: Orpheu, que teve forte influência dos futuristas italianos, principalmente de Marinetti, tinha um perfil bastante iconoclasta, febril, incendiário, e desejou romper, a qualquer preço, com as temáticas simbolistas metafísicas, pois se pretendia uma poesia sem metafísica, não acadêmica e sem prazo de validade; já Távola Redonda é uma espécie de retorno ao lirismo do final do século XIX, sepultado pelos orfistas anos antes. Porém, foi uma revista que foi contra a vertente do momento, que era tomada por prosadores. Se não esteve na vanguarda da poesia portuguesa moderna, rompeu com tradições e conceitos estilísticos e temáticos preestabelecidos no momento, fato que comprova seu olhar literariamente progressista; conservador sob alguns aspectos, porém jamais saudosista. Em seu livro Távola Redonda: uma experiência lírica, Jayme Ferreira Bueno aponta:

Távola Redonda, filiando-se à poesia tradicional, inscreveu-se na tendência poética que provinha de A Águia, de parte de Orpheu e da Presença, para citar somente as manifestações cronologicamente modernas. Dessa forma, opôs-se à poesia de vanguarda, como, por exemplo, a surrealista, e, de certo modo, contestou a poesia de orientação socializante, como a do Neorrealismo (…) O ceticismo em relação aos destinos políticos do mundo, e em especial de Portugal, aliado a um ideário de índole subjetiva, dirige a revista rumo a uma retomada do lirismo. A posição que Távola Redonda assume, de aparente descompromisso com o social, leva a sua produção poética a se voltar para um neo-esteticismo, a ponto de fazer da temática da própria poesia uma de suas preocupações fundamentais (BUENO, 1983, p. 135).

Dentre todas as revistas literárias que surgiram em Portugal na primeira metade do século XX, Orpheu e Távola Redonda são as mais relevantes exatamente pelo fato de terem levado a poesia a um novo patamar. No caso de Távola Redonda, por mais que tenha se pretendido um retorno ao lirismo e seguir certas tendências mais conservadoras, como usar formas fixas, métrica, rima e não manifestar-se politicamente, elaborou uma espécie de manifesto de seu ideário crítico e estilístico, mesmo sendo um grupo bastante plural. Orpheu comprova sua relevância pelo tom anárquico da maioria de seus poetas, da iconoclastia que se evidenciou principalmente em Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, e uma verve inconformista que era muito comum num período entre guerras, ainda mais num país periférico como Portugal, e esse inconformismo se refletiu na produção poética dos orfistas. Como já vimos, embora as duas revistas sejam bastante distantes (além do hiato que há entre as produções) ideológica e formalmente, ambas deram importância à geração nova, cada uma em seu tempo, com suas frustrações, anseios e vasta envergadura intelectual. 

*Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019). 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem estão no prelo. É mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro – vozes literárias.  Editor-chefe da Revista TXT Magazine.

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Sobre o autor

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Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

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Editor-chefe da TXT, Daniel Mascarenhas Osiecki nasceu em Curitiba, em 1983. Escritor e editor, publicou os livros Abismo (2009), Sob o signo da noite (2016), fellis (2018), Morre como em um vórtice de sombra (2019), Trilogia Amarga (2019) tendo mais dois no prelo: 27 episódios diante do espelho e Fora de ordem. Editor-adjunto da Kotter Editorial, é mestre em Teoria Literária e organizador do sarau-coletivo Vespeiro - vozes literárias.

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