POÉTICA DO ESTRANGEIRO | Autores capitalistas, por Sérgio Lutav

Selling out is the new keeping it real?

Vender livros nunca foi, no Brasil, tarefa fácil. Vender bons livros, menos ainda. Mas até agora, vender livros era apenas um dos meios de manter um escritor e um editor trabalhando. Havia eventos, compras por universidades, a lei Rouanet e outros subsídios oferecidos pelo governo.

Num estado de coisas em que há crise econômica e um governo trabalhando por retrocessos, isso se complica. Mais ainda quando o coronavírus inviabiliza o contato presencial, tão importante no entrosamento entre autores, editores e público.

Há outros complicadores. A tecnologia — em especial, o celular — passou a gerenciar e centralizar eventos cotidianos que costumavam ser distribuídos em diferentes pontos de contato na nossa vida cotidiana. Do banco à propaganda da loja local, das notícias do dia  ao pagamento em débito, da conversa entre amigos à influência política entre membros da família.

Enquanto isso, autores e editores continuam contando com os mesmos modelos de negócio. Naturalmente, é difícil pensar em novos modelos de negócio, em especial em mercados em crise. É difícil para pequenos editores, e quase impossível para os grandes. Vejo isso diariamente: é mais fácil mudar a mentalidade de um grupo de jovens empreendedores do que uma grande corporação.

Entretanto, às vezes a questão é de sobrevivência. Há pouca vontade de mudar o modelo de negócio conhecido dos editores independentes, apesar da dificuldade em mantê-lo viável. Não se trata de um ambiente em que existem inúmeras soluções disponíveis, mas inúmeros problemas sérios que demandam novas soluções. O risco de não procurá-las é ver ainda mais profissionais da literatura vendendo cortinas e venezianas retráteis em vez de produzirem bom conteúdo (aqui estou referenciando Broadway Danny Rose, do Woody Allen, que passava pelo mesmo problema).

Como não é possível produzir respostas de imediato (elas carecem de interesse e experimentação) finalizo este texto com perguntas.

Por que tantos livros custam R$80?

Por que os livros de bolso são marginalizados?

Quantas páginas de e-book é possível ler num dia?

Atores sem teatro, livros sem áudio. Não tem jeito?

Onde está o Netflix de livros de cada editora?

Mesmo com tanto conteúdo consumido em capítulos, por que novos autores não publicam assim?

Não seria bom pagar por poemas?

Por que o autor não fica com a maior parte do lucro da obra?

Quem aguenta  ver mais “lives”?

Abrace o desconforto.

Sérgio Lutav

O autor

Sérgio Lutav é mestre e doutor em Cultura e Tecnologia. É autor de Paramídia, um estudo sobre interpretação e texto social, trabalho apresentado em inúmeros eventos acadêmicos, inclusive no MIT. É pesquisador e consultor-líder de design, cultura e tecnologia na frog Design, atualmente a maior agência criativa do mundo. Mora e trabalha em Helsinki. Publicou Como invocar o Diabo e conjurar espíritos baixos (Kafka Edições, 2019).

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