RELEASE | 27 episódios diante do espelho*, de Daniel Osiecki

Ao chegar em minhas mãos mais um livro de poesia (pelo menos é esse o gênero informado na ficha catalográfica), me veio também à cabeça a seguinte questão (a parafrasear Brecht): O que há mesmo para ser cantado em tempos tão sombrios? Sem uma resposta minimamente satisfatória de minha parte, fui ver o que encontrava neste último volume da chamada Trilogia amarga, de Daniel Osiecki.  Por outro lado, é preciso reconhecer, já tendo lido os títulos anteriores (fellis e Morre como em um vórtice de sombra), eu estava bastante curioso em saber como se encerraria este pequeno conjunto de obras produzido pelo autor. Comecei, então, a leitura de “27 episódios diante do espelho”, que já de início parecia avisar: Ao entrar, deixe suas esperanças do lado de fora, pois aqui não haverá Virgílio a guiar Dante pelo inferno, muito menos a guiar você, leitor. 

Partindo de uma estrutura que dialoga com o texto dramatúrgico, Osiecki nos entrega uma obra fragmentada, estilhaçada, mas que às vezes lembra um poema narrativo, com sinais, aqui e ali, de um fio condutor. E seria isso poesia? Não importa. Uma resposta categórica sobre gêneros, nesse caso, seria desperdício de tempo, pois o que o autor menos espera é sanar nossas dúvidas. Por isso mesmo, nos oferece uma estrutura oscilante, construída a partir de uma arquitetura textual atravessada por distintas vozes, gêneros literários e extraliterários. Neste livro, ecoa um Manoel Bandeira pelo avesso. Há o trecho de uma canção de Chico Buarque (num típico processo de colagem). As palavras dançam nas páginas evocando Mallarmé e Maiakóvski. A tipografia, em certos momentos, surge em tamanho maior. Uma transmissão radiofônica interrompe o fluxo de leitura. Há listas de palavras. Há a presença de um diretor e de um coro de teatro lançando imperativos ao poeta personagem. E muito mais. O que demonstra o desejo de que “27 episódios…” se comunique e gere sentidos a partir de variadas técnicas e procedimentos inspirados naquilo que de melhor produziram as vanguardas do século passado e que o autor conhece muito bem.  

27 episódios diante do espelho (Kotter Editorial), terceiro volume da Trilogia Amarga.

Ao lançar mão do heterodiscurso, Osiecki engendra uma espécie de polifonia para nos revelar o quanto o seu fazer literário se opõe ao discurso único e fechado, à leitura única e fechada, e o quanto é antagônico à necessidade de dar a última palavra. Diante da atualidade, em que o autoritarismo emerge de dentro das próprias democracias liberais, temos o escritor a empunhar sua pena contra o monologismo. Não é de se estranhar que o conceito de polifonia tenha sido reflexo (em oposição) daquilo que o filósofo da linguagem russo Mikhail Bakhtin entendeu como sendo dogmático, autoritário e monológico dentro da sua própria sociedade. Parecendo estar ciente disso, Osiecki nos entrega não apenas um livro com apuro de linguagem e questionador. Conforme avançamos na leitura, descobrimos estar diante de uma obra de forte caráter político nascida num país em que fascistas e militaristas não param de se multiplicar, alimentados no desejo de calar e até mesmo aniquilar o outro (o diferente). Num dos episódios, os poetas, reprimidos pela cavalaria militar, são aconselhados a “contemplar enquanto podem”, pois, claro, devem desaparecer da província. Não seria isso também a representação de um tempo presente nada propício às subjetividades, ao pensamento crítico, aos conflitos existenciais e à abstração? Não à toa temos o espelho – símbolo que atravessa toda a obra – como objeto metafísico a refletir a interioridade densa que o poeta carrega consigo.  

Mas, Daniel Osiecki, é bom que se diga, não escreve apenas para atormentar a nossa consciência com seu “lirismo de pústulas” ou arrancar pela raiz todas as nossas esperanças, escreve para que saibamos que se não há muito (ou nada) a cantar nestes tempos sombrios, ao menos podemos sobreviver em meio ao obscurantismo com o uso inteligente da palavra, com a arte e a literatura. E isso, caríssimo leitor, já é muita coisa. 

Paulo Sandrini , escritor e editor.

*Serviço:

Lançamento virtual de 27 episódios diante do espelho (Kotter Editorial).

216 páginas. R,$ 44,70

Disponível em: www.kotter.com.br

Lançamento virtual dia 5/03, na Kotter TV (https://www.youtube.com/channel/UCu-91Sjww3m2S9nmUlQZkrA).

Horário: 19h00

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