RELEASE | CENTENÁRIO DE MORTE DE EMILIANO PERNETA É MARCADO POR LANÇAMENTOS LITERÁRIOS

Impossível falar da experiência literária de Curitiba sem mencionar, de largada,  a importância de seu movimento simbolista para a consolidação de um ecossistema de  autores, obras e revistas de poesia que colocaram, pela primeira vez na história, o  nome do Paraná no mapa literário brasileiro. Formado por nomes como Silveira Neto,  Nestor Vítor e Dario Vellozo, o movimento simbolista paranaense foi um dos mais  pujantes do país, o que colaborou para que a hegemonia estética de tal escola literária  fosse sentida por aqui de modo muito mais longevo que em outras paragens,  encontrando obstáculo somente com o advento da revista Joaquim – periódico  cultural fundado por Dalton Trevisan, em 1946, que sacudiu o coreto da literatura e  das artes curitibanas de então. 

Falecido em 19 de janeiro de 1921, Emiliano Perneta é considerado o mais  importante poeta da geração simbolista do Paraná, e este ano completa seu centenário de morte esperando por uma necessária redescoberta de sua obra, com novas leituras que a reabilitem para um diálogo com o contemporâneo. 

PRÍNCIPE DOS POETAS PARANAENSES

Nascido em uma família de comerciantes, em 03 de janeiro de 1866, Emiliano  Perneta foi escritor, jornalista, advogado e professor. Natural de Curitiba, cursou na  cidade o primário e o secundário, publicando nesta época os seus primeiros textos, em  jornais de circulação local. Republicano e abolicionista, formou-se em 1889 na  Faculdade de Direito de São Paulo. Na capital paulista, como também no Rio de  Janeiro, onde residiu entre 1890 e 1893, dirigiu diversas revistas e jornais literários,  atuando inclusive como secretário na Folha Popular, periódico em que foram  publicadas algumas das primeiras manifestações simbolistas do país. Após passagem  pelo interior de Minas Gerais, onde atuou como Promotor de Justiça, retornou a  Curitiba em 1902, de onde nunca mais sairia. 

De volta ao Paraná, Emiliano Perneta fundou a revista simbolista Victrix, em  1902, e, com Euclides Bandeira (1876-1947), o Centro de Letras do Paraná, em 1912,  presidido pelo poeta entre os anos de 1913 e 1918. Em 1911, publicou Ilusão, sua obra  mais conhecida, em uma peculiar cerimônia aberta no Passeio Público – local que  atualmente abriga uma ilhota batizada de “Ilha da Ilusão”, com direito a busto do  poeta que, naquele mesmo lugar, outrora fora aclamado por seus conterrâneos com o  lisonjeiro título de “Príncipe dos Poetas Paranaenses”.

POETA MEDÍOCRE? 

Tamanho prestígio, é claro, não poderia resultar em outra coisa que não a  transformação de Perneta no maior ícone da literatura paranaense de sua época.  Falecido em 1921, aos 55 anos de idade, Emiliano continuou hegemônico na cena  literária de Curitiba até o surgimento da revista Joaquim, fundada por um jovem de  talento, mas até então desconhecido, chamado Dalton Trevisan.  

Nas páginas da revista, seu corajoso editor, que mais tarde publicaria algumas  das mais importantes obras de contos do país, travou uma batalha encarniçada contra  o passadismo artístico e literário que dominava o ambiente cultural de Curitiba. Em uma estratégia voltada para a renovação da literatura local, mas também para a sua  autopromoção, Trevisan apostou alto na iconoclastia, atacando os principais nomes da  cultura paranaense em suas críticas corrosivas e demolidoras. Nesse contexto, ao  principal literato da província coube evidentemente um lugar de destaque. Em  “Emiliano, poeta medíocre”, Trevisan foi implacável, afirmando que a inspiração de  Perneta era “rasa como capim”, e que sua poesia só era apreciada por leitores que o  conheceram pessoalmente, por circunstâncias que escapavam às qualidades estéticas de sua obra. É deste artigo a célebre passagem que, em grande medida, definiria os  rumos que a recepção à obra de Perneta tomaria a partir da segunda metade do  século XX: 

“Emiliano foi vítima da província na vida e na morte. Em vida, a província não permitiu  que ele fosse o grande poeta que podia ser, e, na morte, o cultua como sendo o poeta  que nunca foi” 

Atacada por aquele que se tornaria o mais importante escritor da história do  Paraná, com o passar do tempo, a poesia de Emiliano Perneta passou a despertar cada  vez menos interesse entre as novas gerações, de modo que hoje pouquíssimo se lê da  obra do príncipe dos poetas paranaenses. Um século após a sua morte, porém, já é  hora de recolocarmos à prova a afirmação de Dalton Trevisan, de que a obra de  Perneta possuiria valor somente para aqueles que o conheceram em vida, revisitando  seus poemas com um renovado espírito crítico.  

O CENTENÁRIO DE MORTE 

Marcando o centenário de morte de Emiliano Perneta, a editora curitibana  Kotter preparou dois livros que prometem jogar luz sobre o legado de um dos mais  importantes escritores da literatura paranaense. O primeiro deles, lançado em junho deste ano, é uma releitura do poeta Marco Aurélio de Souza da obra Ilusão, a mais  importante da carreira de Perneta. Com título homônimo ao clássico simbolista, o volume  foi inteiramente escrito a partir de um diálogo com os poemas de Emiliano. Segundo o  escritor, historiador e pesquisador, “os poemas preservam as formas e as temáticas  originais de Perneta, mas buscam colocá-los em um diálogo explícito com o nosso tempo. 

Novo livro do poeta Marco Aurélio de Souza dialoga com o magnum opus do “Príncipe dos poetas paranaenses”.

Em certos casos, o sentido original foi invertido, mediante operações paródicas e irônicas.  Noutros, porém, a ideia foi simplesmente jogar luz sobre a atualidade da obra de Perneta,  que urge ser revisitada pela crítica e, mais que isso, pelos leitores de poesia. Trata-se de  uma homenagem ao ‘príncipe dos poetas paranaenses’, que busca recolocá-lo em um lugar de destaque que lhe é de direito em nossa história literária”. 

O segundo título é a antologia Na treva da província: poemas escolhidos de  Emiliano Perneta, organizada pelo poeta, crítico e ensaísta Donny Correia, para quem  “Emiliano Perneta é um poeta que anda na corda bamba sem uma vara para se equilibrar.  Seu eu-lírico está na província, mas não está alienado ao mundo e suas revoluções”. 

Livro organizado pelo poeta e estudioso Donny Correia visa resgatar a obra de Emiliano Perneta.

Para Correia, o desprezo de Dalton Trevisan pelo poeta simbolista enfeitiçou os  críticos futuros, mas há tempo para redescobrirmos as qualidades de Perneta. A antologia,  que será lançada neste agosto, é um “um convite a leitores, poetas e estudiosos da poesia  para que redescubram uma figura tão marcante do simbolismo brasileiro, de olhar plural e  sofisticado, ofuscado pela historicidade recente nos Estudos Literários, mas que, uma vez  visto de perto, com lupa, prova-se indispensável à continuidade do espólio histórico  literário brasileiro”. 

O lançamento de Na treva da província acontece no próximo sábado, dia 28 de  agosto, com um bate-papo virtual transmitido pelo canal da Kotter editorial no Youtube,  contando com as presenças de Donny Correia, Marco Aurélio de Souza, Daniel Osiecki e  Marcelo Tápia.

Serviço:

Lançamento do livro Na treva da província – poemas escolhidos de Emiliano Perneta. Seleção, organização e notas de Donny Correia (Kotter Editorial, 2021)

28/8, na Kotter TV, no You Tube, às 19h.  

R$ 39,70

À venda no site www.kotter.com.br

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