RELEASE | Novo romance de Otto Leopoldo Winck

Numa humilde família de descendentes de poloneses, no interior do Paraná, Sul do Brasil, a filha única, recém entrada na puberdade, de repente acorda com os estigmas da Paixão de Cristo. Rosália – este o seu nome – é guindada ao centro de uma viva polêmica: para uns é santa, instrumento nas mãos de Deus; para outros, não passa de uma fraude ou fruto da superstição. A Igreja, por sua vez, não reconhece o fenômeno. A família, a princípio assustada, logo percebe as vantagens advindas da peregrinação que de imediato se estabelece em torno da pequena estigmatizada: de uma hora para outra não precisam mais mourejar na dura terra, pois começam a chover ofertas e donativos. No entanto, ninguém se dá ao trabalho de indagar a opinião da menina a respeito daquela inusitada situação. Numa narrativa em terceira pessoa, em que o foco da narração se alterna entre vários personagens, ele nunca recai sobre a menina: ela não passa do objeto de interesse, curiosidade ou devoção da pequena multidão que gravita em torno dela.

Quinze anos depois, Rosália é uma mulher casada, mãe de três filhos. Não tem mais os estigmas (que desapareceram um ano depois, tão misteriosamente quanto haviam aparecido), nem gosta de se recordar deles. Ela está num acampamento de trabalhadores rurais sem-terra, uma fazenda invadida. Há tensão no ar, pois um juiz impetrou uma liminar de reintegração de posse e a polícia pode aparecer a qualquer momento para fazer cumprir o mandado. Com efeito, na confusão que se dá com a ação policial ao final do dia, o marido de Rosália é morto. No necrotério, ao reconhecer o cadáver, Rosália descobre que ele apresenta as mesmas marcas – nas mãos, nos pés e no tórax – que ela ostentou em criança. Um padre que assessorava o acampamento também é testemunha do fenômeno.

Novamente quinze anos depois, este mesmo sacerdote está encerrando a celebração de uma Missa do Galo. Despede-se de seus paroquianos e de repente se vê sozinho na noite da véspera de Natal. Angustiado, questionando as decisões que tomou ao longo da vida, resolve dar uma volta de carro. Encontra uma prostituta de rua e os dois entram num miserável quarto de hotel do centro velho da cidade. Não, ele não procura sexo, apenas uma companhia para passar o Natal. Na conversa com ela, porém, descobre que é a filha de Rosália, que o padre conheceu quando não passava de uma criança. Esta revelação – espécie de antiepifania – desembocará na redação de um livro: o romance que o leitor tem em mãos.

O romance, portanto, é esta história, recontada agora pelo solitário e desiludido sacerdote (e editada por um escritor inominado que frequentava ocasionalmente a paróquia). Nele estas três narrativas – a de Rosália menina, a de Rosália adulta e a do padre na noite de Natal – são seccionadas e reembaralhadas, de modo que as três tramas se desenrolam simultaneamente aos olhos do leitor. Esta “montagem” de textos encena uma arena onde os mais variados campos discursivos e ideológicos se digladiam e dialogam. Fé e ceticismo, engajamento e solidão, paixão e temor, as tradições polonesas, a luta pela terra e as relações de classe e gênero formam os fragmentos que compõem esta rosácea romanesca, tendo ao fundo a história do Brasil nas últimas quatro décadas. As respostas não estão dadas: nunca se sabe exatamente a origem dos estigmas e nem se de fato eles são reais. Há apenas uma certeza: tudo é mistério – e é bom que assim seja.

SOBRE O AUTOR

Doutor e mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), nasceu no Rio de Janeiro, capital, em 1967. Depois de uma passagem por Porto Alegre, radicou-se em Curitiba, em 1982. Em 2006 foi vencedor do prêmio da Academia de Letras da Bahia, com o romance Jaboc, publicado no ano seguinte pela editora Garamond. Em 2008 foi contemplado com uma Bolsa para Obras em Fase de Conclusão da Biblioteca Nacional, e em 2010 recebeu a Bolsa Funarte de Criação Literária, com as quais, respectivamente, produziu a primeira versão deste romance e uma novela, ainda inéditos. Em 2012 foi o vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, na categoria poesia, com o volume Desacordes, e em 2017 lançou pela Editora Appris o ensaio Minha pátria é minha língua: identidade e sistema literário na Galiza, resultado de sua pesquisa de doutorado. Cosmogonias, seu segundo volume de poemas, saiu em 2018 pela Kotter Editorial, e em 2019, pela mesma Kotter, em parceria com a Patuá, veio a lume seu último romance, Que fim levaram todas as flores. Leciona atualmente na PUCPR e no programa de pós-graduação stricto sensu da Uniandrade. Além disso tem ministrado há mais de dez anos oficinas de criação literária.

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