RESENHA | 1984, George Orwell

Autor: George Orwell
Tradução: Heloisa Jahn e Alexandre Hubner
Páginas: 416
Selo: Companhia das Letras

“A guerra é travada, pelos grupos dominantes, contra seus próprios súditos, e o seu objetivo não é conquistar territórios nem impedir que outros o façam, porém manter intacta a estrutura da sociedade.”

A palavra que melhor define 1984 é: clássico. Talvez não seja a melhor obra de George Orwell, mas sem dúvidas é uma das mais emblemáticas e uma das minhas distopias preferidas. Ela faz parte do grupo dos cinco livros distópicos que eu acredito que todos deveriam ler; muito por apresentarem grandes críticas sociais essenciais. Para mim essa lista consiste em 1984, Admirável Mundo Novo, Laranja mecânica, Fahrenheit 451 e Senhor das moscas. Minha intenção é falar um pouco de cada uma delas durante as edições da revista e, para começar escolhi, 1984.

O livro que foi publicado em 1949, em um contexto de Guerra Fria, consiste em uma distopia que faz uma clara crítica aos regimes totalitários que marcaram o Século XX. A história é narrada sob a perspectiva de Winston Smith, um funcionário do Ministério da Verdade, que é o departamento que manipula os fatos de acordo com o interesse do Estado, ou melhor, do Grande Irmão. A sátira dos regimes totalitários se constrói a partir da revolta no herói, mostrando os horrores letais do regime que controla a região que no livro é denominada como Oceânia.

Nas 482 páginas, somos apresentados à forma como é constituído um sistema totalitário. Essa ficção clássica consegue se conectar bem com a realidade através de vislumbres de como é possível cercear uma população de suas liberdades através da manipulação da realidade, da reconstrução da linguagem, do incentivo ao ódio, do controle e da manutenção das misérias. Cada aspecto no livro é coordenado por um Ministério diferente.

O Ministério da verdade, onde Winston trabalha, controla o passado, alterando-o, assim como as referências históricas para agir de acordo com as vontades do Grande Irmão, de forma a provar que o grupo no poder nunca cometeu qualquer erro. Manipulando o passado, os fatos, eles conseguem controlar as memórias e o futuro da população. Se for possível adaptar aos dias atuais, seria fácil comparar esse trabalho à difusão de Fake News que temos atualmente, que também exercem a função de convencer e demonstrar que os governantes nunca erraram.

“Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado.”

Um outro ministério é o da Paz, que é responsável pela guerra. Essa guerra é usada para direcionar o ódio que a população poderia vir a sentir do sistema, a um inimigo em comum e dessa forma manter os ânimos dos cidadãos controlados. Já o ministério da fartura, é responsável pelo controle econômico e também pela fome que assola a Oceânia. Fome essa que serve para manter uma população dependente e fácil de ser manipulada e também são eles os responsáveis pela divulgação de dados falsos sobre a produção, a fim de fingir que o país vai bem. Já o Ministério do amor é responsável pela espionagem e repressão de rebeldes. Julgando, torturando, eliminando e fazendo uma lavagem cerebral visando converter aqueles que se rebelam.

Vale frisar que uma das características mais importantes para a manutenção desse regime, é a implantação da Novilíngua (newspeak). A linguagem é facilmente convertida em uma ferramenta de opressão e no livro ela acontece ao reduzir a língua e retirar as definições e palavras que poderiam se opor ao governo. A ideia é que seria impossível definir e alimentar algo que não existisse, retirando o sentido negativo. Além disso, também se suavizava expressões a fim de que as emoções não parecessem tão intensas ou as ideias muito inflamadas.

E são essas estruturas que compõem o governo do Grande Irmão, que genialmente tem uma força e um poder descomunal. No entanto, é também apenas uma abstração. É assim que se cria toda a máxima de Poder pelo Poder que a autarquia do governo vive e também alimenta o lema do regime.

“Guerra é Paz. Liberdade é Escravidão. Ignorância é Força”

Lema do Partido – 1984

É nesse contexto que a história de Winston Smith se desenrola, envolto a essa atmosfera sombria e claustrofóbica que começa questionar a existência miserável que leva e também se depara com o amor e com as escolhas que o levam a se rebelar. Todo o enredo é incrivelmente bem encaixado e coeso, que prende o leitor do início ao fim.

Descrever mais seria entrar em spoilers, que não é em nada minha intenção. Mas uma conclusão ao ler o livro, é a comparação que podemos fazer com os dias atuais em que as relações internacionais estão abaladas e que parece existir várias versões falsas de um mesmo fato.

Essa resenha é para mostrar que 1984 é uma ótima pedida para amantes de distopia (como eu) e também para aqueles que apreciam análises políticas sob uma ótica diferente, principalmente sobre o totalitarismo. É uma indicação para todos que querem evitar cair em armadilhas de governos totalitários.

O livro que é distribuído pela Companhia das Letras, pode ser adquirido na Amazon tanto físico quanto na versão digital pelo link e também em várias outras livrarias.

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