RESENHA | A Síndrome do Impostor, de Bruno Nogueira

bruno_nogueira_livroA Síndrome do Impostor
Ano: 2018
Editora: Kotter Editorial
Sinopse: “Acreditaram em mim.
Dá vontade de rir.
Acreditei, e nem precisei depender desse domínio pobre das palavras. Foi só me cercar das pessoas certas e tomar de empréstimo a aura de credibilidade. Recortar e colar algumas ideias, cada uma retirada de um nome que eu sabia que eles respeitaram, encaixar as referências certas nos lugares certos.
E agora recebo um prêmio.
Que merda.”

***

Falar que o livro de Bruno Nogueira é totalmente ficcional parece uma besteira. Aliás, não tenho a menor dúvida de que, de fato, é uma besteira. Porém, não consigo não observar nessa redundância uma afirmação bastante cabal: A Síndrome de Impostor gosta de criar ficções, sobretudo falácias. Dividido em 11 contos, o livro de Nogueira trata sobre os mais diversos temas que circundam desde a uma mulher que encontra redenção diante de uma loja de esportes num shopping até a compreender de forma pseudo-academicista e blá blá blá realidade virtual. O que os une é justamente é a sua capacidade de serem, efetivamente, ficções. Talvez um tanto lá abraçados aos latino-americanos, vendo pelas frestas das escadas grandes coisas, ou então o fato de poderem ser guardados em algum delírio babélico infindável que só mesmo um bibliotecário que supostamente ficou cego poderia encontrar para nós.

O fato é que Bruno gosta mesmo é de fazer de sua ficção o que os poetas mais detestam: admitir que é mentira. É realmente proveitoso dizer que na dedicatória do meu livro encontramos o seguinte comentário: “uma leitura nada proustiana, mas com sorte, bela”. Não que Proust não seja bem mentiroso, e nem belo, mas talvez gostasse de fingir que não mentia, ou que havia motivos filosóficos bons o bastante para ter escrito o que escreveu. Todavia, Bruno aventa a possibilidade de um mundo virtual em que a não existência da concretude das coisas (ou talvez no que tem de mentirinha) pudesse alcançar proporções dignas de intervenções estatais e outros estudos acadêmicos para tentar tirar proveito dessa tecnologia de realidade virtual. Parece-nos, em miúdos, que a veracidade dos fatos não importa, mas sim seus desdobramentos intelectuais: não exatamente um raciocinador, mas sim um sonhador.

Gosto que em um dos contos, logo no começo do livro, um rapaz tenta de alguma forma acompanhar os demais ciclistas em uma campanha de ciclismo até outra cidade. Um sujeito sem a menor experiência no feito. Na volta, dentro de um ônibus e com a bicicleta guardada no porta-malas, a personagem de alguma forma repensa os motivos pelos quais sua vontade compulsiva de mentir o levou a praticar esse exercício homérico que, em suma, foi infrutífero. Fica a impressão de que a mentira está intimamente ligada à busca de uma superação de um fracasso, ou da negação do insucesso. Ser impostor se bota como uma produção de uma persona nova que, na arte, se vê viva, ou que no coma de nós é capaz de reagir. Talvez mentir pudesse ser, em uma alquimia esquisita, a superação de si mesmo, como Nietzsche gostaria de exprimir.

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Sobre o autor

Tarik Alexandre
Mestre em Filosofia (UFPR). Pesquisador de teoria da literatura. Editor da Tudo éX Texto e das editoras Urso e BuruRu. Tem experiência como revisor de textos acadêmicos e literários, além de leitura crítica. Oferece seus serviços de Revisor e leitor crítico no Laboralivros.

Tarik Alexandre

Mestre em Filosofia (UFPR). Pesquisador de teoria da literatura. Editor da Tudo éX Texto e das editoras Urso e BuruRu. Tem experiência como revisor de textos acadêmicos e literários, além de leitura crítica. Oferece seus serviços de Revisor e leitor crítico no Laboralivros.

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