RESENHA | Cinquenta, Julio Urrutiaga

Cora Coralina era goiana, poeta e contista, autora de livros atemporais e marcantes para a literatura do meu estado e de todo país, como Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais e Estórias da Casa Velha da Ponte. Ela, assim como diversas pessoas, escritores ou não, tinha sua própria visão do que era viver bem. Acho que para abrir a resenha de Cinquenta, do autor Julio Urrutiaga Almada, é ótimo começar pela visão dela.

Para a poeta, o viver bem se ancorava em não ter medo dos anos nem da passagem do tempo. Não dizer que está envelhecendo, que está doente, que está ficando esquecida eram palavras negativas e de certa forma convencia os outros desses acontecimentos.

O melhor roteiro segundo Cora, era ler, estar atualizada com os fatos, praticar o que lia e sempre produzir. Ela nunca negou que trazia consigo todas as idades, mas para ela, ela era a terra e só isso lhe bastava completamente. Com a noção de que em algum momento alguém teria que enterrá-la, ela decidiu que esse alguém não seria ela própria.

Então, com a sabedoria que a fez viver por mais de 95 anos, decidiu viver.

Julio Urrutiaga Almada traduziu essa necessidade da vida e de viver em sua obra Cinquenta, publicada esse ano, reunindo os poemas que viveu e ainda vive durante seus 50 anos de vida e os 35 anos como escritor. Esse livro que tive o prazer de ler e poder trazer a resenha, o autor fala sobre poesia, vida, morte, tempo, amor, se reconhecer no mundo e vários outros temas incríveis.

A apresentação do livro foi feita pelo poeta William Teca. Ele começa falando sobre uma definição de poesia vinda de um poeta carioca, que “poesia é sentir e dar sentido”, uma definição que ele diz parecer simples, mas que pode abrigar as nuances do fazer poético e do próprio ser humano. Ele fala sobre a poesia de Julio, que traz o sentido dessa poética para o cotidiano, para o viver, para as experiências que ele tem de forma real, transitando pela agressividade e pela doçura, pelo infinito e pela realidade, pelo cru e pelo carnal.

Ele sintetiza bem a essência do livro, são 50 poemas, 50 anos de vida.

Confesso que fui grifando os poemas que mais gostei e mais queria falar aqui, porém ao final da minha seleção, poucos poemas eu havia (com pesar) deixado de lado. Então tive que fazer uma nova triagem e assim consegui separar oito poemas para falar um pouco mais.

O sexto poema, Poemas Mal_Ditos (2007), foi um dos que eu mais gostei, sem dúvidas. Ele fala sobre a poesia, sobre a dor de escrever e quão atrelado isso está ao viver.

Chega de promessas do paraíso repleto de prazeres artificiais.

Escrevo uma dor ácida e aviso:

sou o menos morto dos mortais!

Em outra parte, no poema Fora de Moda, ele reflete sobre não viver de aparência. Há algo sobre julgamentos, sobre não ser ovelha negra e nem querer estar em rebanho nenhum.

Deus me livre esperar

Um julgamento.

Eu que ainda não sou

nem ovelha negra.

Eu que de rebanhos

Quero distância

Julio também divaga sobre a arte, sobre o fato de que a arte está em se inalar, ou seja, em si mesmo, no silêncio que não existe em nós.

A arte está

Em inalar-se.

Recompondo a quebra

Por dentro.

No Poema de Tigres, Almada reflete sobre o homem que é. As não suavidades, a dualidade entre o tigre e o homem que ele é.

Deixem-me por entre flores negras

Por entre minhas não suavidades

O tigre que sou – Só garras.

O homem que sou – Só olhos.

As saudades que também apareceram por sua vida, estão em vários poemas e é o título do poema de número 40. Há divagações sobre o que é saudade.

São os lugares que ficam

São os barulhos de sempre

São os ladrilhos do tempo

São os nossos silêncios.

Durante a nossa vida, outro sentimento que nos perpassa é o amor, que também é um tema recorrente em Cinquenta. Ele fala, por exemplo, no Poema para ser breve, sobre o amor e suas diversas facetas.

O Amor nunca é veloz

de forma alguma.

É feito de escombros lentos,

forjados inteiros de uma ranhura.

E é nesse ritmo que o livro se constrói, entre lembranças, vida, passagem do tempo, sentimentos. Com a poesia sendo como ela é, infinita em si mesma e ao mesmo tempo finita em nossa humanidade. A obra é sobre a história de Julio, sobre sua poesia, sobre seus sentimentos e tudo isso se mistura de forma muito coesa e delicada, se misturando em si mesma.

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